Pressão da soja sobre preços no atacado dificilmente se sustenta, avalia FGV

Economia

Pressão da soja sobre preços no atacado dificilmente se sustenta, avalia FGV

Redação Folha Vitória

Rio - Principal fator de pressão sobre os preços do atacado no Índice Geral de Preços - 10 (IGP-10) de julho, a alta da soja reflete estratégias comerciais dos produtores brasileiros diante da expectativa em torno da safra americana, com colheita em agosto. Com um peso de 4,7% no Índice de Preços ao Produtor Amplo (IPA) o produto ainda pode subir no curto prazo, mas o movimento dificilmente se sustentará dado que a safra brasileira cresceu 11,6% em 2015, para 96,4 milhões de toneladas, analisa o superintendente adjunto de Inflação da Fundação Getulio Vargas (FGV), Salomão Quadros. O IGP-10 subiu 0,75% em julho, movimento explicado essencialmente pelo avanço de 0,70% dos preços atacadistas, o dobro do mês de junho (0,34%).

"O mercado vai continuar um pouco nervoso pela proximidade da colheita da soja nos Estados Unidos", diz Quadros. Ele explica que as estimativas para a safra americana são boas, mas que é natural haver uma espécie de tensão pré-safra pelas incertezas em relação ao clima. "Mas não existe razão para um aumento consistente do preço da soja nem do lado da oferta, nem da demanda. O que acontece é que no momento o agricultor tem fôlego para especular um pouco", conclui.

Além do salto da soja em grão (de -1,39% para 3,03%), outras matérias-primas brutas agropecuárias tiveram efeito negativo sobre o IPA. É o caso das aves (-1,92% para 6,89%) e do milho em grão, que parou de desacelerar (-6,07% para -0,26%). "É um movimento que parece pontual e ligado ao grande peso da soja, que vem oscilando, no indicador", ressalta Quadros. O economista da FGV também aponta que outra matéria-prima com peso expressivo (3,4%), o minério de ferro, deverá mostrar desaceleração após sua cotação internacional ter caído abaixo dos US$ 50 por tonelada nas últimas semanas. Em julho o minério foi uma das principais altas, mantendo patamar próximo ao de junho, com taxa de 5,20%.

Quadros não acredita em uma transmissão expressiva da inflação no atacado ao varejo por conta da alta da soja nos próximos IGPs. "No caso do varejo há um equilíbrio de peso com derivados de outros produtos, como o trigo", explica. O IPC-10, que apura os preços no varejo, desacelerou em julho para 0,69% ante 0,80% no mês anterior. O principal motivo foi o menor impacto do reajuste de preços dos jogos lotéricos, que segundo Quadros tende a sumir até o fim do mês.

Apesar do IPC ainda ter pela frente alguma pressão de preços administrados - como o aumento de tarifas de energia - o alívio em itens como alimentação, vestuário e passagens aéreas, em declínio após o pico de férias, deve prevalecer. Um exemplo é a cebola, vilã dos preços em 2015, que embora ainda esteja cara vem devolvendo altas passadas. Em julho o produto subiu 15,44%, contra 39,14% um mês antes.

Já o Índice Nacional da Construção Civil (INCC) entrou em fase descendente, após uma série de reajustes salariais no Rio e em São Paulo. "O custo da mão de obra está descendo a ladeira e os materiais não têm perspectiva de alta com a fraca atividade econômica", diz.