
*Artigo escrito por Filipe Machado, engenheiro ambiental, diretor geral na Mútua-ES, palestrante, autor de livros e membro do Comitê Qualificado de Conteúdo de ESG de 2025 do Ibef-ES.
O Brasil convive com um paradoxo cruel: enquanto faltam escolas, hospitais, unidades de saúde e obras de infraestrutura urbana, milhares de empreendimentos públicos estão paralisados. Em 2024, o Tribunal de Contas da União (TCU) identificou 11.941 obras paradas, o que corresponde a 52% das contratações vigentes.
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No Espírito Santo, 248 obras estão atualmente sem continuidade, segundo dados oficiais — incluindo estruturas emblemáticas como a duplicação da BR-262, importantes avenidas em Linhares e São Mateus, e escolas em áreas urbanas e rurais.
O abandono dessas obras representa um problema multidimensional: ambiental, social e econômico. Estruturas inacabadas geram degradação do solo, descarte irregular de resíduos, proliferação de vetores de doenças e deterioração do entorno. O que começou como um projeto de transformação, vira passivo ambiental.
Além disso, o custo da retomada de uma obra paralisada é, em geral, muito mais alto que iniciar um novo projeto: há deterioração de materiais, perda de estruturas, necessidade de demolições e readequações técnicas, além de insegurança jurídica e ajustes contratuais complexos.
Impactos sociais e frustração coletiva
Socialmente, o impacto é profundo. Cada creche que não é finalizada, cada hospital que não funciona e cada rua inacabada afeta diretamente o cotidiano da população. A frustração da comunidade é agravada por promessas não cumpridas e pela sensação de abandono do poder público. O investimento inicial se transforma em desperdício, e o bem-estar coletivo fica em segundo plano.
A boa notícia é que a retomada pode ser também uma grande oportunidade. O Governo do Estado do Espírito Santo tem dado bons exemplos, com a reativação de diversas obras estratégicas.
Rodovias como as de Muniz Freire e Castelo, a tão esperada conclusão do Cais das Artes. Além de unidades escolares e centros de atendimento em diferentes municípios, mostram que há a possibilidade de resgatar obras paradas e entregá-las com qualidade à população.
Essa agenda exige governança eficiente. Com diagnóstico técnico, revisão de contratos e protagonismo dos engenheiros, peritos e gestores, é possível recuperar empreendimentos com responsabilidade.
O Novo PAC Seleções já prevê mutirões de retomada, e o Espírito Santo pode liderar esse movimento. Assim, articulando esforços entre governos, universidades, conselhos profissionais e a sociedade civil.
Um compromisso com o futuro e o desenvolvimento local
Nesse sentido, mais do que corrigir o passado, retomar obras paralisadas é um compromisso com o futuro. É um exercício real de ESG: reduzindo danos ambientais, atendendo demandas sociais urgentes e promovendo uma gestão pública mais eficiente e transparente.
Portanto, transformar estruturas abandonadas em entregas reais para a população é o tipo de legado que precisamos construir — e que o Espírito Santo já começou a liderar com responsabilidade.
Este texto expressa a opinião do autor e não traduz, necessariamente, a opinião do Instituto Brasileiro de Executivos de Finanças do Espírito Santo.