
Durante a pandemia, o debate pareceu simples demais para um fenômeno complexo: ou remoto ou presencial.
Quem tentava sustentar a nuance era, muitas vezes, acusado de falta de visão ou apego ao passado.
Mas a realidade organizacional nunca funcionou bem nos extremos.
E é justamente por isso que, como especialista, reforcei diversas vezes naquele período: o futuro do trabalho seria híbrido.
Não como concessão.
Mas como consequência lógica de limites humanos, culturais e operacionais que já existiam apenas ficaram mais visíveis.
Hoje, o mercado começa a confirmar exatamente isso.
O que a pandemia acelerou — e o que ela não resolveu
O trabalho remoto funcionou.
Funcionou em produtividade, entrega e continuidade dos negócios.
Mas ele não resolveu tudo.
Apenas suspendeu, temporariamente, custos invisíveis que agora voltaram à superfície: Aprendizado informal, formação de lideranças, coordenação espontânea, construção de vínculo, leitura de contexto e poder.
Entre 2020 e 2022, o foco foi sobreviver e entregar.
Depois disso, as empresas começaram a perceber algo incômodo: a operação seguia, mas a cultura enfraquecia.
E cultura fraca não quebra no curto prazo. Ela corrói no médio.
O retorno ao presencial não é sobre desconfiança. É sobre controle sistêmico.
O erro da narrativa atual é tratar o retorno como se fosse apenas uma crise de confiança no trabalhador. Não é só isso.
O que está em jogo é previsibilidade.
Quando o trabalho se dispersa totalmente: o poder se dilui, liderança vira agenda, cultura vira discurso, carreira vira invisibilidade.
O presencial sempre foi, também, uma tecnologia de controle social.
A pandemia apenas expôs isso.
E quando o controle enfraquece, o sistema reage não por maldade, mas por instinto de preservação.
Por que o híbrido era inevitável
Foi exatamente por enxergar esses limites que, ainda durante a pandemia, sustentei que o híbrido seria o modelo mais provável.
Porque ele:
- Mantém ganhos de autonomia
- Reduz custos de deslocamento
- Preserva vínculos mínimos
- Reintroduz socialização, mentoria e alinhamento
- Reequilibra poder sem retornar ao passado
O híbrido não nasce como benefício. Ele nasce como compromisso imperfeito entre eficiência e humanidade.
E compromissos imperfeitos costumam ser os mais estáveis.
O problema não é o híbrido. É o desenho do híbrido.
O que estamos vendo agora não é o “fim do home office”.
É a institucionalização do híbrido, com regras mais claras e menos romantização.
Quando a empresa define dias, presença mínima e critérios objetivos, ela está dizendo algo simples: Flexibilidade não é ausência de estrutura.
O risco não está em ir ao escritório. O risco está em não entender o porquê.
Sem propósito, o híbrido vira punição. Com propósito, vira ferramenta.
No fim, a pergunta nunca foi “onde você trabalha”
A pergunta real sempre foi outra: Como equilibrar autonomia, desempenho, cultura e saúde mental ao mesmo tempo?
Quem prometeu respostas fáceis vendeu ilusão e o mercado agora cobra maturidade. Aquela que sobra quando o entusiasmo passa e a realidade se impõe.