Daniel Vorcaro dono do Banco Master
Daniel Vorcaro, dono do Banco Master: iniciais do executivo aparecem em documento. Foto: Banco Master

No contrato de confidencialidade oferecido por agências para que influenciadores promovessem conteúdo com ataques ao Banco Central (BC), que determinou a liquidação do Banco Master, constava as iniciais de Daniel Vorcaro, dono da instituição, e previsão de multa de R$ 800 mil para quebra do sigilo.

O Estadão obteve um dos contratos de confidencialidade.

Quem recebeu a proposta

O documento foi tanto para o vereador Rony Gabriel (PL-RS), de Erechim, que tem 1,7 milhão de seguidores no Instagram, quanto para a comunicadora Juliana Moreira Leite, com 1,5 milhão de seguidores na mesma rede. Os dois recusaram fechar o acordo.

Nem o Banco Master nem Daniel Vorcaro estão nominalmente no documento. Mas o teor da parceria após a assinatura do contrato tem o nome de “projeto DV”, iniciais do empresário.

O presente Acordo tem por objeto a proteção de todas as informações confidenciais às quais a PARTE RECEPTORA venha a ter acesso em razão de conversas, reuniões, documentos, mensagens, materiais, análises ou qualquer interação relacionada a projetos conduzidos pela UNLTD, incluindo, mas não se limitando, ao projeto estratégico em questão denominado por enquanto: PROJETO DV.

diz o documento

Cláusulas e multa

“Este Acordo aplica-se independentemente de haver contratação formal, prestação de serviços, vínculo empregatício ou societário entre as partes”, continua abaixo.

O contrato também prevê uma multa de R$ 800 mil pelo descumprimento das cláusulas.

Elas incluíam a obrigação de “manter absoluto sigilo sobre todas as informações confidenciais”. “Não divulgar, compartilhar, reproduzir ou comentar tais informações com terceiros”.

“Utilizar as informações confidenciais exclusivamente para fins relacionados aos projetos da UNLTD”, e “adotar medidas razoáveis para impedir acesso não autorizado às informações”, entre outras.

O descumprimento de qualquer obrigação prevista neste Acordo sujeitará a PARTE RECEPTORA ao pagamento de multa não compensatória no valor de R$ 800 mil. Sem prejuízo da apuração e indenização por eventuais perdas e danos adicionais, bem como demais medidas legais cabíveis.

O contato com o gabinete de Rony Gabriel foi em 20 de dezembro por André Salvador, que consta na Receita Federal como um dos sócios da Unltd Network Brazil, uma empresa que presta serviços de marketing. Procurado, ele não se manifestou.

“Estamos fazendo um trabalho de gerenciamento de reputação e gestão de crise para um executivo grande. E temos contratado perfis que se posicionaram para nos ajudar nessa disputa política em que estamos travando contra o sistema. Posso te explicar melhor por telefone se tiver interesse em abrir conversa”, escreveu Salvador ao assessor do vereador naquele dia.

Influenciadores e narrativa sugerida

O agente enviou uma série de vídeos que poderiam servir de modelo para o conteúdo para publicação de Rony Gabriel.

Os links são de publicações dos comunicadores Carol Dias (7,4 milhões de seguidores no Instagram), Paulo Cardoso (4,3 milhões de seguidores), Marcelo Rennó (625 mil seguidores) e André Dias (118 mil seguidores), e também o perfil de humor Alfinetei (25,3 milhões de seguidores).

Os comunicadores citados criticavam a liquidação do Master e repercutiram a notícia de que o Tribunal de Contas da União (TCU) tinha pedido explicações ao BC sobre a operação. A ação do TCU, de Jhonatan de Jesus, um indicado político ao órgão, foi alvo de críticas por especialistas e autoridades.

“Um banco foi a liquidação em um prazo considerado incomum. Diante da rapidez do processo, o órgão de controle solicitou esclarecimentos ao Banco Central. O prazo para resposta terminou sem a apresentação de explicações, o que levantou questionamentos”, escreveu o @alfinetei, levantando suspeição sobre o processo.

Quando o órgão como o TCU entra no caso, é porque tem algo muito errado. No momento em que um banco cresce muito rápido, ele tira cliente, espaço e lucro de muita gente grande, e isso incomoda demais. Quando um banco é liquidado, ele não some (…) só entra em liquidação. Ou seja, quem tem dinheiro, compra barato. Será que isso não vira oportunidade para muita gente grande?

questionou o @cardosomundo, de Paulo Cardoso.
Monitoramento da ofensiva nas redes

O Estadão/Broadcast revelou que instituições e autoridades envolvidas com a liquidação do Banco Master sofreram uma série de ataques nas redes sociais pouco antes da virada do ano, segundo apontava um monitoramento da Febraban (Federação Brasileira de Bancos).

A ofensiva, concentrada em um período de 36 horas, utilizou contas conhecidas por promover celebridades para questionar a credibilidade de órgãos como o Banco Central e a Febraban em relação à operação de liquidação do Master, decretada em novembro pelo BC e que está sob o escrutínio do TCU.

O levantamento mostra que o pico ocorreu no dia 27 de dezembro, somando 4.560 posts. Houve uma “redução significativa” nos últimos três dias, com 132 publicações registradas nas 24 horas até o dia 5, todas provenientes do X.

Embora figuras como Gabriel Galípolo (BC) e Isaac Sidney (Febraban) tenham sido citadas, o alvo principal foi o ex-diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do BC Renato Dias Gomes. Responsável pelo veto da oferta de compra do Master pelo Banco de Brasília (BRB).