Fundador da Casas Bahia diz que mentira na campanha foi maior erro de Dilma

Economia

Fundador da Casas Bahia diz que mentira na campanha foi maior erro de Dilma

Redação Folha Vitória

São Paulo - O empresário Michael Klein, filho do fundador da Casas Bahia e atualmente dono de negócios no segmento de aviação, automóveis e imobiliário, diz já ter visto o Brasil em crises econômicas piores. Ele admite, no entanto, que a incerteza política atrapalha o País e atravanca o investimento das empresas, especialmente daquelas que precisam de crédito. Para ele, seria melhor para o País que a presidente Dilma Rousseff saísse do governo. "Como ela não tem maioria no Congresso, acho melhor ela sair. Sem o apoio de deputados e senadores, nada é aprovado, e isso trava o mercado como um todo", afirmou.

Klein diz que o impeachment não é golpe. "Quando ela assumiu esse cargo, sabia que estaria sujeita a regras e que uma das penalidades poderia ser o impeachment." O empresário considera que o maior erro de Dilma foi "mentir" durante a campanha para sua reeleição. "Ela disse que o País estava bem, que o preço da energia estava assegurado e que o combustível não ia subir. E fez exatamente o contrário. Ninguém

gosta de ser enganado." A seguir, trechos da entrevista.

Como o sr. vê essa confusão toda na economia e na política?

Desde que minha família veio para o Brasil, há mais de 60 anos, já passamos por diversas crises, troca de moeda, confisco, tablita, greves, anos de PIB negativo. Tivemos muitos altos e baixos. Eu, assim como outros empresários, estou olhando o longo prazo. Não sou um investidor imediatista, que abre uma empresa para ter lucro no primeiro ano. Por isso, o curto prazo me interessa menos que o longo prazo.

Os economistas têm classificado essa crise como a pior da história do País. O sr. diz que já viu piores?

Não que essa crise seja amena, mas, sim, acho que já passamos por situações piores. Quando a inflação estava em patamares altíssimos, ela corroía o salário das pessoas, que perdiam o poder de compra. Hoje, a inflação beira os 10% ao ano. Podia ser menor? Claro que podia, mas não está em 70% ao mês. Não vou discutir com economistas que têm uma série de dados sobre a situação econômica. Mas posso falar do que estou fazendo. Acabei de abrir uma empresa (uma concessionária Mercedes-Benz) e contratei 25 pessoas. Em dois anos, minha empresa de táxi aéreo comprou 13 aeronaves para fazer fretamento de voos. Estou investindo para ter um negócio funcionando quando o Brasil voltar a crescer.

O sr. parece bem otimista. Qual sua perspectiva para a economia neste ano?

Imagino que no segundo semestre as coisas já estejam mais claras na economia e na política. Independentemente de a presidente (Dilma Rousseff) sair ou não, já teremos ao menos uma ideia de quem vai ditar as novas regras do jogo e que regras serão essas. Se ela ficar, terá de fazer alguma coisa. Se ela sair, quem entrar no lugar vai ter de apresentar uma definição.

O sr. prefere que ela saia ou que ela fique?

Como ela não tem maioria no Congresso, acho melhor ela sair. Sem o apoio de deputados e senadores nada é aprovado e isso trava o mercado como um todo.

O vice-presidente Michel Temer tem condições de fazer essa amarração política?

Acho que sim. Pelo que tenho visto, o Temer está tentando costurar o apoio de outros partidos e fazer uma composição para seguir até 2018.

Como o sr. vê as manifestações a favor do impeachment? O sr. participaria delas?

Mesmo no anonimato, eu não iria. Muitas das pessoas que estão nas ruas pedindo a saída da presidente votaram nela em 2014. Ela ganhou nas urnas para ficar quatro anos.

Seria golpe, então?

Não, não é golpe. Quando ela assumiu esse cargo, sabia que estaria sujeita a regras e que uma das penalidades poderia ser o impeachment. Sou a favor de que a Justiça determine se ela deve continuar ou não. O Supremo Tribunal Federal tem de decidir se ela é culpada ou não por algum ato. Aí, automaticamente, o Supremo decidindo, é o que deve valer. Isso está acima do Congresso. E por que eu defendo tanto o Supremo? Porque se não for assim, qualquer congressista pode negociar seu voto a favor ou contra por qualquer troca de cargo. Quem pode tirar um presidente do cargo é o Supremo, que é uma força maior do que o próprio presidente.

Qual foi o maior erro de Dilma?

O maior erro foi a mentira. Tem um ditado antigo de criança que diz que mentira tem perna curta. Na campanha de reeleição, ela disse que o País estava bem, que o preço da energia estava assegurado, que o combustível não ia subir. E não cumpriu nada do que prometeu. Ninguém não gosta de ser enganado. Ela deveria ter dito que a inflação iria subir no ano seguinte, porque ela ia ter de fazer um ajuste no preço da energia, do combustível. Mas, se ela falasse a verdade, certamente não se elegeria. Muita gente votou na Dilma achando que estava tudo bem, que ia continuar trabalhando, colocando álcool ou gasolina no seu carro flex no fim de semana, e não foi o que aconteceu.

Existe uma lição aí, não?

A lição é essa. Entendo que o candidato não quer apresentar um dado catastrófico sobre o que vai acontecer, mas ele precisa dar uma sinalização realista do que é possível acontecer. Eu não sou político. Não sei se para ser político precisa mentir ou omitir. O Collor também caiu porque mentiu. No discurso, ele disse que não ia ter confisco da poupança. E o que fez? As pessoas se sentiram usadas e por isso se revoltaram. Com toda razão. É melhor não prometer nada do que prometer e não cumprir.

O que pode acontecer com o País se a Dilma continuar?

Depende se ela vai tomar as medidas necessárias para o País voltar a crescer ou, pelo menos, parar de cair. A nota de crédito do Brasil piorou porque lá fora estão vendo que tem alguma coisa errada. Nós temos, sim, que nos preocupar com o que os bancos internacionais falam, com o que o FMI fala. E precisamos agir para mostrar a eles que não estamos tão frágeis a ponto de dar um calote. O País não cresce porque fez uma aposta em commodities, em matéria-prima, que não gera tanto emprego. Agora, não consegue aumentar a exportação porque no mundo inteiro o preço das commodities caiu.

Quais são as medidas mais urgentes para colocar o País nos eixos?

O caminho é gerar emprego na indústria e no comércio. É preciso garantir uma estabilidade para que as pessoas tenham confiança para consumir. Ultrapassar 10 milhões de desempregados é algo muito negativo para o País. Além disso, os sindicatos estão mais preocupados em pedir reajuste do que em manter a estabilidade para os empregados. Tem gente sobrando na indústria, a produtividade é negativa e os sindicatos querem reajuste.

Como a crise está afetando o varejo?

O varejo sofre com o desemprego. Por enquanto, continuamos vendendo a prazo e oferecendo cartão de crédito para o pessoal. Em época de dificuldade, o varejo amplia o prazo para aumentar a venda. Se o desemprego crescer até o fim do ano, haverá inadimplência e a situação vai piorar.

Mas já tem muita empresa fechando loja e pedindo recuperação judicial.

Quem dependia de recurso bancário e não estava capitalizado, de fato, teve mais dificuldade, porque os bancos fecharam as linhas de crédito. Quem investiu e não consegue retorno do capital, vai acabar sofrendo mais.

Que medidas fariam o empresário voltar a contratar?

Redução de impostos. A parte fiscal é a que mais pesa no preço do produto. Precisamos de redução de IPI, de ICMS, alguma coisa para que pudesse manter o incentivo ao setor produtivo. Mas se você reduz imposto de um lado, tem de subir em outro. Bem ou mal, uma coisa que pode ser feita é voltar com a CPMF. Eu entendo que ela é um mal necessário. Não é que eu seja a favor, mas é melhor do que onerar o setor produtivo.

Sob críticas, o governo já tem buscado novas ações de estímulo ao crédito, mas não há demanda para isso.

Não tem demanda porque as pessoas estão com receio de perder o emprego lá na frente. O caminho certo seria fazer algo para as indústrias gerarem emprego e estabilidade.

O economista Marcos Lisboa costuma dizer os empresários brasileiros também têm sua parcela de culpa na crise econômica. O sr. concorda?

Eu posso dizer que sou isento de responsabilidade, porque eu nunca pedi nada para o governo. Eu, particularmente, não sei nem qual é endereço do BNDES. O empresário que estava acostumado a receber as benesses do governo, a taxas de juro reduzidas, esse é responsável também. Mas quem não pediu nada, não pode ser responsabilizado pela crise, porque ele não contribuiu para aumentar o déficit da Previdência ou alguma coisa nesse sentido.

Por que o sr. nunca recorreu ao BNDES?

É crédito barato, mas você tem de devolver esse dinheiro. Que seja o juro mais baixo, um dia você vai ter de pagar.

Hoje é um luxo estar nessa posição de não depender e não ter feito negócio com governo?

Eu, minhas empresas e a própria Casas Bahia nunca vendemos um liquidificador para o governo. Há 60 anos recebemos ofícios de prefeituras, com as promoções da Casas Bahia anunciadas no jornal, dizendo que querem comprar algum produto. Nunca respondemos. Meu pai dizia que construiu a Casas Bahia para vender para a Dona Maria. Uma empresa de varejo que vai trabalhar para o consumidor não pode misturar as coisas e fazer negócios com o governo.