Foto: Canva
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*Artigo escrito por Hugo Paradella, economista, coordenador financeiro, membro do IBEF Academy e do Comitê Qualificado de Conteúdo de Economia e Finanças de 2025 do Ibef-ES.

Nos últimos anos, o endividamento das famílias brasileiras atingiu níveis recordes, refletindo tanto as dificuldades estruturais da economia quanto mudanças no comportamento de consumo, dados recentes da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) demonstram que mais de 78% das famílias estão endividadas.

Dados do Banco Central apontam que o endividamento médio das famílias atingiu nos 49% da renda.  

Esse cenário é resultado de alguns fatores, dentre eles destacam-se dois. De um lado, a inflação persistente reduziu o poder de compra, pressionando as famílias a recorrerem ao crédito para manter seus padrões básicos de consumo.

De outro, as taxas de juros mais elevadas e mantidas por mais tempo tornam o crédito mais caro e dificultam a quitação das dívidas. O que chama atenção é que o país está no fim de um ciclo positivo de crescimento da renda com desemprego muito baixo, mas o nível de comprometimento da renda é elevado.

Impactos sociais e limites do orçamento familiar

O problema vai além das estatísticas pois o endividamento compromete o bem-estar social e a capacidade de planejamento das famílias.

Quando uma grande parte da renda é utilizada para pagamento de dívidas, sobra pouco para o consumo consciente, investimento em educação ou poupança para emergências. Isso gera um ciclo em que o crédito deixa de ser uma ferramenta e passa a ser uma armadilha para a sobrevivência.

Apesar de um cenário desafiador, há esperanças de melhora. A expectativa de trajetória de queda na taxa Selic pode reduzir o custo do crédito, favorecendo renegociações gerando alívio nos orçamentos dos lares. No entanto, soluções de longo prazo passam por mudanças estruturais.

É necessário fomentar educação financeira desde a escola, ampliar acesso a instrumentos de créditos mais justos e incentivar a poupança, mesmo que em pequenos valores. As famílias precisam reavaliar seus hábitos de consumo, distinguindo o essencial do supérfluo. Para reduzir a dependência do crédito de curto prazo.

Crédito como aliado, não como armadilha

O endividamento em si não é algo ruim. Em economias desenvolvidas, as famílias também recorrem ao crédito para aquisição de imóveis, veículos ou investimentos em educação. O problema é quando o crédito é utilizado de forma desordenada e sem planejamento.

No Brasil, o maior desafio é transformar o crédito em aliado e não em inimigo, mas isso exige disciplina financeira das famílias e um ambiente econômico mais equilibrado, com renda mais estável e juros sustentáveis.

Em resumo, o endividamento das famílias reflete as fragilidades e desigualdades do país, mas também é um convite à reflexão sobre a importância da educação financeira e do uso consciente do crédito.

O desafio está posto: cabe às famílias, governo e setor financeiro construir caminhos para que o crédito seja instrumento de crescimento, e não de aprisionamento.

Este texto expressa a opinião do autor e não traduz, necessariamente, a opinião do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo.

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