O setor solar brasileiro segue em ritmo acelerado. A capacidade instalada já ultrapassa 60 gigawatts, o que representa cerca de um quarto da matriz elétrica nacional e, nesse sentido, coloca o país entre os maiores geradores de energia fotovoltaica do mundo. Além disso, as projeções para este fim do ano indicam uma adição de mais 13 gigawatts na geração distribuída. 

Hoje, já são mais de 3,7 milhões de sistemas instalados em residências, comércios e propriedades rurais. Os dados são da Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica. Com seis anos de atuação no setor e mais de 300 mil projetos entregues em parceria com integradores de todo o Brasil, a capixaba Fotus investe em infraestrutura, logística e suporte técnico especializado.

Atualmente a empresa, nascida aqui no Espírito Santo, conta com dois escritórios. Um aqui no Estado e outro em São Paulo. E também são seis centros de distribuição que atendem todas as regiões do país, o que garante eficiência na entrega e velocidade nas soluções técnicas. 

De tecidos a energia solar

José João Cunha Filho é fundador e CEO da Fotus. A família dele começou com a venda de tecidos para comerciantes e pequenas confecções aqui no ES. E ele começou cedo nos negócios da Litoral Têxtil. Fez sua primeira viagem para a China, com o pai, aos 16 anos de idade. O objetivo era ajudar nas traduções conversas com fornecedores. Em uma dessas viagens, eles encomendaram a primeira remessa de painéis solares para diminuir custos da empresa. E pensaram: “Tem um negócio aqui.” 

O negócio deu tão certo que o José João entrou na relação Forbes Under 30. É uma lista em que a revista americana destaca 30 jovens, com menos de 30 anos, que se destacam em diversas áreas. Como, por exemplo, negócios, tecnologia, artes, esportes bem, como empreendedorismo social entre outras. O José João tinha 29 anos em 2022 quando entrou para essa lista na categoria Varejo e E-commerce. 

Veja abaixo a entrevista com José João Cunha Filho, CEO da Fotus:

O que significa estar na lista Forbes Under 30?

Eu acho que significa uma conquista em termos de empreendedorismo em um país gigante que é o Brasil, com muitos empreendedores.

A venda no mercado varejista do kit fotovoltaico representa muito a resiliência da empresa, da gestão, da construção desde o zero, há mais ou menos 6, 7 anos atrás. E do mesmo modo como isso se consolidou, mostrando, através da conquista da Forbes, que a Fotus deu certo e conseguiu se posicionar no mercado.

Então, é uma soma de reconhecimento com a conquista de que algo foi realizado e concretizado. Independente da empresa ter sido nova ou não, mostra a solidez e a robustez que a Fotus conseguiu, com a minha gestão. E, obviamente, com a ajuda de todos os parceiros que trabalham comigo. É muito mais reconhecimento da empresa do que do próprio José João.

Como foi o estalo de acreditar no setor de geração solar no Brasil?

Como eu estava acostumado com a distribuição de tecidos importados da China, eu percebi que a distribuição solar, quando a gente começou a instalar na empresa, estava precária. Não tinha um atendimento qualificado ao cliente na parte de distribuição.

E era um mercado que tinha muitas projeções e números muito fáceis de serem calculados. Porque todo país, se você analisar o mercado mundialmente, passa por essa etapa que o Brasil passou e está passando agora. Ou seja, você consegue medir o que o país necessita de energia sustentável. Do mesmo modo, não tinha outra saída para nenhum país do mundo sem ser a energia solar. È rápido, barato e eficaz.

Esse foi o estalo. Eu pensei: Como eu já sei a logística, já sei a distribuição, já conheço o Brasil inteiro, vou adicionar um produto na minha carteira. A ideia era essa, fazer acontecer, já que quem estava fornecendo não fazia da forma correta. Foi basicamente a comparação que meu pai fez quando montou a distribuição de tecidos: “Me atendem muito mal, vou verticalizar”.

O sucesso do negócio tem mais a ver com timing ou gestão?

Completamente gestão. O mercado solar já passou por duas ou três crises, contando a covid. Teve momentos de muita alta, com ticket médio maior, alta demanda e pouca oferta. Ou seja, a margem era boa. Todo mundo ganhava dinheiro. E vimos players que não participam mais do mercado porque não foram capazes de sustentar o negócio.

É muito mais sobre sustentabilidade, gestão e boas decisões do que só dinheiro. Estamos vendo outros mercados passando por crises que o solar já viveu. A gestão faz com que os sólidos mantenham a sustentabilidade ao longo prazo. Em sete anos, eu vi muita empresa sair do mercado por falta de gestão.

Você começou a empresa em 2019. Como um jovem de 25 anos consegue ter essa visão?

Eu acho que o empreendedorismo muitas vezes está dentro da pessoa, na chama que faz você querer construir algo. E eu senti essa chama. Do mesmo modo, sempre gostei muito de estudar. Era diferente do negócio do meu pai. Eu estudava muito gestão, via outras referências, outras indústrias.

Juntei empreendedorismo com boa gestão, que falha muito no Brasil. Temos muito empreendedor, mas pouca gestão no nível de país que somos. Consegui unir isso, ter visão de longo prazo, treinar equipe, escolher produtos certos, bem como colocar gestão de alta performance. Aprendi isso em cursos como o da Dom Cabral. Somei tudo e tive visão de chegar no alvo em cinco anos. A Fotus se tornou muito maior do que eu esperava.

Como você vê hoje o setor solar no Brasil?

É um mercado sem barreira de entrada. Tem espaço para novos players, porém depende da alocação de recursos e do apetite pelo risco. Nesse sentido, já é um mercado com margens baixas, com mais regras e leis. Há incertezas sobre o futuro da geração distribuída no país.

No entanto tivemos uma vitória recente no Congresso, que deu fôlego. Temos certeza de que podemos produzir energia solar por mais um tempo. Na minha opinião, temos dois ou três anos garantidos.

Você investiu em centros de distribuição pelo país. Qual a importância disso?

Nem tudo é sempre bom. Sempre há o lado bom e o ruim. As vantagens são solucionar problemas logísticos, que são deficiência do Brasil. A logística é um percalço em qualquer segmento. Nesse sentido, CDs criam proximidade com o cliente, entendimento melhor dos mercados. O Brasil real é o interior. Do mesmo modo, chegar até essas pessoas é difícil.

Ter vários CDs melhora a qualidade da entrega e o suporte ao cliente em todo o Brasil.

Como se controla CDs distantes assim?

Com muito trabalho em gestão, controle e liderança. Líderes capazes de estar onde a matriz não está. Presença constante, viagem, conexão, melhoria de sistema, de performance. As pessoas valorizam muito quando veem alguém de fora investir na região delas.

Como você vê a posição logística do ES hoje?

Faz total sentido. O Espírito Santo é muito mais do que benefício fiscal. Temos mão de obra boa, estamos perto de muitos lugares. A forma como o negócio é tratado no Estado é favorável. O governo promove novos negócios. Logisticamente, é muito competitivo.

Como você vê o setor de distribuição do ES nesse momento logístico?

A distribuição no Espírito Santo vai se tornar cada vez mais eficaz. Há novas regiões em desenvolvimento, novos portos, tanto para contêiner quanto para indústria e exportação. Isso avança bastante. A distribuição do ES para o Brasil se torna vantagem geográfica e de custo. Fica mais barato porque há investimento tendenciando esse preço a baixar. Mais empresas de frete, mais transportadoras, mais empregos indiretos.

A redução de margens favorece a operação da Fotus?

Com certeza, principalmente por estar no Espírito Santo. Não aumenta a margem, no entanto aumenta a coragem de investir. Se posso reduzir custo aqui, invisto em pessoas aqui, em novas cidades, em contêineres. Aumenta a chance de competitividade.

Como você vê Aracruz para investimentos?

Aracruz é a próxima bola da vez. Há muito investimento sendo feito. Temos o porto de Metálica como realidade. O Espírito Santo com Aracruz vai se tornar ainda mais competitivo, com benefícios federais. A estrutura vai melhorar. É um lugar ainda virgem, mas um tiro certo.

Você já investe na região?

Vou investir em Aracruz. A Fotus e a Litoral Têxtil pretendem ter operação lá, caso tudo aconteça como planejado. Precisamos de galpão logístico e estamos procurando.

Qual a maior dificuldade de empreender no ES?

É uma questão abstrata. Não é falta de incentivo ou de pessoas. É mentalidade. O Estado ainda não virou a chave de mercado. As pessoas não pensam ainda em se profissionalizar como em São Paulo. Não vejo essa virada na cultura local. Falta um olhar mais de carreira, de crescimento.

E no Brasil?

A principal dificuldade é lidar com incertezas políticas. Decisões mudam leis, impostos, trajetos. Isso dificulta, dá medo e coragem ao mesmo tempo. Com juros altos, você pensa: “Por que correr esse risco?” Ter coragem de continuar investindo é a maior dificuldade.

Como você vê a relação do governo com empresas aqui?

Muito boa. Serve de exemplo para muitos estados. Pode melhorar, mas o Espírito Santo está à frente da média. Dá para conversar, resolver problemas em conjunto, trocar ideias. O Estado permite esse tipo de relação.

O que torna o ES diferente?

A capacidade pouco explorada. Há muita barganha possível porque tem pouca gente comparado com grandes centros. A qualidade de vida é sensacional. Isso proporciona muitos negócios. É um Estado que funciona e ainda tem moqueca capixaba, minha comida preferida.

Como você vê o futuro da geração e distribuição de energia fotovoltaica?

Não vai crescer como antes. Não sei se vai diminuir ou se manter, mas já saturou. Há dificuldades de regulamentação, lobby… É um mercado que vai continuar grande, relevante, não vai acabar. Vai movimentar muito dinheiro, mão de obra e mercado formal. Porém, não será como antes.

A política pode atrapalhar os negócios?

Pode, mas não para me prejudicar especificamente, e sim favorecendo outros mercados. Porém, nada acontece do dia para a noite. Tudo tem conversa. O Brasil não pode ficar sem geração e distribuição de energia solar. Pouca gente ganharia com isso. Então, pode afetar negativamente, no entanto tudo é resolvível.

Como a Fotus vai encerrar 2025?

Com crescimento. O mercado não cresceu, mas muitos players saíram. Vamos crescer uns 20% em volume. O preço da energia caiu. Não sobe mais como antes. Isso é bom para o consumidor, porém não está no meu controle.

A gestão e qualidade da Fotus só melhoram. Isso eu garanto.

E 2026?

Planejamento é agregar novos produtos ao portfolio da Fotus. Vamos distribuir drones agrícolas e produtos novos de energia, como baterias. A bateria é o principal novo produto do mercado. Vai gerar autonomia para brasileiros e indústrias e manter a infraestrutura saudável.

José João Cunha Filho, CEO da Fotus
Edu Kopernick

Editor de Economia

Edu Kopernick é jornalista formado na Faesa, especialista em Comunicação Organizacional pela Gama Filho, com experiência em reportagens especiais para veículos nacionais e séries sobre economia do Espírito Santo. Já teve passagens pelos principais veículos de TV, rádio e webjornalismo do Estado. É editor de Economia do Folha Vitória desde 2024, apresentador de TV e host do videocast ValorES.

Edu Kopernick é jornalista formado na Faesa, especialista em Comunicação Organizacional pela Gama Filho, com experiência em reportagens especiais para veículos nacionais e séries sobre economia do Espírito Santo. Já teve passagens pelos principais veículos de TV, rádio e webjornalismo do Estado. É editor de Economia do Folha Vitória desde 2024, apresentador de TV e host do videocast ValorES.