A educação no Espírito Santo precisa ter um peso diferente, principalmente quando se fala da ponta, do mercado de trabalho. Isso porque hoje o Estado tem índice de desemprego de 2,6%. Muita gente considera esse percentual emprego pleno e, do mesmo modo, o setor produtivo aponta que há um apagão de mão de obra. Ou seja, é difícil encontrar trabalhador, e a solução para o problema pode estar na base. Quanto melhor a formação, mais qualificada e mais disponível é a mão de obra.
Visão de mercado, ensino internacional e educação completa para lidar com desafios atuais. Essas premissas são alguns dos pilares básicos da Escola Americana de Vitória. A instituição acaba de inaugurar um novo campus no Aeroporto de Vitória, um investimento de R$ 100 milhões. Nesse sentido, o objetivo é elevar ainda mais o padrão de ensino no Estado.
Cristiano Carvalho, CEO da Escola Americana de Vitória, acredita que a formação de alta qualidade é o melhor caminho para preparar a mão de obra. Ele cita ainda os avanços do ensino no Espírito Santo, são só privado, como público também. Cristiano é educador há mais de 30 anos, professor de inglês com especialização em linguística aplicada. Coordenou projetos bilíngues e de educação internacional em escolas de educação básica, construindo e gerindo currículos e equipes docentes.
Veja a entrevista com Cristiano Carvalho, CEO da Escola Americana de Vitória:
Como o padrão de ensino da Escola Americana pode fazer a diferença, no mercado de trabalho?
A escola é a base de tudo. E ela é um investimento a médio e longo prazo. Um investimento que pode dar resultados muito bons, no entanto que também pode ficar aquém se não for feito com fundamentos adequados ao seu tempo.
Quando pensamos no mundo atual, de constantes transformações, incertezas e ambiguidades, precisamos refletir sobre qual modelo de educação queremos oferecer para que os alunos sejam relevantes e funcionais.
É preciso preparar os alunos para navegar nesse mundo complexo e incerto. Não apenas do ponto de vista acadêmico, mas também no desenvolvimento de habilidades que vão muito além da própria academia. Isso começa na base.
A escola segue currículos obrigatórios, mas hoje o mercado cobra outras competências. Como equilibrar?
Essa é uma pergunta muito comum entre os pais, que muitas vezes já pensam diretamente na profissão, lá na ponta. Porém a profissão surge apenas em um estágio final da formação do aluno. Antes disso, existe uma etapa inicial que precisa ser muito bem consolidada, independentemente do currículo.
O currículo é extremamente importante, claro. É preciso cumprir o que a lei determina, seja em uma escola de educação nacional, internacional ou internacional em funcionamento no Brasil. Ao definir um currículo, você define o que ensinar, o quanto ensinar e a pertinência desses conteúdos. Nesse sentido matemática, ciências, linguagens, bem como matérias eletivas.
No entanto, tão importante quanto o currículo é a metodologia. A Base Nacional Comum Curricular, por exemplo, é a mesma para todo o país, porém a forma como ela é trabalhada varia. E é a metodologia que potencializa, ou não, as habilidades que vão resultar em um profissional e em um ser humano mais completo no futuro.
Como você avalia o ambiente das escolas particulares no ES?
A escola é um microcosmo da sociedade. O Espírito Santo tem ido muito bem sob várias óticas: responsabilidade fiscal, inovação, bem como relação com o mercado. Naturalmente, isso se reflete na educação. Temos escolas públicas e particulares com índices muito relevantes no cenário nacional, como no IDEB.
A Escola Americana chegou há quase oito anos como a primeira e única escola internacional do Estado, no sentido pleno do termo. Ela adota currículos internacionais, o que vai muito além de ser uma escola bilíngue. Nossos alunos aprendem matemática em inglês, por exemplo.
Tivemos recentemente um aluno que esteve na China e conquistou quatro medalhas em olimpíadas internacionais. Isso acontece porque ele não apenas fala inglês, mas domina os conceitos acadêmicos nesse idioma. Ou seja, isso facilita o raciocínio e o trânsito por diferentes conteúdos e contextos globais.
Como você vê o movimento de grandes grupos de fora comprando escolas no ES?
Esse é um reflexo claro de um movimento global de mercado. Fusões e aquisições acontecem em diversos setores, como saúde e educação. Se isso é bom ou ruim depende muito de quem adquire e de como a transição é conduzida. O mais importante é a preservação da cultura institucional.
Objetivos estratégicos podem ser ajustados ao longo do tempo, mas valores e cultura não devem ser alterados de forma abrupta. Em educação, isso é ainda mais sensível. As famílias precisam estar atentas, porque os impactos de uma mudança cultural nem sempre são percebidos imediatamente, mas aparecem lá na frente.
Você considera esse movimento natural?
Sim, é um movimento natural de mercado. No nosso caso, a Escola Americana pertence a um grupo empresarial capixaba com mais de 80 anos de história, o Grupo Buaiz. Isso nos permite ter interfaces diversas dentro do próprio Estado, com proximidade dos mantenedores, o que facilita decisões do dia a dia e garante alinhamento de valores.
Cada instituição vai responder de forma diferente a temas como inovação, progresso bem como manutenção de cultura. Do mesmo modo de acordo com sua estrutura e com a forma como isso é compreendido pela comunidade escolar.
E a educação pública do ES, como você avalia?
Vejo avanços importantes, como a ampliação do ensino em tempo integral, com forte participação do setor produtivo. O Espírito Santo em Ação tem atuado de forma muito relevante, com apoio do governo do Estado, que oferece know-how, expertise bem como acesso. Isso gera ganhos sistêmicos.
Educação pública e privada não competem entre si; elas coexistem. Qualidade não é exclusividade de um modelo. O Estado tem feito um dever de casa muito bem executado.
De que forma o ensino público influencia as escolas particulares?
Elas funcionam como benchmarks. Apesar de as escolas privadas terem mais agilidade para inovar, dependem muito da estrutura do ensino público e da academia para troca de ideias, pesquisas e debates teóricos.
Muitos desses estudos, inclusive, são financiados com recursos públicos. Essa relação poderia ser mais fluida, mas é uma retroalimentação positiva e necessária.
Falando em ponte entre os dois mundos, como você vê o trabalho do Instituto Ponte?
Sou um fã de carteirinha do Instituto Ponte desde o início. Desde que começamos na Escola Americana de Vitória, definimos uma parceria com o Instituto. O trabalho que eles fazem ao identificar alunos de alto desempenho da rede pública e oferecer oportunidades em escolas de ponta promove ascensão social em uma geração. Quando um aluno assim entra na escola, ele traz uma diversidade extremamente potente para a sala de aula. É um ganha-ganha. O aluno que vem da escola pública amplia suas fronteiras e os demais passam a conviver com realidades diferentes.
Esse impacto não acaba sendo traumático para o aluno que vem da rede pública?
O impacto existe, no entanto ele precisa ser trabalhado com cuidado, tanto com quem chega quanto com quem recebe. Depois que o estudante entra, todos são nossos alunos. Crianças e adolescentes lidam com essas diferenças de forma muito mais natural do que os adultos.
Barreiras só são eliminadas com convivência. É preciso normalizar as diferenças e cultivar a diversidade. Em uma escola internacional, o aluno aprende que poderá sentar ao lado, no futuro, de alguém de qualquer parte do mundo, com realidades completamente distintas. Essa musculatura social é fundamental.
Como você enxerga a educação como política de Estado no ES?
Estamos no caminho certo, e espero que ele seja mantido. Projetos estruturantes e de qualidade, como os ligados ao Espírito Santo 500, não podem ser de governo, precisam ser de Estado. Países desenvolvidos tratam educação dessa forma, com metas e métricas que ultrapassam mandatos.
Qual é o impacto disso no desenvolvimento do Estado?
Primeiro, clareza de objetivos. Segundo, alinhamento. Terceiro, consistência na prática e na avaliação desses objetivos. Sem previsibilidade, clareza e ajustes de rota, os resultados esperados não aparecem.
E quais resultados você projeta para o futuro?
Vejo seres humanos mais críticos, tecnicamente capacitados e adaptáveis. O conhecimento é a base, mas ele precisa ser trabalhado de forma integrada.
Na Escola Americana, por exemplo, a matemática não é só sobre números. O aluno manipula o conteúdo, interage com ele e o conecta a outras áreas, por meio de projetos colaborativos.
O currículo é o mesmo. O que muda é o que você faz com ele. Isso desenvolve colaboração, pensamento crítico e criatividade – habilidades essenciais para o futuro.
Onde entram o esporte e as artes na educação de alto padrão?
O esporte faz parte do nosso pilar de saúde e bem-estar. Não vivemos plenamente se não estivermos bem física e mentalmente. Incentivamos a prática esportiva com estrutura, projetos, times de alta performance e programas individualizados para atletas. O esporte desenvolve disciplina, resiliência e foco, habilidades que o aluno transfere para a sala de aula. O mesmo acontece com as artes.
Música, teatro, artes visuais, contato com patrimônio cultural. Em um mundo cada vez mais tecnológico, as humanidades nos ajudam a fazer melhores perguntas.
Como equilibrar tecnologia, inteligência artificial e formação humana?
O caminho é a integração. Edgar Morin fala do ser humano complexo, que é multifacetado. Não faz sentido separar arte de tecnologia. Podemos ter alunos programando e, ao mesmo tempo, fruindo literatura, arte e cultura.
A tecnologia não substitui o professor, nem deve ser banida. Radicalismos não funcionam. A escola precisa respeitar a complexidade do ser humano.
Onde a Escola Americana quer chegar?
Queremos chegar a um futuro em que cada aluno possa construir a sua melhor versão.
Não queremos moldar o aluno, mas oferecer as melhores ferramentas para que ele decida quem quer ser hoje e amanhã. Se cada um puder ser a sua melhor versão, teremos uma sociedade muito mais produtiva e muito mais feliz.