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Empreender no Brasil: um sonho sufocado pela realidade

Jovens brasileiros já preferem abrir o próprio negócio, mas burocracia e altos impostos seguem travando o crescimento do empreendedorismo

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Foto: Freepik
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*Artigo escrito por Teuller Pimenta, advogado, especialista em Direito e Processo Tributário, membro do Núcleo de Tributação Empresarial do Ibef-ES e do Ibef Academy.

Assim como existe no ideário brasileiro o “sonho da casa própria”, deixar de ser empregado para ser empregador também é um desejo cada vez maior. Essa percepção do viés empreendedor, agora, começa a se consolidar em números: pela primeira vez, o sonho de ter um negócio próprio supera, ainda que por pouco, o desejo de uma carteira de trabalho assinada.

Uma recente pesquisa da “Hibou Pesquisas e Insights” revelou que 33% dos brasileiros entre 16 e 34 anos querem empreender, enquanto 32% ainda preferem a estabilidade da CLT. Pode parecer um empate técnico, mas o dado indica um ponto de virada geracional: a vontade de autonomia, de conduzir a própria história, de construir algo com seu nome está ganhando terreno.

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Sebrae

Existem muitas definições de empreendedor. Porém, aquela que mais se aproxima da realidade brasileira é a utilizada pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), para quem “ser empreendedor significa ser um realizador, que produz novas ideias através da congruência entre criatividade e imaginação” .

Essa definição vai ao encontro de características que, não por acaso, compõem o perfil do empreendedor brasileiro. Isso porque, de acordo com o próprio Sebrae, algumas competências são praticamente inerentes a quem decide trilhar esse caminho, como: gostar de desafios, ser resiliente, não desistir facilmente, ter coragem para assumir riscos, ser criativo, visionário e criador de soluções, possuir alto senso de oportunidade e agir com responsabilidade em todas as situações.

Em entrevista coletiva virtual, em 2023, o então presidente do Sebrae, Carlos Melles, disse: “Os dados demonstram que o brasileiro tem o DNA empreendedor e um espírito de liberdade, criatividade e independência”. Essa visão releva um fato brilhante e dialoga diretamente com o desejo do brasileiro, que, mesmo diante das limitações estruturais e econômicas, não deixa de imaginar novos caminhos.

Jovens empreendedores

Principalmente quando se avalia o público jovem, o entusiasmo em empreender se mostra latente. Entre os anos de 2018 e 2019, a Conaje (Confederação Nacional dos Jovens Empresários) realizou uma ampla pesquisa com cerca de 6.000 empreendedores, com idades entre 18 e 39 anos, traçando um panorama importante sobre o perfil.

Um dado que chamou atenção foi o alto nível de escolaridade: aproximadamente 70% dos entrevistados possuíam ensino superior ou pós-graduação. Quanto às motivações para empreender, destacaram-se dois principais fatores: o sonho de ter o próprio negócio (25%) e a identificação de uma oportunidade no mercado (25%). Além disso, cerca de 18% afirmaram ter empreendido para conquistar mais independência.

Outros motivos também apareceram, embora com menor incidência: 12% continuaram o negócio da família, 11% buscavam maior flexibilidade de horários e apenas 9% declararam que empreenderam por necessidade de geração de renda.

Ou seja, enquanto muitos procuram na abertura de um negócio uma oportunidade de se tornar seu próprio chefe, outros tantos enxergam o empreendedorismo como uma possibilidade de causar algum tipo de impacto no mercado em que pretendem atuar.

 Empreender no Brasil

Todavia, apesar da “vibe empreendedora” nas redes sociais e da exaltação do empreendedorismo, a prática, infelizmente, mostra um cenário menos glamoroso: apenas 12% da população adulta brasileira de fato tem seu próprio negócio, e esse número praticamente não muda entre os jovens. Além disso, nessa nova guinada, 21% dos jovens estão apenas pensando em empreender, o que evidencia um hiato entre o desejo e a execução.

E por que essa distância? A resposta passa por dois pontos: burocracia e carga tributária. Abrir e manter um negócio no Brasil exige fôlego. O país ocupa uma das piores posições do mundo em facilidade para empreender. Impostos altos, normas que mudam com frequência, instabilidade jurídica e excesso de exigências regulatórias tornam o processo não apenas caro, mas exaustivo.

Mesmo o modelo mais simples, como o MEI (Microempreendedor Individual), é insuficiente para lidar com a realidade de muitos empreendedores.

Enquanto o brasileiro persiste, movido por coragem e inventividade, em transformar seu sonho de autonomia em realidade, o Estado continua sendo mais entrave do que aliado. Aqui, na Terra de Santa Cruz, iniciativas pautadas na criatividade e na imaginação frequentemente esbarram em barreiras impostas pela burocracia, pela excessiva complexidade e pela escassez de estímulo.

Assim, tristemente, embora os ensaios da população estejam ligeiramente se alterando, a verdade nua e crua é que sonhar acaba não sendo suficiente. Para além disso é preciso de um país que permita que a imaginação e os devaneios floresçam em solo fértil.

Este texto expressa a opinião do autor e não traduz, necessariamente, a opinião do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo.

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