
*Artigo escrito por Isis Santana Rodrigues, pesquisadora em arte cemiterial (história e fotografia) no Laboratório Leena (Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes) da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes), mestre em Teoria e História da Arte e doutoranda em Arte e Cultura pela Ufes.
Os espaços públicos no estado do Espírito Santo guardam uma rica herança histórica, artística e cultural, expressa em monumentos, edifícios e praças que ajudam a narrar a trajetória social e simbólica da região capixaba.
Manter contato com esse patrimônio é fundamental para fortalecer o sentimento de pertencimento e ampliar a compreensão sobre a própria história.
Nesse contexto, o olhar atento para estes espaços, muitas vezes invisíveis como os cemitérios, revelam novas possibilidades de entendimento e sensibilidade, ressignificando os espaços de luto e memória.
Além de serem lugares de enterramentos, memória e pesquisas acadêmicas, também têm explorado seus atrativos culturais, históricos e artísticos com ênfase na arte tumular através do turismo cemiterial.
Atualmente, no mundo todo, existe essa modalidade de turismo que é conhecido como turismo mórbido, sombrio ou de excentricidade. Frequentemente as visitas a esses locais são feitas por interesse nas figuras sepultadas (políticos e artistas) pelo aspecto arquitetônico, para obter conhecimento e cultura ou mesmo como lazer.
Existem diversos cemitérios no Brasil e no mundo que aderiram às práticas do turismo cemiterial. Um exemplo emblemático é o turismo ao túmulo de Evita Perón, localizada no Cemitério da Recoleta, em Buenos Aires, Argentina, que recebe multidões de visitantes de diferentes países, tornando-se uma referência turística e de grande relevância para a cidade.
No Brasil, há visitações guiadas no Cemitério da Consolação em São Paulo, que abriga túmulos famosos como de Tarsila do Amaral (Artista/Pintora), Mário de Andrade (Escritor) e Monteiro Lobato (Escritor).
Já no Cemitério São João Batista no Rio de Janeiro é possível visitar os túmulos de Cazuza (Cantor e Compositor), Machado de Assis (Escritor), Vinicius de Moraes (Poeta e Compositor), entre outras grandes personalidades.
No Espírito Santo temos o Cemitério de Santo Antônio, onde está localizado o túmulo de Wilson Freitas (Piloto e Remador pelo Saldanha da Gama), Moacyr Avidos (Engenheiro), Adélia Kothich (figura lendária e popular no estado), entre outros.

Inaugurado em 1912, atualmente não possui visitações turísticas, mas abriga um grande conjunto escultórico com mais de 60 obras que revelam temáticas sacras, femininas, infantis e bustos que narram histórias de vida, saudade, crenças e trajetórias sociais profundamente ligadas a formação histórica do Espírito Santo.
Para estabelecer e consolidar essa modalidade turística no Cemitério de Santo Antônio, torna-se necessário ampliar os investimentos em segurança, infraestrutura e divulgação, por meio de articulação entre o poder público e/ou privado.
Também se faz fundamental a informatização e a catalogação de monumentos, túmulos e esculturas tumulares da necrópole, bem como a criação de um site e materiais informativos como panfletos com mapas, fotografias e dados sobre a localização de tais túmulos, soma-se a isso a proposta de programas de capacitação de guias especializados em turismo cemiterial.
Quando bem planejado e conduzido, o turismo pode se tornar um importante instrumento para evitar o esquecimento desses espaços.
Sugere-se ainda a ocupação cidadã deste cemitério, de modo que seus espaços passem a ser percebidos e fruídos pela população como um verdadeiro parque de memórias, contribuindo para a desmistificação de sua aura fúnebre.
Como precursor em estudos da arte cemiterial no estado, o Laboratório Leena – Laboratório de Extensão e Pesquisa em Artes, da Universidade Federal do Espirito Santo, tem realizado pesquisas sobre arte fúnebre desde o ano de 2017 até o presente momento.
A intenção é registrar, catalogar, fotografar, divulgar e preservar o patrimônio artístico e cultural presente na região capixaba, fortalecendo pesquisas acadêmicas e ampliando as oportunidades de aprendizagem a partir desse território.
Assim, o turismo, entendido como um fenômeno social, auxilia na visibilidade de diversos espaços e lugares, e os mantém como recursos ativos nos dias atuais.