Refinaria de petróleo: Crise na Venezuela é repleta de desafios e oportunidades para o Espírito Santo. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil
Refinaria de petróleo: Crise na Venezuela é repleta de desafios e oportunidades para o Espírito Santo. Foto: Fernando Frazão/Agência Brasil

Artigo escrito por Érico Colodeti Filho, especialista em investimentos pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Especialista em criptomoedas pela Associação Nacional das Corretoras Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários, Câmbio e Mercadorias (Ancord). Professor universitário e apresentador do “Me Tira do Perrengue“.

A recente escalada das tensões na Venezuela, seja pela persistente crise política, pela retórica territorial ou por instabilidades internas, projeta uma sombra inegável sobre o mercado global de energia. Nesse sentido, levanta questões importantes sobre os preços das commodities e, por extensão, sobre a inflação e a economia brasileira. Para um país e um estado como o Espírito Santo, com forte vocação para o setor de óleo e gás, as reverberações são duplamente significativas. Do mesmo modo, demandam análise e preparo.

A Venezuela, apesar de sua produção debilitada, detém as maiores reservas comprovadas de petróleo do mundo. Qualquer perturbação geopolítica que afete sua capacidade produtiva ou que gere apreensão nos mercados tem o potencial de impulsionar os preços da commodity.

Em um ambiente global já volátil, com conflitos em outras regiões produtoras, a instabilidade na Venezuela adiciona um prêmio de risco. Ele se traduz, quase que imediatamente, em barris mais caros. Esse aumento do preço do petróleo, por sua vez, opera como um dínamo inflacionário global. Ou seja, eleva os custos de transporte, os insumos industriais e, em última instância, o preço final de diversos produtos.

Para o Brasil, as consequências são multifacetadas. Como um país que, embora produtor, também é sensível aos preços internacionais para a formação de seus custos internos e que possui uma gigante estatal, a Petrobras, com um papel central na política de preços de combustíveis, a alta do petróleo é uma faca de dois gumes. Por um lado, pode significar maiores receitas para a Petrobras, potencializando investimentos e, teoricamente, distribuindo mais dividendos para o acionista controlador, o governo federal.

Por outro, o repasse desses aumentos para as bombas de combustível e para a cadeia produtiva pressiona a inflação. E isso desafia a política monetária do Banco Central. Nesse sentido, o BC pode ser compelido a manter ou até elevar as taxas de juros para conter a disparada dos preços. Essa dinâmica, de juros mais altos para controlar a inflação importada, encarece o crédito, desestimula o investimento e pode frear o crescimento econômico.

O Espírito Santo no cenário

É neste cenário de complexas interdependências que o Espírito Santo se insere. O Estado, que consolidou posição como um dos grandes polos de exploração e produção de petróleo e gás no Brasil, vê a instabilidade venezuelana com uma perspectiva singular.

Por um lado, a valorização do petróleo pode se traduzir em um aumento substancial na arrecadação de royalties e participações especiais. O que confere ao governo estadual maior capacidade de investimento em infraestrutura, educação e saúde. Por outro, os desafios inflacionários decorrentes de um petróleo caro não poupam a economia capixaba. As empresas locais, tanto as diretamente ligadas ao setor de óleo e gás quanto as de outros segmentos, enfrentam custos de energia e logística mais elevados. Ou seja, isso impacta suas margens e, consequentemente, a capacidade de gerar empregos e riqueza.

Ainda no contexto capixaba, a valorização do petróleo tende a incentivar novos investimentos em exploração e produção na Bacia de Campos e no pré-sal capixaba. São regiões que já se destacam pela alta produtividade. Esse movimento, naturalmente, gera um aquecimento da cadeia produtiva local, desde a indústria naval e de serviços de apoio até a demanda por mão de obra especializada. No entanto, essa expansão não pode prescindir de um planejamento estratégico de longo prazo. Nesse sentido, que considere a sustentabilidade ambiental, a capacitação contínua de recursos humanos bem como a atração de novas tecnologias. Ou seja, garantindo que o ciclo de bonança do petróleo se traduza em desenvolvimento duradouro, e não apenas em uma injeção momentânea de capital.

Política fiscal x fatos na Venezuela

Em um horizonte mais amplo, a resiliência da economia brasileira e capixaba frente a essas dinâmicas globais de preço exige, além de uma política monetária e fiscal austera, um compromisso renovado com a diversificação. Investir em energias renováveis, no agronegócio de alta tecnologia bem como no setor de serviços, setores que o Espírito Santo já demonstra grande vitalidade, é um caminho sensato para reduzir a dependência da volatilidade do petróleo com a crise da Venezuela.

A busca por um superávit primário consistente bem como a redução da dívida pública se tornam ferramentas ainda mais potentes para criar amortecedores contra choques externos. Ou seja, isso permite que o país e o Estado naveguem com maior segurança por um oceano geopolítico cada vez mais turbulento.

Érico Colodeti Filho é especialista em investimentos, professor universitário e apresentador do Me Tira do Perrengue. Foto: Divulgação

A situação da Venezuela, portanto, serve como um lembrete contundente da vulnerabilidade das economias regionais e nacionais a eventos geopolíticos distantes. Para o Espírito Santo, a gestão prudente dos recursos advindos do petróleo em períodos de bonança torna-se ainda mais crucial. A diversificação da economia, o estímulo a outros setores produtivos bem como a construção de uma base fiscal robusta são estratégias essenciais para mitigar os riscos associados à dependência de uma única commodity.

Nesse contexto, a instabilidade na Venezuela não é apenas uma notícia política, é um dado econômico que exige atenção, planejamento bem como, acima de tudo, uma gestão fiscal e monetária que preserve a resiliência e a capacidade de crescimento da economia brasileira e capixaba.

Redação Folha Vitória

Equipe de Jornalismo

Redação Folha Vitória é a assinatura coletiva que representa a equipe de jornalistas, editores e profissionais responsáveis pela produção diária de conteúdo do Folha Vitória. Comprometida com a excelência jornalística, a equipe atua de forma integrada para garantir informações precisas, atualizadas e relevantes, sempre alinhada à missão de informar com ética, democratizar o acesso à informação e fortalecer o diálogo com a comunidade capixaba. O trabalho do grupo reflete o padrão de qualidade da Rede Vitória de Comunicação, consolidando o veículo como referência em jornalismo digital no Espírito Santo.

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