Nos próximos anos, o Espírito Santo deve assistir a uma transformação silenciosa, mas profunda, no seu mapa econômico e produtivo. Em vez de uma obra isolada ou de um empreendimento com data de inauguração marcada, um programa de longo prazo reposiciona o Estado no cenário logístico nacional e internacional, com reflexos diretos na geração de empregos e na atração de investimentos.

Pensado como uma aliança estratégica entre o poder público e a iniciativa privada, o Parklog reúne portos, rodovias, ferrovias, áreas industriais e serviços logísticos em um mesmo ecossistema. A proposta é organizar o território, integrar modais e criar previsibilidade para quem produz, importa, exporta e investe no Espírito Santo.

Nesse desenho, o impacto sobre o mercado de trabalho aparece como um dos eixos centrais. A expectativa é que, até 2035, o conjunto de investimentos induzidos pelo programa gere cerca de 50 mil empregos diretos e indiretos, distribuídos ao longo do tempo e em diferentes setores da economia. Um dos grandes desafios do Estado é ter mão de obra qualificada para suprir essa demanda.

Com epicentro no município de Aracruz, Norte capixaba, o Parklog ES tem uma abrangência territorial mais ampla e atua como um vetor de organização logística e econômica regional.

O programa considera uma área de influência que envolve outros nove municípios – Linhares, Ibiraçu, João Neiva, Fundão, Colatina, Marilândia, São Roque do Canaã, Sooretama e Serra – formando um corredor estratégico de integração entre portos, rodovias, ferrovias e áreas produtivas.

Nem todas essas cidades concentram obras físicas diretas, mas todas são impactadas pelo redesenho logístico, pela atração de investimentos e pela reorganização dos fluxos econômicos induzidos pelo projeto.

Arte sobre o ParkLog

Empregos que surgem em ondas

Para Anderson Abreu, gestor do Parklog, a geração de vagas não está associada a um único empreendimento ou a uma contratação imediata em massa. Segundo ele, o programa funciona como um indutor de desenvolvimento, capaz de reorganizar economicamente toda uma região.

O Parklog representa um ponto de inflexão na organização econômica do território, ao estruturar e integrar ativos logísticos que antes operavam de forma fragmentada. Mais do que uma obra de infraestrutura, ele cria condições para a geração de empregos diretos e indiretos e para a diversificação das atividades econômicas.

Anderson Abreu, gestor do Parklog

Abreu explica que esses postos de trabalho tendem a surgir em ondas sucessivas. A primeira está ligada à implantação da infraestrutura, com demanda por profissionais de engenharia, construção pesada, montagem industrial e obras viárias e ferroviárias.

Anderson Abreu, gestor do Parklog
Anderson Abreu, gestor do Parklog. Foto: Acervo pessoal

Em seguida, vêm as vagas da fase operacional, envolvendo atividades portuárias, transporte, armazenagem, manutenção e logística integrada.

Em um terceiro momento, o adensamento econômico amplia ainda mais o leque de oportunidades. Indústrias associadas, agroindústrias, empresas de serviços técnicos, comércio e atividades de apoio passam a se instalar no entorno, impulsionadas pela nova organização territorial.

“A estimativa de 50 mil empregos até 2035 não se refere a vagas imediatas nem vinculadas a um único projeto. Trata-se de um efeito territorial induzido, que se materializa à medida que os investimentos se consolidam”, reforça o gestor.

Qualificação e novas oportunidades

A diversificação das atividades também altera o perfil das vagas que surgem. Além de postos operacionais, o Parklog tende a ampliar a demanda por mão de obra qualificada em áreas como logística, planejamento de operações, tecnologia da informação, segurança do trabalho, meio ambiente e manutenção especializada.

Para o subsecretário de Desenvolvimento do Espírito Santo, Celso Guerra, esse movimento já começa a ser percebido.

“Hoje, conseguir mão de obra especializada naquela região já é um desafio. E isso é positivo, porque mostra que os investimentos estão chegando e que há demanda real”, complementa.

Ainda segundo ele, a estratégia do Parklog inclui programas específicos de formação e qualificação profissional, desenvolvidos em parceria com entidades como a Federação das Indústrias e a Federação do Transporte.

O nosso desafio não é se vai haver emprego, porque vai haver. A questão é garantir mão de obra com a qualidade necessária para dar competitividade ao projeto.

Celso Guerra, subsecretário de Desenvolvimento do Espírito Santo

Onde estarão as oportunidades e como se preparar

Para quem busca se qualificar, as áreas que naturalmente tendem a apresentar maior dinamismo conforme o programa avança são:

  • Implantação e Infraestrutura: demanda por profissionais de construção civil pesada, montagem industrial, engenharia e obras viárias.
  • Logística e Operações: armazenagem, planejamento de operações, gestão de pátios e centros de distribuição.
  • Setor Portuário e Marítimo: operações de terminal, movimentação de cargas, manutenção de ativos e apoio técnico especializado.
  • Transporte Multimodal: gestão de frotas, logística ferroviária e rodoviária, despacho e tráfego de mercadorias.
  • Serviços Técnicos e de Suporte: áreas de segurança do trabalho (SESMT), meio ambiente, manutenção preditiva, tecnologia da informação e serviços de facilities.
Gargalos históricos da logística capixaba

A aposta no emprego e no desenvolvimento está diretamente ligada à superação de gargalos logísticos que, há décadas, limitam o crescimento do Espírito Santo no comércio exterior.

Para quem atua no setor, essas restrições se refletem em custos mais altos, perda de competitividade e dependência de outros estados.

Diretor comercial de uma empresa do setor logístico, Bruno Marques aponta que um dos principais entraves está na limitação do atual porto de contêineres do Estado.

“Hoje nós temos um porto com calado em torno de 12 metros, que recebe navios de até 260 metros. Isso nos limita a embarcações consideradas pequenas no comércio internacional”, explica.

Bruno Marques, diretor comercial do setor logístico
Bruno Marques, diretor comercial do setor logístico. Foto: Reprodução/TV Vitória

Essa restrição faz com que grande parte das cargas precise passar por outros portos antes de chegar ou sair do Espírito Santo.

“Na exportação, as cargas saem daqui em navios menores e fazem transbordo no Rio de Janeiro ou em São Paulo para embarcar em navios de longo curso. Na importação, acontece a mesma coisa”, diz Marques.

O resultado é aumento do tempo de trânsito e do custo do frete internacional, o que impacta diretamente empresas e consumidores. “Isso é uma desvantagem competitiva clara para o Estado”, resume.

Perdas de carga e oportunidades desperdiçadas

As limitações não afetam apenas grandes volumes de contêineres. Segundo Bruno Marques, o Espírito Santo perde cargas estratégicas por não ter estrutura adequada para determinados tipos de operação.

O Estado é o maior produtor de gengibre do Brasil, mas o gengibre não é exportado pelo Espírito Santo. O mesmo acontece com cargas refrigeradas, do setor aviário, de carnes e outros produtos que acabam saindo por portos de outros estados.

Bruno Marques, diretor comercial de empresa do setor logístico

No modal aéreo, a situação se repete. O Aeroporto de Vitória não opera como terminal internacional de cargas de grande porte, o que restringe ainda mais as possibilidades logísticas. Já a malha ferroviária, historicamente, não se conecta de forma eficiente aos portos.

“Tudo isso encarece, aumenta o tempo e reduz a previsibilidade. É um problema logístico que impede o crescimento do estado”, afirma Marques.

Como o Parklog enfrenta esses desafios
Portocel é um dos portos que faz parte da integração proposta pelo ParkLog na região de Aracruz, no Norte do ES. Crédito: Reprodução/ Portocel

A proposta do Parklog é atacar esses gargalos de forma integrada. O programa reúne três portos na região de Aracruz, dois aeroportos, futuros portos secos, novas rodovias e a conexão ferroviária com a Ferrovia Vitória a Minas.

Um dos pilares é a implantação de um novo porto de contêineres, com calado inicial de 17 metros e capacidade para movimentar até 1,2 milhão de contêineres, por ano. A estrutura permitirá a atracação de navios pós-panamax, com até 370 metros de comprimento, eliminando a necessidade de transbordos em outros estados.

Além disso, o pacote de investimentos inclui a duplicação da BR-101, a construção da ES-115, o contorno de Aracruz e melhorias em diversas rodovias estaduais. No campo ferroviário, estão previstas intervenções para ampliar a capacidade de tráfego e integrar os modais.

Estão criando infraestrutura para o Espírito Santo poder receber essas cargas e escoar para o Brasil. Quando navios de longo curso passam a atracar diretamente aqui, há redução do frete internacional e mais previsibilidade para quem importa e exporta.

Bruno Marques, diretor comercial de empresa do setor logístico
Previsibilidade e segurança jurídica

Para a especialista em Direito Marítimo e Portuário Luciana Mattar, a previsibilidade é um dos maiores ganhos de um projeto como o Parklog.

“No comércio exterior, o planejamento é essencial. Importadores e exportadores precisam saber quando a carga chega, quais os custos e quais os riscos envolvidos”, explica.

Luciana Mattar, especialista em direito marítimo e portuário
Luciana Mattar, especialista em direito marítimo e portuário. Foto: Reprodução/TV Vitória

Segundo ela, o Espírito Santo já possui vantagens competitivas importantes, como a posição geográfica privilegiada e uma infraestrutura portuária diversificada.

“Estamos a cerca de 1.200 quilômetros de aproximadamente 70% do PIB nacional. Isso nos dá capilaridade logística”, afirma. O desafio, no entanto, sempre foi a integração entre os modais.

Precisamos integrar marítimo, rodoviário, ferroviário e aéreo. Um hub logístico funciona como um ecossistema, e não apenas como um espaço para armazenar contêineres

Luciana Mattar, especialista em Direito Marítimo e Portuário

Luciana também chama atenção para entraves regulatórios e operacionais que afetam o setor, como a falta de previsibilidade e as chamadas omissões de porto, quando navios deixam de atracar no Espírito Santo por problemas estruturais ou operacionais. “Isso gera aumento de custos e insegurança jurídica”, diz.

Impactos regionais e além de Aracruz

Embora o epicentro do Parklog esteja na região de Aracruz, os impactos do programa se espalham por um território que envolve pelo menos dez municípios, da Serra a Sooretama, passando por Colatina e Marilândia.

Juntos, eles concentram cerca de 1 milhão de habitantes, o equivalente a 25% da população do Estado, e aproximadamente 30% do PIB capixaba.

Celso Guerra, subsecretário de Desenvolvimento do Espírito Santo
Celso Guerra, subsecretário de Desenvolvimento do Espírito Santo. Foto: Reprodução/TV Vitória

Celso Guerra destaca que o esforço do poder público é garantir que os benefícios não fiquem restritos a um único município.

A ideia é que o desenvolvimento se espalhe por toda a região, atraindo empresas, centros de distribuição, indústrias e prestadores de serviço.

Celso Guerra, subsecretário de Desenvolvimento do Estado

Segundo ele, a ampliação da infraestrutura viária e logística cria um ambiente mais favorável para investimentos privados, especialmente em um cenário de mudanças trazidas pela reforma tributária. “Precisamos oferecer infraestrutura e competitividade para continuar atraindo empresas”, diz.

“Parklog já está acontecendo”

Diferentemente de grandes obras tradicionais, o Parklog não terá um momento único de inauguração. Parte da estrutura já existe e está em expansão, como os portos de Aracruz, enquanto outras frentes seguem em implantação ou licenciamento.

Projeção do Porto da Imetame, em Aracruz
Projeção do Porto da Imetame, em Aracruz. Foto: Divulgação/Sedes

“O Porto da Imetame começa a operar, em 2026, com carga geral e, a partir de 2028, com contêineres. A Portocel já opera e está em processo de expansão, e a Vports iniciou o licenciamento de um novo porto na região”, declara Celso Guerra.

Para o subsecretário, os efeitos do Parklog devem se tornar cada vez mais visíveis nos próximos dois a cinco anos, à medida que as obras avançam e os investimentos privados se consolidam.

Não vai ter um dia em que alguém vai dizer: agora o Parklog começou. Ele já está acontecendo.”

Celso Guerra, subsecretário de Desenvolvimento do Estado
Trabalhador de porto portuário
Trabalhador de área portuária: qualificação. Foto: Canva
Especialista em RH dá orientações sobre qualificação

Com a certeza de que é preciso qualificar a mão de obra, a especialista em recursos humanos Roberta Kato avalia que o principal gargalo hoje não é a falta de pessoas, mas a distância entre a formação disponível e a realidade das operações que estão se desenhando com o avanço do Parklog.

Ainda temos uma mão de obra que, em muitos casos, conhece o conceito, mas não domina o processo. Falta vivência prática em ambientes industriais e logísticos, entendimento da cadeia como um todo e maturidade para operar sob padrões rigorosos de segurança, qualidade e produtividade.

Roberta Kato, especialista em recursos humanos

Segundo Roberta Kato, há também um desafio comportamental relevante: “Lidar com pressão, trabalhar em turnos, comunicar problemas, tomar decisão no tempo certo e assumir responsabilidade são exigências constantes em setores como portos, metalurgia e logística integrada, e ainda é onde mais sentimos escassez.”

Roberta Kato é especialista em Desenvolvimento Humano e Organizacional
Roberta Kato é especialista em Desenvolvimento Humano e Organizacional. Foto: Acervo Pessoal

Roberta destaca que, mais do que acumular cursos, faz diferença construir empregabilidade real.

“Para funções operacionais e técnicas, isso passa por formações aplicadas, conectadas à prática, e por experiências em campo, mesmo que iniciais. Estar em uma obra, em uma operação logística ou em uma planta industrial ensina o que nenhuma sala de aula sozinha consegue”, diz.

Já para funções técnicas avançadas e de gestão, ganham peso as formações em logística integrada, engenharia, planejamento e gestão de processos, combinadas com a capacidade de entender indicadores, custos e, principalmente, pessoas.

O profissional que cresce é aquele que entende o ‘como’, o ‘porquê’ e o impacto do seu trabalho no todo.

Roberta Kato, especialista em recursos humanos

Na avaliação da especialista, o perfil que tende a se destacar ao longo do tempo é o híbrido, nem apenas o técnico altamente especializado, nem o profissional genérico.

“O futuro é de quem combina qualificação técnica sólida com habilidades comportamentais bem desenvolvidas, capacidade de aprender continuamente, trabalhar em equipe e se adaptar as mudanças. O Parklog é um projeto de longo prazo, e projetos assim exigem pessoas preparadas para evoluir junto com o território”, resume.

Breno Ribeiro

Reporter

Jornalista há 9 anos, formado pelo Centro Universitário Faesa, com especializações em Marketing, Administração de Empresas e Gestão de Vendas.

Jornalista há 9 anos, formado pelo Centro Universitário Faesa, com especializações em Marketing, Administração de Empresas e Gestão de Vendas.