Um segmento que gira mais o PIB capixaba e reúne nada menos do que 405 mil empresas no Espírito Santo. O comércio de bens, serviços e turismo é uma máquina de gerar riqueza e passa por algumas transformações graças ao meio digital. Ou seja, o varejo se apropriou de tudo que a Internet pode oferecer. 

Porém, o consumidor ainda valoriza a experiência de compra. Segundo dados da Federação do Comércio do Espírito Santo (Fecomércio-ES), a participação do varejo no PIB capixaba saltou de 8,5% em 2003 para 17,2% em 2023. Nesse sentido, o consumidor usa o meio digital para pesquisar preços e promoções. No entanto, ainda valoriza a loja física, especialmente em setores como alimentação, farmácia e vestuário

Nesse contexto, Getúlio Azevedo, fundador das Óticas Paris, viveu todas as etapas do varejo e criou uma marca referência no mercado capixaba. Chegou ao Centro de Vitória no fim dos anos 1970. No entanto, de lá para cá o eixo do consumo foi se deslocando, vieram os shoppings e hoje vivemos a era do e-commerce. É um pouco sobre esse movimento que Getúlio conta no livro “Foco no Propósito”, recém-lançado. 

São mais de 45 anos de história do comércio e da experiência dele no varejo de Vitória e do Estado de forma geral. 

Veja abaixo a entrevista com Getúlio Azevedo, fundador das Óticas Paris

Ao longo de 46 anos de varejo, quais pontos de virada você identifica nessa trajetória?

A Óticas Paris nasceu pequena. Uma portinha, praticamente. Ou seja, uma garagem de Fusca. Ali na Rua 13 de Maio, perto da antiga prefeitura, no Centro de Vitória.

Era uma loja de, no máximo, 23 metros quadrados, com uma vitrine. Do mesmo modo, naquela época, tudo de comércio acontecia ali no Centro. E nem era uma área comercial forte.

E quais foram as grandes viradas do comércio? Centro, Praia do Canto, shoppings, e-commerce…

A primeira grande virada foi o Shopping Vitória. O e-commerce veio bem depois, inclusive depois dos shoppings. Nesse sentido, o Shopping Vitória puxou o comércio para a Praia do Canto. Começou com cerca de 200 lojas e hoje tem mais de 300. A partir dali, o Centro começou a perder movimento naturalmente.

Esse esvaziamento do Centro não é só no ES…

É geral. Acontece no Brasil inteiro. Ou seja, você vê o Centro do Rio de Janeiro, Porto Alegre, Curitiba. O consumo migrou para os shoppings. Florianópolis eu não conheço tão bem, porém, no geral, é isso.

Como foi a adaptação da rua para os shoppings?

A primeira experiência foi no Centro da Praia, que é um centro comercial. Nesse sentido, a Paris foi uma das dez lojas que inauguraram ali, por volta de 1982, no governo Eurico Rezende. Do mesmo modo depois veio o Boulevard da Praia e, mais tarde, o Shopping Vitória.

O Centro da Praia ainda era forte, mas quando o Shopping Vitória inaugurou, houve um esvaziamento. Depois o bairro se recuperou.

Como é hoje?

Temos lojas de rua, em Jardim da Penha, na Aleixo Netto, bem como no Centro da Praia Shopping. Do mesmo modo temos loja no Shopping da Terra, em Vila Velha, no Shopping Vitória, Shopping Vila Velha, Mestre Álvaro. Em breve abriremos uma loja em Laranjeiras, na Avenida Central, e outra no bairro de Fátima.

Qual a diferença entre loja de rua e loja de shopping?

A loja de rua atende de forma mais geral. Por outro lado a loja de shopping é mais seletiva no sentido do ambiente, não do público A ou B. O shopping é um centro movimentado.

E quanto ao e-commerce?

Essa parte quem toca mais é minha filha, Ana Luíza, minha sócia. Quando ela entrou, eu pensava em ficar só com loja física. Ela viu o potencial, abraçou a ideia e hoje o e-commerce é tão bom quanto uma loja física.

Como é a competição com grandes varejistas globais no ambiente digital?

É uma competição como a loja de rua. Somos multimarca. Temos algumas marcas exclusivas e agora a Zev, que é uma criação da Ana Luíza. Começou exclusiva nas Óticas Paris e já está crescendo no e-commerce.

No começo, o cliente liga para saber se a empresa existe, por causa dos golpes. Depois a credibilidade vem e o e-commerce cresce.

Você acredita que o e-commerce vai substituir as lojas físicas?

Não. Vejo com muito bons olhos, mas não acredito que o e-commerce vá acabar com as lojas físicas. Os shoppings continuam crescendo em faturamento. O contato com o vendedor, experimentar o produto, isso não vai acabar.

Como a experiência do consumidor é um diferencial?

O cliente vai à loja, experimenta, fotografa e compra no site. Acho válido. Óculos não é cueca. Tem que botar no rosto. Está certíssimo.

Até quando faz sentido manter lojas físicas no seu ramo?

Enquanto o cliente quiser e a loja se sustentar. Depois, faz sentido ir para o interior. Linhares, Colatina, Cachoeiro, São Mateus. Já tentamos Guarapari, não deu certo na época, mas faz parte.

O jeito capixaba de fazer negócio, baseado em relacionamento, ajuda ou atrapalha?

Eu adoro esse contato com as pessoas. Cumprimento todo mundo na rua. Acho maravilhoso. Provincianismo, digamos assim, eu acho ótimo. Desconto? Já aviso que só acontece se for possível. Mesmo com choradeira. Chorar faz parte e a gente sempre negocia, mas tem um limite!

No livro você conta um episódio marcante dos anos 90, quando desfez a sociedade. O que foi decisivo ali?

Em 1992, procurei o Dr. Américo Buaiz Filho para um aconselhamento. Estava para desfazer a sociedade e não sabia muito bem como conduzir a divisão. Ele me disse: “Abra mão de qualquer coisa, menos do nome Óticas Paris”.

Eu segui o conselho. Não tinha dinheiro, cedi alguns imóveis na separação do meu antigo sócio e fiquei com a marca. Tive que começar tudo de novo, do zero, em 1993. Foi o melhor conselho e até hoje sou muito grato ao dr. Américo Buaiz Filho.

Por que manter o nome foi tão importante?

O nome Paris já tinha um recall enorme. Fomos pioneiros em propaganda de ótica na TV em Vitória. Paris remete à moda. Era fácil de guardar.

Como foi trazer marcas globais para o ES?

Comecei na Casa Masson, depois na Bausch-Lomb. Conheci o Espírito Santo viajando como representante de vendas e aos poucos fui conhecendo o mercado. Tudo que aprendi lá apliquei nas Óticas Paris. Foi a melhor escola que tive.

Hoje há uma infinidade de importados, principalmente da China. Como você vê isso?

O consumidor ganhou muito. A China evoluiu muito, como o Japão evoluiu no passado. Hoje tem Vietnã também. Tudo sob supervisão de grandes fabricantes. O varejista tem que se adaptar.

O varejista que atua no comércio deve agir sempre com correção e honestidade. Recolher impostos corretamente é essencial. Acabou a época da sonegação. Se alguém vende por 30 e outro, o mesmo produto, por 100, alguma coisa está errada.

Sua filha assumiu funções importantes. Como foi essa transição?

No início foi difícil, mas hoje ela está à frente. Eu sou mais conselheiro. A empresa hoje é muito mais organizada, com gerentes e equipe estruturada.

Como você vê o futuro das Óticas Paris?

Tenho fé que será um caso de sucesso. Porém, não é só fé. Preparação, equipe e confiança. A Ana Luiza está muito mais preparada do que eu estava e acho que isso é importante para solidificar ainda mais o negócio. Quando ela precisa de experiência eu estou aqui para atender.

Qual legado você quer deixar?

Honestidade, correção, o valor do nome. Que as pessoas olhem para trás e confiem. Depois de 46 anos, as Óticas Paris com a direção da Ana Luiza pretendem ir muito longe. Talvez eu seja o freio. Ela pensa em franquia. Com ela à frente, as Óticas Paris vão mais longe do que comigo.

Edu Kopernick

Editor de Economia

Edu Kopernick é jornalista formado na Faesa, especialista em Comunicação Organizacional pela Gama Filho, com experiência em reportagens especiais para veículos nacionais e séries sobre economia do Espírito Santo. Já teve passagens pelos principais veículos de TV, rádio e webjornalismo do Estado. É editor de Economia do Folha Vitória desde 2024, apresentador de TV e host do videocast ValorES.

Edu Kopernick é jornalista formado na Faesa, especialista em Comunicação Organizacional pela Gama Filho, com experiência em reportagens especiais para veículos nacionais e séries sobre economia do Espírito Santo. Já teve passagens pelos principais veículos de TV, rádio e webjornalismo do Estado. É editor de Economia do Folha Vitória desde 2024, apresentador de TV e host do videocast ValorES.