
*Artigo escrito por Fábio Pimenta, cirurgião plástico e médico do exercício, professor titular da UVV e do Instituto Paciléo em SP, membro do Comitê Qualificado de Conteúdo de Empreendedorismo e Gestão de 2025 do Ibef-ES.
Enquanto empresas analisam índices financeiros como EBITDA, ROI ou margem líquida para tomar decisões estratégicas, há um indicador fisiológico que pode prever com igual ou maior precisão a sustentabilidade individual e organizacional: a aptidão cardiorrespiratória (CRF – cardiorespiratory fitness).
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De acordo com editorial recente da Mayo Clinic Proceedings (Lavie et al., 2022), a CRF deve ser considerada um sinal vital clínico e corporativo, pois está mais fortemente associada à redução da mortalidade por todas as causas do que a maioria dos fatores de risco tradicionais, como hipertensão, dislipidemia ou tabagismo.
Em uma metanálise com mais de 2,3 milhões de participantes e 110 mil mortes documentadas, cada aumento de 1 MET (equivalente metabólico) na aptidão cardiorrespiratória foi associado a uma redução de 11% na mortalidade. Aqueles no tercil superior de CRF tiveram 45% menos mortes do que aqueles no tercil inferior (Laukkanen et al., 2022).
Tais dados reforçam o que a ciência já vinha indicando há mais de uma década (Kodama et al., 2009; Harber et al., 2017): VO₂ máximo não é apenas um número para atletas — é um biomarcador de envelhecimento saudável, resiliência, função cognitiva e imunidade.
Governança e ESG
No contexto da governança corporativa e do ESG, negligenciar a saúde dos líderes e colaboradores de alta performance é ignorar uma variável crítica de risco. A baixa CRF está associada ao aumento de internações hospitalares, inflamação sistêmica, doenças cardiovasculares e respiratórias, incluindo DPOC e pneumonia (Kunutsor et al., 2022).
Além disso, a pandemia de COVID-19 revelou o impacto direto da CRF na gravidade de infecções: indivíduos com alta aptidão tiveram risco significativamente menor de hospitalização e morte (Sallis et al., 2021; Brawner et al., 2021). Em outras palavras: a capacidade cardiorrespiratória protege o capital humano contra crises de saúde públicas e privadas.
A resistência à adoção de testes como o teste cardiopulmonar com análise de gases expirados, padrão ouro para quantificar a VO₂, decorre de barreiras como custo, necessidade de equipamentos e treinamento técnico. No entanto, segundo Kaminsky et al. (2022), essas limitações vêm sendo superadas por novas tecnologias portáteis, acessíveis e altamente precisas.
Muitas empresas já monitoram pressão arterial, colesterol e glicemia em check-ups executivos. Está mais do que na hora de incorporar o VO₂ máximo e o CPX como padrão clínico e gerencial, transformando a saúde em ativo mensurável.
Estratégia prática: como aplicar a CRF à gestão de saúde corporativa
- Check-up executivo com CPX anual: avaliar VO₂ máximo com precisão.
- Estabelecimento de metas fisiológicas, como manter o VO₂ > 35 ml/kg/min para homens e > 30 ml/kg/min para mulheres acima de 50 anos.
- Treinamento físico personalizado com foco em melhora de CRF, incluindo protocolos de endurance e intervalado de alta intensidade (HIIT).
- Integração dos resultados ao BI (Business Intelligence) da empresa: dashboards de saúde com indicadores fisiológicos.
- Programas de incentivo ao movimento e redução do sedentarismo no ambiente de trabalho.
Mais executivo e estratégico:
Para o CFO, a CRF pode inicialmente parecer um dado clínico sem relevância. No entanto, na prática, colaboradores com VO₂ reduzido apresentam maior risco de fadiga, falhas de julgamento, absenteísmo e desenvolvimento de doenças crônicas.
Entretanto, aqueles com alta CRF mostram melhor performance cognitiva, estabilidade emocional e produtividade. Isso é retorno sobre investimento em saúde, com efeitos sobre clima organizacional, lucro e longevidade empresarial.
Em um cenário onde cada decisão conta, o VO₂ é a “oxigenação estratégica” que falta a muitas lideranças.
Se o fluxo de caixa é o sangue de uma empresa, a aptidão cardiorrespiratória é o oxigênio que permite pensar, agir e decidir com clareza. Incorporar a CRF à prática clínica e à gestão executiva é não apenas recomendação científica — é uma escolha de sobrevivência inteligente.
Este texto expressa a opinião do autor e não traduz, necessariamente, a opinião do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo.