
*Artigo escrito por Haynner Batista Capettini, advogado, assessor jurídico do Sicoob Central ES, diretor jurídico, compliance officer do Ibef-ES e membro do Comitê Qualificado de Conteúdo de GRC de 2025 do Ibef-ES.
O apetite ao risco é um ingrediente invisível que tempera as decisões estratégicas, que não vem em qualquer receita e nem agrada da mesma forma ao paladar de todos. Ele é subjetivo, dinâmico e profundamente pessoal.
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No mundo corporativo, em cada decisão que se toma, há um apelo quase universal por segurança. Buscam-se manuais, fórmulas e experimentos. Mas não existe dieta para conter o apetite ao risco porque ele nasce da cultura da empresa, da experiência do gestor e, sobretudo, da sua tolerância à incerteza.
Um mesmo cenário pode parecer um abismo para uns e uma ponte para outros. Por isso, o primeiro passo é reconhecer: o risco, na grande maioria das vezes, não se elimina; gerencia-se.
Recente pesquisa EY-Parthenon CEO Outlook Survey, identificou que os CEOs mais confiantes reconhecem que, para garantir a competitividade frente às crescentes incertezas, é necessário ajustar seus “radares de risco” para entender o que é mais provável de desafiar seus modelos de negócios e, com isso, estarem melhor preparados para agir com ousadia para contornar qualquer obstáculo no caminho.
Do ponto de vista empresarial, é necessária a adoção de algumas cautelas fundamentais. Avaliações de impacto, estudos de viabilidade e blindagens contratuais são instrumentos-chave. Ainda, a governança precisa estar ativa, com conselhos que desafiem os impulsos, mas que também incentivem o arrojo bem fundamentado.
Cautela
É justamente aí que mora o paradoxo: a cautela deve proteger, mas não pode paralisar. Decisões ousadas, quando bem planejadas, movem mercados, abrem fronteiras e constroem reputações. O que se exige é o risco com método — não a ausência de risco.
Parece Shakespeare — e é —, mas é verdade: “nossas dúvidas podem nos trair e nos fazer perder o que poderíamos conquistar, apenas por medo de arriscar”.
Pode-se usar técnicas modernas para a avaliação dos riscos e para a tomada de decisão – como os “chefs” aplicam na culinária, a técnica da gastronomia molecular -, mas, no final, o prato tem que ter sabor, ser agradável aos olhos e com valores nutricionais equilibrados.
Lembrando também que os pratos, muitas vezes, estão carregados de tradições, da cultura “da empresa” e da história de seus fundadores. Tudo isso impactará na fome.
Portanto, em vez de tentar reduzir o apetite ao risco, talvez seja mais sensato desenvolver a musculatura que permita digeri-lo melhor: com boas práticas, sim, mas também com coragem e visão empresarial.
Afinal, empresas que não ousam, estagnam. E, no mercado atual, estagnação também é um risco.
Este texto expressa a opinião do autor e não traduz, necessariamente, a opinião do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo.