
Abrir uma empresa no Espírito Santo, hoje, pode levar apenas alguns minutos. Em um cenário que até poucos anos atrás era marcado por filas, formulários manuais e deslocamentos sucessivos entre órgãos públicos, o processo passou por uma transformação profunda, impulsionada pela digitalização e pela integração de sistemas. O reflexo dessa mudança aparece nos números.
Em 2025, o Estado registrou 27.123 novas empresas abertas na Junta Comercial do Espírito Santo (Jucees), excluídos os microempreendedores individuais. O número representa um crescimento de 12,87% em relação a 2024, quando foram registradas 24.030 constituições.
Apesar da agilidade inédita, especialistas alertam que abrir uma empresa mais rápido não garante, por si só, sua sobrevivência. Gargalos como má gestão, falta de planejamento financeiro e desconhecimento das obrigações fiscais seguem entre os principais desafios enfrentados por novos empreendedores.
Abertura de empresas cresce no ES de Breno RibeiroDa Kombi à cervejaria: formalização viabiliza o crescimento
A história do empreendedor Jean Soares ajuda a entender como a formalização pode abrir caminhos para a expansão de um negócio. A cervejaria dele, que hoje produz, em média, 5 mil litros de cerveja por mês, começou de forma improvisada, dentro de uma Kombi.
“A ideia surgiu, em 2016. A gente estava de férias, viu um amigo fazendo cerveja e, quando voltou, decidiu tentar vender”, conta. A primeira produção, segundo ele, foi de apenas 20 litros mensalmente.
No início, as vendas aconteciam principalmente em eventos. Sem estrutura adequada para armazenar a cerveja que sobrava, parte da produção era levada para a garagem e oferecida a amigos. “Era para não estragar a cerveja”, explica.
Com o tempo, vieram os convites para eventos maiores e, depois, a oportunidade de abrir um quiosque em um shopping. Atualmente, além do bar, a cervejaria tem capacidade produtiva de até 6.500 litros, por mês, e já chegou a trabalhar com cerca de 20 estilos diferentes de cerveja.
O crescimento exigiu uma mudança de enquadramento. Inicialmente formalizado como MEI, Jean precisou migrar para microempresa, por causa do limite de faturamento. “Foi um processo muito simples, muito rápido. Hoje a parte de contabilidade está muito fácil”, afirma.
Segundo ele, a mudança ampliou as possibilidades do negócio. “Quando você sai de um patamar pequeno, que te limita, e vai para um espaço que consegue absorver tudo que você produz, você cria valor financeiro, valor comercial e até condições melhores de financiamento”, diz.
A virada na rotina dos contadores
Para quem acompanha o processo há décadas, a diferença é ainda mais evidente. Contadora há 20 anos, Fabíola Cardoso lembra que, no início da carreira, abrir uma empresa podia levar mais de um mês.
Não era nada integrado. A gente tinha que preencher tudo manualmente e ir primeiro na Junta Comercial, depois no Estado, depois na prefeitura.
Fabíola Cardoso, contadora
Segundo ela, além da demora, o processo era oneroso para contadores e empreendedores. Exigências frequentes faziam com que processos fossem refeitos do zero, gerando novos custos. “Muita gente desistia no meio do caminho, de tão burocrático”, afirma.

Com a implantação do Simplifica-ES e do balcão único, o cenário mudou. “Hoje eu faço tudo de forma online. Quando dou entrada na Junta Comercial, ela já repassa para os órgãos competentes, inclusive para o Corpo de Bombeiros”, explica.
A mudança refletiu diretamente na demanda. “Tenho sido mais procurada. A abertura ficou rápida, fácil e sem dificuldade”, diz.
Ela cita clientes que começaram como MEI e conseguiram expandir, como um vendedor de cerveja, que hoje tem duas cervejarias e um casal que saiu de uma pequena padaria para operar três unidades.
Dados confirmam avanço na formalização
Os números da Junta Comercial reforçam a percepção dos profissionais. Atualmente, 73% das constituições são analisadas em até 10 minutos e 90% em até uma hora. O desempenho é atribuído à automatização promovida pelo sistema integrador do Simplifica-ES.
Municípios com mais empresas abertas em 2025 de Breno RibeiroVitória lidera o ranking de municípios com mais empresas abertas em 2025, com 5.250 registros, seguida por Vila Velha (4.201) e Serra (3.288). Juntos, os três municípios concentram quase metade das novas empresas formalizadas no Estado.
Entre as atividades mais registradas estão serviços combinados de escritório e apoio administrativo, treinamento em desenvolvimento profissional, atividades médicas ambulatoriais, comércio varejista de vestuário e promoção de vendas.
Digitalização e a entrada única de dados
Segundo a Secretaria de Desenvolvimento do Estado (Sedes), um dos pilares do novo modelo de abertura de empresas no Espírito Santo é a entrada única de dados digitais.
Todos os processos da Jucees são hoje 100% digitais, o que elimina a necessidade do empreendedor acessar diferentes sistemas ou comparecer presencialmente a órgãos como Receita Federal, Secretaria Estadual da Fazenda, Corpo de Bombeiros ou prefeituras.
De acordo com a Sedes, a integração promovida pelo Simplifica-ES permite que, a partir de um único registro, sejam liberados automaticamente o CNPJ, as inscrições estadual e municipal e, quando aplicável, o alvará ou a dispensa do Corpo de Bombeiros. A centralização reduz erros, retrabalho e custos operacionais.
Incentivos fiscais entram no radar das empresas
Para o contador Bruno Ribeiro, o Espírito Santo vem se consolidando como um ambiente atrativo para novos negócios.
O Estado tem se destacado de forma significativa no cenário nacional pelo expressivo crescimento na abertura de empresas, e isso está diretamente ligado à modernização dos processos.
Bruno Ribeiro, contador
Segundo ele, a digitalização e a integração dos órgãos por meio da RedeSim e do Simplifica-ES mudaram a dinâmica do empreendedorismo. “Hoje, o empreendedor consegue formalizar o negócio em muito menos tempo, com mais clareza e segurança”, diz.
Bruno Ribeiro destaca ainda o papel dos incentivos fiscais: “Programas como o Investe-ES e o Compete-ES fortalecem a competitividade das empresas, especialmente as de médio e grande porte, com benefícios relacionados ao ICMS e apoio à implantação e expansão”.
Ele ressalta que os programas são voltados para setores estratégicos, como indústria, logística, tecnologia, agronegócio, cosméticos e vestuário. “São instrumentos que ajudam a atrair investimentos, gerar empregos e fortalecer o desenvolvimento regional”, afirma.

Abertura rápida não elimina riscos
Apesar do ambiente favorável e da agilidade na formalização, a abertura de empresas não elimina os riscos do negócio. Segundo o contador Bruno Ribeiro, muitos empreendimentos ainda fecham por falhas básicas de gestão, que começam logo nos primeiros meses de operação.
Muita empresa nasce por necessidade ou por uma oportunidade rápida, sem preparo em gestão. O empreendedor até domina o produto ou o serviço, mas acaba reagindo aos problemas do dia a dia, em vez de atuar de forma estratégica.
Bruno Ribeiro, contador
Em um cenário marcado por juros altos, aumento no custo dos insumos, concorrência acirrada e sazonalidade, a falta de planejamento tende a se agravar.
Entre os erros mais comuns estão problemas de controle financeiro. De acordo com o contador, o alto custo do crédito e a prática recorrente da venda a prazo levam muitos empresários a financiar a operação de forma improvisada, usando cartão de crédito, cheque especial ou antecipação de recebíveis.
“Isso drena a margem do negócio. O que faz uma empresa quebrar, na maioria das vezes, é a falta de caixa”, afirma.
Outro ponto crítico é o desconhecimento das obrigações fiscais. Bruno Ribeiro destaca que o sistema tributário brasileiro é complexo e passa por mudanças frequentes.
O empreendedor foca em vender e entregar e trata a parte fiscal como algo exclusivo do contador. Mas decisões do dia a dia, como precificação, forma de pagamento, contratação de funcionários, enquadramento tributário ou até o município onde a empresa atua, impactam diretamente o risco e o caixa.
Bruno Ribeiro, contador
Segundo ele, muitas empresas não encerram as atividades por falta de clientes, mas por falta de controle. “Elas precificam errado, perdem dinheiro na rotina e acabam sendo surpreendidas por impostos e obrigações que não estavam provisionados”, conclui.
Agilidade e atração de investimentos

O secretário de Desenvolvimento do Espírito Santo, Rogério Salume, afirma que o Estado vem investindo continuamente em tecnologia para acelerar os processos. Segundo ele, em média, uma empresa é aberta no Espírito Santo entre 15 e 24 horas.
Esse prazo pode variar quando há necessidade de licenças específicas, como vigilância sanitária ou Corpo de Bombeiros, mas, ainda assim, é um processo rápido.
Rogério Salume, secretário de Desenvolvimento do Espírito Santo
Salume destaca que a agilidade é estratégica para atrair empresas. “Os empreendedores buscam locais onde o ambiente de negócios é propício. Em outros estados, ainda se demora meses para abrir uma empresa”, compara.
Segundo o secretário, programas como o Compete-ES e o Investe-ES atendem empresas em momentos distintos. “O primeiro é voltado para quem compra e revende produtos. O Investe exige contrapartidas de investimento e geração de empregos”, explica.
Ele acrescenta que a automatização dos sistemas de solicitação de benefícios reduziu prazos e aumentou a segurança jurídica. “O objetivo é disponibilizar o benefício o mais rápido possível para quem está dentro dos parâmetros legais”, afirma.