Mercado ainda busca pistas sobre o futuro dos juros. (Foto: José Cruz/Agência Brasil)
Mercado ainda busca pistas sobre o futuro dos juros. (Foto: José Cruz/Agência Brasil)

A comunicação do Comitê de Política Monetária (Copom) estará sob a lupa do mercado financeiro nesta e na próxima semana. Analistas buscarão no comunicado e na ata da reunião que começa nesta terça-feira (27) mudanças que abram as portas para o início de um ciclo de cortes já no encontro seguinte, em março.

Às vésperas da decisão – que será anunciada na quarta-feira, com manutenção da taxa de juros em 15% ao ano -, prevalece a avaliação de que uma sinalização explícita da autoridade monetária sobre seus próximos passos é pouco provável.

Assim, os detalhes da comunicação ganham ainda mais importância. O mercado ficará atento, por exemplo, à análise do cenário econômico, às projeções de inflação e a possíveis modificações no trecho referente à decisão de política monetária.

A probabilidade de um direcionamento muito claro no sentido de queda dos juros é bastante reduzida. Acho que ele irá descartar pontos que mantiveram o comunicado hawkish (postura voltada à alta dos juros) até agora, mas não trará sinalizações dovish (voltada à queda dos juros), no sentido de um apontamento claro sobre os passos futuros.”

Economista-chefe da CM Capital, Carla Argenta

Ainda segundo ela, a opção por um discurso neutro nesse aspecto deve permitir que o comitê acompanhe por um pouco mais de tempo o processo de maturação de dados e eventos macroeconômicos, como a evolução do cenário de inflação, do mercado de trabalho e dos impactos da reforma do Imposto de Renda (IR).

Argenta projeta o início do ciclo de cortes da Selic em março. Na comunicação de janeiro, diz, terá atenção especial às avaliações do comitê quanto ao mercado de trabalho e ao ritmo de serviços.

Ela espera também ajustes no parágrafo sobre a prescrição de política monetária. Com a subtração do trecho que diz que o colegiado não hesitará em retomar o ciclo de ajuste caso julgue apropriado.

“A retirada desse termo seria uma sinalização de um aumento da probabilidade de queda. De que o Banco Central está considerando esse movimento para a reunião subsequente”, afirma Carla Argenta.

Mercado aposta em início do corte da Selic em março

O início do ciclo de cortes da Selic em março se tornou a aposta quase unânime do mercado financeiro. Indica levantamento do Projeções Broadcast publicado na última quinta-feira (22). Segundo a pesquisa, esse é o cenário de 34 de 37 casas consultadas.

O cenário já esteve mais dividido. Na reta final de 2025, um número maior de instituições via a possibilidade de redução já nesta reunião de janeiro. Entre elas, estava o Banco Inter, que revisou recentemente a projeção de início dos cortes para março.

A economista-chefe Rafaela Vitória explica que o tom conservador adotado pelo colegiado na comunicação da reunião de dezembro e os dados macroeconômicos mais recentes justificaram postergar a estimativa.

Vitória entende que na comunicação de janeiro a tendência é que o Copom mantenha uma abordagem mais conservadora. Mas abra as portas para o início do afrouxamento na reunião seguinte.

“Não necessariamente indicando que considera cortar a partir de março, mas pode comunicar que os próximos passos estão abertos à evolução do cenário”, diz a economista.

Inflação e câmbio podem abrir espaço para afrouxamento

Ela frisa que o cenário na próxima reunião tende a contribuir para o início da flexibilização. Com um câmbio mais benigno e inflação corrente mais baixa.

A baixa expectativa por um sinal explícito da autoridade monetária reflete declarações recentes de membros da autarquia.

No início de dezembro, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou que, embora exista no mercado uma busca por uma “seta”, o colegiado não vê a necessidade de ter um código sobre o que irá ou não fazer. Dias depois, frisou que não havia “seta nem porta fechada” em relação à decisão do comitê.

O economista-chefe da Porto Asset, Felipe Sichel, pondera que, desde a reunião de dezembro do Copom, houve alguns sinais de atividade mais forte, mas que o processo de desinflação mostrou continuidade.

O Copom não vai decretar vitória até porque a inflação segue acima do centro da meta, mas esperamos que o comitê comece a discutir na ata as condições a partir das quais o grau atual de restrição monetária possa ser revisto.”

economista-chefe da Porto Asset, Felipe Sichel,

Sichel, que também prevê início dos cortes em março, espera um comunicado em janeiro praticamente inalterado, com principal ponto de atenção na projeção de inflação. Na última reunião, o Comitê disse esperar alta de 3,2% para o IPCA no 2º trimestre de 2027, atual horizonte relevante da política monetária.

“Essa projeção tem sido utilizada como ferramenta para ajudar a alinhar as expectativas do mercado. Se o Copom optar por reduzir para 3,1%, então existiria uma sinalização mais clara de que o ciclo pode começar efetivamente em março. Se mantiver em 3,2%, a mensagem é de que ele precisa ser surpreendido entre as reuniões para efetivamente começar o ciclo”, diz.

Sete diretores

O desfalque temporário do colegiado tende a ser um pormenor na reunião de janeiro. Desta vez, a decisão será tomada por sete e não nove diretores, como de costume.

A situação atípica ocorre porque ainda não houve a indicação dos substitutos para as diretorias de Política Econômica e de Organização do Sistema Financeiro e Resolução, vagas desde o final do ano passado.

Argenta observa que nas últimas decisões o colegiado se mostrou extremamente coeso. Além disso, entende que, tendo em vista esse histórico, a ausência de dois diretores não tende a modificar a interpretação da instituição sobre a forma como a política monetária deve ter condução.

Vitória entende que a situação até pode ter alguma influência na discussão, mas minimiza eventuais efeitos.

Nós não temos no Brasil uma transparência em relação aos membros do Copom sobre suas convicções individuais, como há nos Estados Unidos, por exemplo, que os membros falam abertamente e têm projeções que, inclusive, às vezes, são divergentes. Não é o caso aqui. Então, é difícil dizer que esses dois membros que saíram eram os mais hawkish, por exemplo, o que poderia ter uma influência.”

Economista-chefe Rafaela Vitória