
O ex-presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto sabia dos graves problemas de liquidez enfrentados pelo Banco Master durante a sua gestão à frente da autoridade monetária, mas evitou tomar medidas mais extremas contra o banco.
À época, havia a expectativa de que o Master tivesse ativos que pudessem ser revendidos ao mercado. Dentro da lógica de separação do “good bank” (parte boa do Master) e o “bad bank” (ativos podres do banco). Assim, o custo para o sistema financeiro e o Fundo Garantidor de Créditos (FGC) seria menor.
O crescimento da instituição financeira de Vorcaro ocorreu entre 2019 e 2024. Campos Neto chegou a dar uma espécie de ultimato informal até março de 2025 para se encontrar uma “solução definitiva”, segundo apurou a reportagem.
A decisão sobre a liquidação acabou sendo executada pelo atual presidente do BC, Gabriel Galípolo, em novembro do ano passado.
Procurado, Campos Neto não se pronunciou sobre os questionamentos da reportagem.
A interlocutores, Campos Neto tem dito que o processo de decisões do BC é técnico, e não exclusivo da presidência – e que tudo passa pela análise da Diretoria de Fiscalização e pela diretoria colegiada do órgão.
Segundo relatos, ele alega que, durante seu período à frente do BC, não houve proposta de voto encaminhada para o colegiado para que o Master sofresse algum tipo de intervenção ou fosse liquidado.
Atuação para evitar intervenção em 2024
O Estadão apurou que pelo menos duas vezes Campos Neto teria atuado para evitar uma intervenção ou liquidação do Master ao longo do ano de 2024, seu último ano à frente do BC: uma primeira em março e outra em novembro.
As datas coincidem com o aperto da fiscalização sobre o Master, de acordo com relato feito pelo BC ao Tribunal de Contas da União (TCU), no processo sob a relatoria do ministro Jhonatan de Jesus.
Segundo o documento, no primeiro semestre de 2024, o Banco Central passou a fazer “acompanhamento contínuo da gestão de risco de liquidez” do Master. Isso porque a instituição tinha um cronograma forte de desembolsos para o pagamento de passivos, ao mesmo tempo que mantinha no seu balanço “baixo estoque de ativos líquidos”.
“Nessas circunstâncias, o Banco Central determinou a adoção de providências com vistas a assegurar a liquidez em níveis suficientes e adequados, assim como a apresentação de plano de contingência de liquidez atualizado”, afirma o BC.
Ainda de acordo com o documento enviado ao TCU, o BC diz que, no segundo semestre de 2024, a crise no Master se agravou, com frustração do seu plano de negócios, que previa captar R$ 15 bilhões em recursos institucionais de longo prazo – mas somente R$ 2 bilhões foram efetivamente captados.
“Ainda assim, a instituição financeira manteve a contratação de operações estruturadas de longo prazo e reduzida liquidez, sem gerar fluxos financeiros relevantes. O gerenciamento inadequado do risco de crédito contribuiu para o agravamento da crise de liquidez do conglomerado”, diz o BC.
Irregularidades detectadas pelo Banco Central
No documento, o BC cita que detectou uma série de irregularidades no Master.
“Em função da atipicidade das operações, o Banco Central apurou a existência de irregularidades relacionadas a: insuficiência de capital, como resultado de ajustes determinados após se apurar que haviam sido prestadas informações incorretas à Autarquia; inexistência de ativos líquidos na composição de fundo de liquidez que dava amparo às operações estruturadas de longo prazo; e não atendimento de normas relativas ao gerenciamento do risco de crédito, inclusive por depender de informações prestadas por terceiros”, diz o banco.
Como mostrou o Estadão, o Banco Central sob Campos Neto também editou uma norma, em outubro de 2023, alterando a contabilização de precatórios (dívidas judiciais) como ativos de risco carregados pelos bancos, mas com uma brecha que ajudou o Master a não ter obrigatoriedade de fazer alterações em seu balanço.
Com isso, o Master, que carregava bilhões de precatórios e direitos creditórios em seu balanço, pôde continuar operando sem a necessidade de receber mais aportes por parte dos sócios ou ser obrigado a vender ativos.
Em agosto de 2023, a Warren Investimentos soltou relatório a clientes não recomendando a compra de CDBs do Banco Master. Ou seja: no mercado, já havia desconfianças sobre o crescimento acelerado do banco.
Cartão amarelo
No relatório enviado ao TCU, o Banco Central relata que, a partir de novembro de 2024, o Master passou a ter dificuldades para rolar suas dívidas por meio das plataformas de investimentos.
É também a partir desse mês – um antes de Campos Neto deixar o cargo – que o Master começa a não recolher os compulsórios exigidos junto ao Banco Central. Esse é um dinheiro que os bancos são obrigados a deixar depositado no BC, como medida de prudência para a estabilidade do sistema financeiro.
“Diante das dificuldades de captação de recursos de investidores institucionais e mesmo após iniciar cessões de carteiras em conformidade com o plano de contingência implementado, a partir de novembro de 2024 o Banco Master S.A. não conseguiu mais rolar a totalidade de obrigações vencidas captadas via plataformas de investimento. Além disso, houveram registros de diversos episódios de recolhimento insuficiente dos depósitos compulsórios por parte do conglomerado.”
O agravamento da crise levou o BC a notificar o Master de que o banco poderia ser alvo de medidas “prudenciais preventivas”. Uma espécie de cartão amarelo, tendo como base uma resolução do Conselho Monetário Nacional (CMN), de 2011. Que busca “assegurar a solidez, a estabilidade e o regular funcionamento do Sistema Financeiro Nacional”.
Seus dirigentes foram cientificados pelo Banco Central de que essa situação poderia dar azo à aplicação de medidas prudenciais preventivas previstas na Resolução CMN nº 4.019, de 29 de setembro de 2011.
Banco Central
A norma permite ao BC exigir que controladores de bancos façam aportes nas instituições, que ativos sendo vendidos e que haja limite para a distribuição de lucros e dividendos.
Origem do banco e aval concedido em 2019
A autorização para a compra e operação do então banco Máxima (depois rebatizado para Master) por Daniel Vorcaro aconteceu em outubro de 2019, primeiro ano de Campos Neto, indicado para o cargo pelo ex-presidente Jair Bolsonaro.
Os problemas que levaram à prisão de Vorcaro começarma em janeiro de 2025. Sendo um “crime novo”, segundo Polícia Federal, com a venda de carteiras falsas de terceiros ao Banco de Brasília (BRB).
Crescimento exponencial
Do final de 2019 ao fim de 2024, o Master (então banco Máxima) deixou de ser um banco com R$ 3,7 bilhão em ativos para alcançar R$ 82 bilhões, em valores nominais, sem considerar a inflação, de acordo com dados do Banco Central.
Segundo relatório da agência Moody’s, o crescimento do banco foi de 40% ao ano em 2019. Chegando a 100% em 2024 – ano em que o banco dobrou de tamanho.
“Em menos de quatro anos, o Master se tornou a 25ª maior instituição financeira do Brasil, em junho de 2024, quando era a 77ª em 2021”, diz a agência.
Campos Neto, quando esteve à frente do BC, sempre teve uma agenda a favor do crescimento dos bancos pequenos e médios, assim como dos bancos digitais, as chamadas fintechs, para tentar diminuir a concentração bancária no País.
Essa agenda, contudo, sempre deixou o BC em uma situação entre apertar a fiscalização. O que acabaria prejudicando os pequenos, ou deixar o mercado correr mais solto, a fim de estimular a concorrência.
Ao que parece, no caso do Master, o banco pode ter se aproveitado das regras para crescer de forma desordenada e possivelmente criminosa. Segundo investigações da Polícia Federal na Operação Compliance Zero.