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Chorar não é bom para minha imagem, afirma Bill Murray

Entretenimento

Chorar não é bom para minha imagem, afirma Bill Murray

Toronto - Sempre que Bill Murray sobe ao palco, o ator projetado no final dos anos 1970 no humorístico Saturday Night Live sabe que a plateia espera alguma piada. "Só fiz o papel porque os produtores não conseguiram convencer Jack Nicholson a fazê-lo", disse ele, arrancando risadas, antes da projeção de seu último filme, Um Santo Vizinho, em cartaz no Brasil, em sessão lotada no cinema Princess of Wales de Toronto.

Ao encarnar aqui um veterano rabugento que serviu na Guerra do Vietnã, Murray recorre mais uma vez ao cinismo, uma característica que ele parece injetar quase involuntariamente nos personagens. "Um pouco do meu humor acaba escapando para o tipo que eu interpreto no set", contou o ator de 64 anos.

Agora, no filme dirigido por Theodore Melfi, estreante em longa-metragem, o público ri só de vê-lo surgir nas telas, sempre com ar entediado. A diferença é que St. Vincent De Van Nuys, seu novo personagem, ganha contornos mais dramáticos, ao sofrer um acidente vascular cerebral (AVC) que o deixa com algumas sequelas motoras.

A situação o obriga a resgatar a sua humanidade (aparentemente perdida) nas relações com as pessoas mais próximas, como a vizinha (Melissa McCarthy), que acaba de se divorciar, o filho dela (Jaeden Lieberher) e uma prostituta russa grávida (vivida pela atriz Naomi Watts).

"O filme arranca como comédia, mas nos leva a lugares desconfortáveis. Como o espectador já pagou pelo ingresso, ele acaba ficando até o final para não perder o dinheiro", brincou o ator nascido em Illinois em 21 de setembro de 1950.

A seguir, leia a entrevista do Bill Murray concedida ao Caderno 2, durante a 39ª edição do TIFF (Toronto International Film Festival), onde Um Santo Vizinho (St. Vincent) teve sua première mundial.

Foram poucos os personagens mais densos que você interpretou nos últimos anos, como em Flores Partidas (2005) e Um Fim de Semana em Hyde Park (2012). Você recebe poucas ofertas para o gênero, já que a sua imagem sempre foi mais associada à comédia?

Eu sou, realmente, mais reconhecido como comediante. Mas isso não me impede de fazer personagens mais sérios, como as pessoas podem perceber em Um Santo Vizinho. Sinto que estou muito melhor hoje na profissão que escolhi do que quando comecei. E o último papel, por ser mais ambicioso, me deu a chance de mostrar isso. Eu até chorei na sessão, por conseguir me distanciar do meu trabalho e ver o filme pelo que ele é. E chorar não é nada bom para a minha imagem (risos).

O personagem podia ser apenas o estereótipo do veterano de guerra amargo...

Mas o personagem Vincent foi muito bem escrito pelo próprio Melfi (o diretor), impedindo que isso acontecesse. O personagem estabelece várias dinâmicas na trama, com as pessoas que cruzam o seu caminho, deixando que cada uma delas o afete de uma forma diferente. Todas essas relações têm um efeito cumulativo sobre Vincent, desencadeando uma turbulência emocional.

Pela persona irreverente que projeta, mesmo fora das telas, você é muitas vezes chamado apenas para uma ponta (como nos recentes O Grande Hotel Budapeste ou Caçadores de Obras-primas). De preferência, quando o filme precisa de mais ironia. Isso o incomoda?

Não. Até porque eu ainda não sei ao certo qual é essa imagem que projeto. Consigo ter uma vaga ideia disso quando recebo algum roteiro preguiçoso, de alguém dizendo que escreveu especialmente para mim. No fim, é sempre a mesma coisa: o tal roteiro não passa de uma compilação de frases que eu já disse em filmes anteriores. Aí, eu, obviamente, não aceito.

Há tempos um papel não exigia de você tanta comédia física.

É verdade. Nunca me machuquei tanto num filme. Para uma queda parecer convincente, qualquer ator sabe que é preciso cair e, dependendo da situação, até se machucar. Quando apareço mancando no filme, não é fingimento (risos). Vejo o filme como a minha homenagem aos reis da comédia física. Desde o meu início de carreira, fui influenciado por Buster Keaton. O cara usava o próprio corpo como veículo e fazia tudo sozinho. Era de uma simplicidade genial, revelando aos poucos, em camadas, como o seu trabalho era, no fundo, muito sofisticado.

A sua performance em Um Santo Vizinho tem chances de ser lembrada durante a temporada de prêmios (depois desta entrevista, Murray foi indicado para o Globo de Ouro de melhor ator em comédia ou musical por sua atuação no filme e também a melhor ator coadjuvante em série, minissérie ou filme para a TV por Olive Kitteridge).

Já fui indicado para o Oscar uma vez, por Encontros e Desencontros (de 2003). Participar da campanha é como pegar um vírus, do qual você não consegue se livrar por muito tempo. O melhor mesmo da brincadeira, caso você ganhe o prêmio, é a chance de subir ao palco. E não digo necessariamente para buscar o prêmio.

Para que, então?

Para fazer uma gracinha. O que mais?