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Fintechs: facilidade para o cliente pode virar dor de cabeça e o caso Will Bank está aí para provar. Crédito: Arte Folha Vitória

Artigo escrito por Érico Colodeti Filho, especialista em investimentos pela Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima). Especialista em criptomoedas pela Associação Nacional das Corretoras Distribuidoras de Títulos e Valores Mobiliários, Câmbio e Mercadorias (Ancord). Professor universitário.

O mercado financeiro brasileiro tem passado por uma revolução sem precedentes nas últimas décadas, impulsionado pelo surgimento e ascensão das fintechs. Essas empresas, que combinam tecnologia de ponta com serviços financeiros, prometeram – e em grande parte entregaram – democratizar o acesso a produtos e serviços bancários, reduzir custos bem como simplificar a vida do consumidor. No entanto, nem toda história de inovação é uma jornada linear de sucesso. O caso do Will Bank, por exemplo, ilustra os desafios inerentes a um setor tão dinâmico e competitivo, servindo como um lembrete. Ou seja, sustentabilidade, governança bem como solidez são cruciais para a longevidade.

O que são fintechs e como transformam o mercado?

Antes de mergulharmos nos nomes e nas particularidades, é essencial entender o que são as fintechs. Nesse sentido o termo, uma junção de “financial” (financeiro) e “technology” (tecnologia), refere-se a empresas que utilizam a inovação tecnológica para oferecer soluções financeiras de forma mais eficiente, acessível e, muitas vezes, menos burocrática do que as instituições bancárias tradicionais. Do mesmo modo elas operam em diversos segmentos: bancos digitais, meios de pagamento, crédito, investimentos, seguros, gestão financeira pessoal, entre outros.

A proposta é clara: otimizar processos, cortar intermediários, reduzir taxas e proporcionar uma experiência mais fluida bem como centrada no usuário, tudo na palma da mão, via aplicativos e plataformas digitais. Essa agilidade e foco no cliente conquistaram milhões de brasileiros, que se cansaram das altas tarifas e da lentidão dos bancos convencionais.

Caso Will Bank: alerta no setor e conexão com Banco Master

O caso do Will Bank, uma instituição financeira digital que havia conquistado um público expressivo, especialmente nas regiões Norte e Nordeste, tomou um rumo drástico no início de 2026. Nesse sentido serviu como um alerta para todo o setor.

Em 21 de janeiro de 2026, o Banco Central (BC) decretou a liquidação extrajudicial do Will Bank. Do mesmo modo essa medida extrema foi motivada pelo comprometimento de sua situação econômico-financeira, pela constatação de sua insolvência e, crucialmente, pelo vínculo de interesse evidenciado pelo exercício do poder de controle do Banco Master.

O Banco Master já havia tido sua própria liquidação extrajudicial decretada em novembro de 2025, após ser alvo de uma investigação policial que apurava fraudes estimadas em R$ 12 bilhões. Nesse sentido, as investigações indicavam que o banco estruturava operações que inflavam artificialmente seu balanço, enquanto sua liquidez real se deteriorava. Além disso, o Banco Master oferecia Certificados de Depósito Bancário (CDBs) com rentabilidades muito superiores à média do mercado, assumindo riscos elevados para sustentar esse modelo.

Após a liquidação do Banco Master, o Will Bank tentou operar sob um Regime de Administração Especial Temporária (RAET), na tentativa de preservar suas atividades. Porém, em 19 de janeiro de 2026, foi constatado o descumprimento pela Will Financeira da grade de pagamentos com a Mastercard, um arranjo essencial para as operações de cartões. Isso resultou no bloqueio de sua participação. Ou seja, diante dessa falha operacional crítica e do cenário de insolvência, o BC considerou inevitável a liquidação extrajudicial também do Will Bank.

Este desfecho serve como um poderoso lembrete de que, mesmo em um setor inovador como o das fintechs, a solidez financeira, a governança corporativa bem como o cumprimento rigoroso das obrigações regulatórias são pilares inegociáveis para a segurança dos clientes e a sustentabilidade do negócio.

Proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC): o que você precisa saber

Em um cenário de tanta inovação das fintechs e, por vezes, instabilidade, surge uma pergunta fundamental para os clientes: meus recursos estão protegidos? No Brasil, a principal resposta a essa pergunta é o Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Nesse sentido, trata-se de uma entidade privada sem fins lucrativos, mantida pelas próprias instituições financeiras associadas, que tem como objetivo proteger depositantes e investidores em caso de intervenção, liquidação ou falência dessas instituições.

O FGC garante o ressarcimento de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ, por instituição financeira (fintechs incluídas) ou conglomerado financeiro (entendido como um grupo de instituições financeiras que atuam sob a mesma marca ou controle). Ou seja, este limite de R$ 250 mil é válido por instituição ou por conglomerado, sendo o teto de cobertura total de R$ 1 milhão a cada período de 4 anos por conjunto de instituições do mesmo conglomerado financeiro.

Importante destacar que a cobertura do FGC é automática para os produtos elegíveis (como depósitos em conta corrente, poupança, bem como CDBs, LCIs, LCAs) e não implica custos adicionais para o cliente. Ou seja, é um serviço financiado pelas próprias instituições associadas, que contribuem regularmente para o fundo.

Análise comparativa: as maiores fintechs do mercado brasileiro e a proteção do FGC

Para entender o panorama completo, é fundamental olhar para os grandes players que moldam o mercado financeiro digital no Brasil. Abaixo, apresento algumas das maiores fintechs, detalhando suas características e particularidades, incluindo sua relação com o FGC:

Nubank:

Descrição: O maior banco digital do mundo fora da Ásia, oferece uma gama completa de serviços bancários digitais. Isso inclui conta corrente sem tarifas, cartão de crédito sem anuidade, empréstimos, investimentos (NuInvest), seguros e soluções para pequenas e médias empresas (PJ).

FGC: Sim. A cobertura é automática e sem custos adicionais para os produtos elegíveis.

Riscos: Intensa concorrência, desafios regulatórios e a necessidade constante de inovação.

Mercado Pago:

Descrição: Braço financeiro do Mercado Livre, funciona como uma carteira digital robusta e plataforma de pagamentos. Oferece conta digital, cartão pré-pago, crédito para vendedores e consumidores, investimentos e maquininhas de cartão.

FGC: Sim, para valores mantidos na conta digital que são aplicados em CDBs emitidos por instituições financeiras associadas ao FGC. A cobertura é automática e sem custos adicionais.

Riscos: Concorrência acirrada no setor de pagamentos, gestão do risco de crédito e dependência do sucesso do Mercado Livre.

PicPay:

Descrição: Inicialmente uma carteira digital, expandiu-se para se tornar um ecossistema financeiro completo, com conta digital, pagamentos via QR Code, cashback, crédito (empréstimos e parcelamento de boletos), investimentos e Pix.

FGC: Sim, para valores mantidos na conta digital que são aplicados em CDBs emitidos por instituições financeiras associadas ao FGC. A cobertura é automática e sem custos adicionais.

Riscos: Sustentabilidade do modelo de negócios focado em cashback, alta competição e desafios na fidelização.

Stone:

Descrição: Líder em soluções de pagamento para pequenos e médios empreendedores, oferece maquininhas de cartão, conta PJ digital, crédito, gestão financeira e serviços de e-commerce.

FGC: Sim, para produtos de investimento oferecidos por meio de instituições financeiras associadas ao FGC. A cobertura é automática e sem custos adicionais.

Riscos: Exposição ao desempenho do varejo, concorrência crescente e necessidade de constante inovação em tecnologia de pagamentos.

PagBank / PagSeguro:

Descrição: Começou com maquininhas de cartão (PagSeguro) e expandiu para um banco digital completo (PagBank), oferecendo conta digital gratuita, cartões, investimentos (CDBs com bom rendimento), crédito, seguros e diversas soluções para PF e PJ.

FGC: Sim. A cobertura é automática e sem custos adicionais para os produtos elegíveis.

Riscos: Competição feroz no setor de pagamentos e bancos digitais. Tem desafios na gestão da carteira de crédito.

Banco Inter:

Descrição: Um dos pioneiros entre os bancos digitais, oferece uma plataforma completa com conta digital gratuita, cartões, crédito, investimentos (corretora própria), seguros, câmbio e até shopping integrado com cashback.

FGC: Sim. A cobertura é automática e sem custos adicionais para os produtos elegíveis.

Riscos: Necessidade de constante inovação, desafios na rentabilização da ampla base de usuários e concorrência no segmento de investimentos.

XP Inc.:

Descrição: Embora mais focada em investimentos, a XP também se tornou uma fintech relevante ao democratizar o acesso a produtos financeiros sofisticados. Oferece plataforma de investimentos, conta digital (XP Conta), cartões com cashback e soluções de crédito.

FGC: Sim, para produtos de investimento que se enquadram nas regras do FGC (ex: CDBs de instituições parceiras). A cobertura é automática e sem custos adicionais.

Riscos: Pressão regulatória, concorrência de outras plataformas de investimento e desafios na expansão para um público menos investidor.

C6 Bank:

Descrição: Banco digital com foco em experiência do usuário, oferece conta digital gratuita, cartão de crédito sem anuidade (incluindo o C6 Carbon), conta global em dólar e euro, programa de pontos Átomos, investimentos e soluções para PJ.

FGC: Sim. A cobertura é automática e sem custos adicionais para os produtos elegíveis.

Riscos: Alta competição no segmento de bancos digitais premium, necessidade de expandir a base de clientes e gestão eficiente dos custos operacionais.

Neon:

Descrição: Focado em descomplicar a vida financeira do brasileiro, oferece conta digital, cartão de crédito sem anuidade, investimentos (CDB), empréstimos e ferramentas de organização financeira.

FGC: Sim. A cobertura é automática e sem custos adicionais para os produtos elegíveis.

Riscos: Concorrência intensa de bancos digitais com maior portfólio de produtos, desafios na captação e fidelização de clientes.

Creditas:

Descrição: Especializada em crédito com garantia (imóvel ou veículo), que permite taxas de juros mais baixas. Também oferece produtos para veículos (Creditas Auto), soluções para salários e benefícios, e seguros.

FGC: Sim, para produtos de investimento que se enquadram nas regras do FGC (ex: LCIs/LCAs e CDBs emitidos por parceiros). A cobertura é automática e sem custos adicionais.

Riscos: Dependência do mercado imobiliário e automotivo, desafios na avaliação e gestão de garantias, e concorrência no crédito.

A dinâmica do futuro financeiro

O cenário das fintechs no Brasil é de efervescência contínua. As empresas buscam constantemente inovar, aprimorar a experiência do usuário bem como expandir seu portfólio de serviços para atrair e reter clientes. No entanto, o caso do Will Bank serve como um lembrete vívido de que o crescimento exponencial não garante a perenidade. A sustentabilidade, a rentabilidade e a capacidade de adaptação às mudanças econômicas e regulatórias são fatores-chave.

Érico Colodeti Filho é especialista em investimentos e professor universitário. Foto: Divulgação

Para o consumidor, essa diversidade é uma bênção, pois oferece mais opções, mais competitividade e, frequentemente, melhores condições. Contudo, é fundamental que cada indivíduo exerça a sua própria diligência, compreendendo as particularidades de cada instituição, os diferenciais dos seus produtos, os riscos inerentes a cada operação e, crucialmente, se e como seus recursos estão protegidos pelo FGC.

A escolha das fintechs ideais não deve se basear apenas em promessas ou na facilidade de uso, mas em uma análise consciente que alinhe as necessidades do cliente com a solidez e a segurança que a instituição oferece. O jogo das fintechs está longe de terminar, e o futuro promete ainda mais inovações e desafios, exigindo um consumidor cada vez mais informado e atento.

Redação Folha Vitória

Equipe de Jornalismo

Redação Folha Vitória é a assinatura coletiva que representa a equipe de jornalistas, editores e profissionais responsáveis pela produção diária de conteúdo do Folha Vitória. Comprometida com a excelência jornalística, a equipe atua de forma integrada para garantir informações precisas, atualizadas e relevantes, sempre alinhada à missão de informar com ética, democratizar o acesso à informação e fortalecer o diálogo com a comunidade capixaba. O trabalho do grupo reflete o padrão de qualidade da Rede Vitória de Comunicação, consolidando o veículo como referência em jornalismo digital no Espírito Santo.

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