Uma em cada cinco pessoas no ES vive com pouco mais de R$ 400 por mês, diz pesquisa

Economia

Uma em cada cinco pessoas no ES vive com pouco mais de R$ 400 por mês, diz pesquisa

Levantamento do Instituto Jones dos Santos Neves foi feito com base em informações obtidas pelo IBGE em 2018; cenário atual após início da pandemia pode ser ainda pior

Rodrigo Araújo

Redação Folha Vitória
Foto: Divulgação

Pouco mais de 20% da população capixaba encontrava-se na situação de pobreza em 2018. Isso significa dizer que, há três anos, um em cada cinco moradores do Espírito Santo precisava se virar para sobreviver com pouco mais de R$ 400 por mês. 

O mais preocupante é que o cenário atual pode ser ainda pior, uma vez que a pandemia da covid-19 causou uma grave crise econômica no Brasil e no mundo.

Os dados são do novo fascículo do Projeto Desenvolvimento Regional Sustentável (DRS), divulgado nesta sexta-feira (09) pelo Instituto Jones dos Santos Neves (IJSN). 

A publicação tem como base os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua (PNAD Contínua anual) 2012/2018, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), e do Cadastro Único do ano de 2019.

Segundo a pesquisa, o percentual da população pobre no Espírito Santo foi 20,8% em 2018, o que corresponde a um número próximo a 827 mil pessoas vivendo com menos de R$ 415,40 mensalmente. 

Este é o valor de referência indicado pelo Banco Mundial como limite abaixo do qual as pessoas não conseguem obter os recursos necessários para sobreviver.

O levantamento apontou ainda que o percentual de pobres no Espírito Santo é menor do que a média nacional, de 25,3%. No entanto, supera a da Região Sudeste, que é de 16,3%. Isso coloca o Estado na 11ª colocação do ranking da pobreza, entre todas as unidades da federação.

Além disso, o estudo revela que o percentual de pessoas extremamente pobres — ou seja, aquelas que recebem até R$ 143,50 por mês — no Espírito Santo foi de 4%. Isso corresponde a aproximadamente 157 mil pessoas vivendo em situação de extrema pobreza. 

Neste indicador, o Estado também apresentou um percentual inferior ao do Brasil (6,5%), mas ainda superior ao da Região Sudeste (3,2%), ficando, também, na 11ª posição entre as unidades federativas.

O diretor de Integração e Projetos Especiais do IJSN, Pablo Lira, destaca que os dados apresentados no levantamento refletem a perda de força dos programas de transferência de renda, tanto no Espírito Santo como em todo o país, nos anos que o antecederam.

"O Espírito Santo estava conseguindo reduzir essa questão da pobreza e da extrema pobreza por meio de políticas sociais de transferência condicionada de renda, como o Programa Incluir, entre 2011 e 2014, que era desenvolvido de maneira integrada com o Bolsa Família. Mas, de 2015 a 2017, esse programa acabou perdendo força, assim como o Bolsa Família, devido também à crise que o país viveu. Esses dados são reflexo dessa perda de força dessas políticas públicas", analisou.

"A pobreza era um problema que vinha sendo amenizado no Brasil. Mas, por causa da crise, houve um aumento da desigualdade social e do desemprego e uma diminuição da renda da população", completou.

Foto: Divulgação / IJSN
Pablo Lira destacou que a pandemia agravou ainda mais a situação da pobreza no Espírito Santo e no restante do país

CENÁRIO É PIOR HOJE

Ainda segundo Lira, a pandemia da covid-19, que começou a afetar a economia principalmente a partir do segundo trimestre do ano passado, agravou ainda mais a situação. 

Apesar dos números sobre a pobreza referentes a esse período ainda não terem sido computados, a expectativa do diretor do IJSN é que os futuros levantamentos tragam à tona um quadro ainda pior.

"A pandemia agravou ainda mais esse problema da pobreza e da extrema pobreza. O Brasil já não vinha bem nesse campo, com o esvaziamento das políticas sociais, no âmbito do governo federal. As famílias mais vulneráveis são as que estão sofrendo mais fortemente os impactos da pandemia. Segundo dados de hoje, a taxa de desemprego no Brasil está em 14,8%. São mais de 15 milhões de desempregados", ressaltou.

"Além disso, o reajuste do salário mínimo está diminuindo. Desta forma, a população vem perdendo seu potencial de compra, já que a cesta básica, segundo o Dieese, vem aumentando nos últimos anos, especialmente nos últimos meses. Aqui na Grande Vitória, o valor da cesta básica corresponde a mais de 60% do salário líquido da população mais vulnerável. Voltamos a perceber um número maior de famílias passando fome no país", acrescentou.

Microrregiões

Segundo dados do CadÚnico, trazidos pela publicação do IJSN, entre as microrregiões do Espírito Santo, as três com maiores estimativas de pobres foram a Noroeste, com 34,5%; Nordeste, com 34%; e Caparaó, com 31,9%. 

Já entre as que apresentam as menores estimativas de pobres estão a Central Sul, com 18,8%; Metropolitana, com 19%; e Central Serrana, com 22,8%.

Em relação à extrema pobreza, as três microrregiões com os percentuais mais elevados foram as microrregiões Noroeste (22,4%), Nordeste (21,7%) e Litoral Sul (19,2%). As microrregiões Centro-Oeste (11,3%), Central Sul (11,5%) e Central Serrana (12,2%) apresentaram as menores estimativas de extremamente pobres.

Desenvolvimento

A publicação desta sexta-feira faz parte da série Cadernos DRS, do Projeto Desenvolvimento Regional Sustentável (DRS). De acordo com o IJSN, a série de publicações apresenta diagnósticos integrados que serão usados para a elaboração do Plano de Desenvolvimento Regional Sustentável do Espírito Santo.

A edição visa a analisar a pobreza enquanto questão social relevante para o desenvolvimento regional sustentável do Espírito Santo.

"Esse programa visa reduzir essas desigualdades sociais e regionais, por meio de políticas públicas. O governo estadual vem oferecendo ajuda às famílias mais vulneráveis. Mais de 87 mil famílias estão sendo beneficiadas com o pagamento de R$ 600, pelo Cartão ES Solidário. Com isso, estamos procurando mitigar os impactos causados pela pandemia nessa situação de vulnerabilidade social", destacou Pablo Lira.