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Cia. Dos à Deux apresenta 'Irmãos de Sangue' em SP

Entretenimento

Cia. Dos à Deux apresenta 'Irmãos de Sangue' em SP

São Paulo - Em geral, os diretores preferem que os críticos de teatro assistam às peças um tempo após a estreia, a partir da terceira ou quarta semana da temporada. Isso porque a montagem precisa de tempo para se adaptar ao palco - na estreia, vê-se um espetáculo, semanas depois, a obra é alterada em nuances.

A companhia franco-brasileira Dos à Deux foge desse padrão. "Quando estreamos, tudo está tinindo", diz Artur Ribeiro, um dos diretores do grupo. "Se alguém não gostar é porque não gostou, não porque a peça precisa de consertos." Essa afinação se dá pelo gênero do teatro produzido pelo companhia: totalmente gestual, sem texto falado e com alta precisão técnica. A linguagem pode ser vista em Irmãos de Sangue, espetáculo que estreia nesta sexta-feira, 17, em São Paulo, após estrear mundialmente em Paris e passar pelo Rio e por Santos.

Este é o sétimo espetáculo da companhia, que esteve pela última vez na capital paulista em junho do ano passado com Ausência, um solo de Luís Melo. Os trabalhos da Dos à Deux costumam partir de uma palavra-chave que define o tema. Desta vez, a inspiração foi dupla: irmandade e memória. "A ideia veio como uma flecha", lembra o também diretor André Curti, negando que a encenação tenha qualquer caráter autobiográfico. "Temos sempre um grande questionamento sobre o que queremos defender, o que abordar, os perigos de cada tema."

O enredo começa com um intenso abraço de dois irmãos (interpretados por Ribeiro e Curti). É nesse momento que surgem todas as memórias da infância de ambos, desde o nascimento de um terceiro irmão (Daniel Leuback), o caçula, até a ocasião em que uma tragédia afeta a vida de todos. Completa o elenco a atriz Raquel Iantas, que dá vida à desequilibrada e inconstante mãe do trio.

Diversos assuntos são abordados na trajetória da família. No início, os dois irmãos vivem uma relação estável até a chegada do caçula, que, ao tentar se inserir no ambiente, suscita ciúmes e cria uma rivalidade. Enquanto isso, a mãe vive conflitos internos que a colocam em um jogo de bipolaridade com os filhos: há momentos banais, mas de extrema felicidade, como quando todos brincam em uma sessão de cócegas, e há situações em que ela se mostra austera, criando um clima tenso durante uma refeição, por exemplo. Este comportamento pode ser associado à ausência do pai, que só aparece em cena quando morto, em forma de boneco.

Além da direção, Ribeiro e Curti assinam a dramaturgia, a coreografia e o cenário. O processo de criação da dupla começa com a construção de um documento, que é mais do que um argumento, mas não chega a ser um roteiro. O desafio maior vem depois. "São seis, sete meses de ensaio em busca de soluções para transpor o trabalho para o gesto, sem usar o verbo", explica Curti. O cenário - denominado por eles como objetos-cenário - é essencial para a encenação. No universo onírico da peça, uma bacia pode servir como recipiente para bater bolo e, depois, fazer as vezes de estetoscópio. Amplamente usada, uma base de madeira giratória apoia movimentos dos atores, se transforma em gangorra e chega a ser até mesa de pingue-pongue.

Como a coreografia do espetáculo é precisa, os diretores focam na repetição intensa. "É por meio do domínio da técnica que os atores transcendem a emoção", diz Ribeiro. "Eles devem ter segurança sobre o que fazer no palco. Assim, podem relaxar e seguir a atuação."

Em entrevista ao jornal O Estado de S.Paulo no ano passado, às vésperas da estreia de Ausência, Ribeiro afirmou que cada trabalho da Dos à Deux gerava um novo panorama sobre sua carreira. Após Irmãos de Sangue, o saldo é o reconhecimento de uma maturidade. "Cheguei aos 40 anos com duas décadas de formação. Tenho segurança no palco porque entendi o que é estar em cena. Não preciso mostrar que estou. Eu simplesmente estou", diz, explicando que, diferentemente das peças anteriores, ele agora pode atuar de maneira mais contida, deixando a virtuosidade para seu próprio interior. As informações são do jornal O Estado de S. Paulo.