
É possível uma criança ficar sozinha na piscina, sem boias de braço, e ainda assim estar protegida? A pergunta costuma causar apreensão em pais e responsáveis, mas foi justamente esse estranhamento que acompanhou o início de uma ideia criada pela empresária capixaba Cássia Dillem, em 2013.
A partir de uma necessidade vivida com a própria filha, Lara Dillem, 14 anos, ela desenvolveu uma roupa de banho com sistema de flutuação integrado. A solução nasceu quando Lara, então com 2 anos, rejeitava as boias tradicionais. Sem encontrar alternativas no mercado, decidiu criar a própria.
Moradora de Jardim Caburi, em Vitória, Cássia conta com orgulho que hoje a marca é consagrada e sucesso em vendas, inclusive entre os filhos de famosos, como o jogador de futebol Neymar Jr.
Uma solução improvisada que funcionou
O primeiro modelo foi feito de forma simples, costurado diretamente no maiô da criança. “O primeiro protótipo foi bem gambiarra mesmo, mas resolveu o meu problema”, conta.
A flutuação passou a fazer parte da roupa, sem risco de se soltar, permitindo que a criança entrasse e saísse da piscina com mais autonomia, sempre sob supervisão.
Ela detestava boias de braço. Machucavam, limitavam os movimentos, e eu precisava ficar o tempo inteiro dentro da água com ela. O que eu fazia era amarrar o macarrão, né, no peito dela. Só que aquilo também não me eximia de ficar dentro da água. Eu precisava ficar dentro da água porque, a qualquer momento, aquilo solta, né?
Cássia Dillem, empresária
E continua: “Então, era a única coisa que a Lara aceitava. E, de muito pensar, de muito matutar, numa vida muito corrida, com uma demanda muito grande como profissional e como mãe, a gente sempre quer trazer praticidade. E aí foi quando eu costurei aquele sistema de flutuadores no maiô da Lara, porque aí não ia ter jeito de aquilo se desprender”.
A cena chamava a atenção. Em praias e clubes, pessoas se aproximavam assustadas ao ver a criança flutuando sem boias aparentes. “As pessoas diziam: ‘Olha, a menina tá sozinha. E eu falava: fica tranquila, ela tá protegida”, relata.
Foi nesse momento que Cássia percebeu que a ideia poderia ir além do uso pessoal. “Aquilo começou a despertar o interesse das pessoas e eu pensei: isso pode virar um bom negócio.”

Da maternidade ao empreendedorismo
Antes de criar sua marca, Cássia, hoje com 50 anos, construiu uma carreira de cerca de 30 anos no mercado institucional. Mesmo como CLT, mantinha outros empreendimentos.
A maternidade, no entanto, trouxe uma nova perspectiva. “Era uma questão de sobrevivência. Eu precisava descansar, precisava ter lazer também”, diz. A necessidade prática do dia a dia foi o gatilho para a inovação.
Produto patenteado e em constante evolução
Após o interesse do público, a empresária buscou, em 2015, um escritório especializado para verificar a originalidade da ideia. A roupa flutuante foi então registrada no Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI), com pedido de patente de invenção.
O modelo atual utiliza tecidos certificados com proteção UV e flutuadores posicionados no tórax e nas costas. Esses dispositivos podem ser removidos gradualmente.
“A gente chama de sistema de aprendizado, porque ele pode ser retirado aos poucos”, explica.
Mais autonomia, menos sustos
Diferentemente das boias de braço, a roupa não limita os movimentos. “As crianças se sentem empoderadas. Elas falam: ‘Eu tô sozinha, eu tô sozinha’”, relata Cássia.
Segundo ela, o processo de adaptação é fundamental, especialmente nas menores e que no início, é importante entrar junto com a criança na água para ajudar a encontrar o ponto de equilíbrio.
A proposta não elimina a supervisão adulta, mas contribui para o desenvolvimento da percepção corporal e da autonomia na água, reduzindo riscos em situações inesperadas.

Inclusão dentro e fora da piscina
Com o tempo, a empresa passou a ser procurada por famílias de crianças com autismo, síndrome de Down, paralisia cerebral e dificuldades motoras.
O impacto, segundo a empresária, vai além da piscina. Um dos relatos mais marcantes veio de uma mãe de criança autista.
“Ela me ligou chorando e disse que o produto mudou a vida da filha, dentro e fora da água. Aquela autonomia refletiu no dia a dia.”
A experiência levou à expansão para o público adulto, incluindo pessoas que não sabem nadar, têm fobia de água, idosos e cadeirantes. “Que adulto vai usar boia de braço numa piscina funda? Muitos deixam de entrar por vergonha”, observa.
A proposta de inclusão chamou a atenção de iniciativas públicas. Na Bahia, o governo estadual adquiriu cerca de mil peças para o projeto Natação em Rede, voltado a pessoas com deficiência.
“Antes, era preciso quase uma pessoa dentro da água para cada aluno. Com a roupa flutuante, dois ou três professores dão conta”, afirma.
Dentro da água, segundo Cássia, as diferenças desaparecem. “Ali, nós somos todos iguais.”
Filhas de Neymar usam roupa flutuante
A visibilidade da marca ganhou ainda mais força após a roupa flutuante ser usada por filhos de famosos. Um dos casos que mais repercutiram foi o do jogador Neymar Jr., que apareceu nas redes sociais utilizando o produto com a filha Mavie durante um momento de lazer.
Segundo a empresária, o registro chamou a atenção não apenas pela fama do atleta, mas pela forma como ele conduziu a adaptação da criança à água, seguindo as orientações de segurança da marca.
O contato aconteceu por meio de amigos em comum, e a experiência resultou na compra de diversos modelos da roupa flutuante para as filhas do jogador. Além de Neymar, outros influenciadores, como Joel Jota, e artistas também utilizam o produto.
Próximos passos
Além da linha flutuante, a marca trabalha no desenvolvimento de roupas com ação repelente a insetos, pijamas e peças voltadas a profissionais que atuam ao ar livre.
Hoje, ao olhar para trás, Cássia resume a trajetória com emoção. “Como pode uma ideia que nasceu de um perrengue virar tudo isso?”.
Para ela, a resposta está na experiência compartilhada entre mães. “O que é bom para uma mãe, ela quer compartilhar. E é assim que a gente vai longe.”
*Texto sob a supervisão da editora Erika Santos