
Duas surpresas marcaram a 28ª edição da Dez Milhas Garoto, na manhã deste domingo (03). A primeira delas veio do céu. A previsão do tempo informava tempo nublado e chuva durante o horário de realização da prova.
Por volta das 6h30, na concentração para a largada na orla da Praia de Camburi, em Vitória, uma nuvem carregada estava estacionada sob o pórtico. No entanto, a medida que os corredores iam se alinhando e aquecendo ela foi se dissipando. Às 7h30, algumas gotinhas chegaram a cair, mas não deu nem pra molhar os corredores que já aguardavam ansiosos pelo sinal sonoro que daria início à maior corrida de rua do Espírito Santo.

Às 7h40, foi dada a largada da Elite Feminina com a capixaba Tiane Marcarini representando o Espírito Santo e abrindo o caminho para as atletas de renome nacional e internacional. Faltava pouco para começarmos a correr. Mesmo sendo a minha sexta participação na Dez Milhas Garoto eu estava ansiosa. Às 8 horas, pontualmente, foi dada a largada. O termômetro marcava 20 graus, o tempo permanecia nublado e a ameaça de chuva foi embora.
Larguei no setor laranja e a caminhada até o pórtico principal foi lenta, mas empolgante pelo calor da torcida nos prédios e nas calçadas. É nesse exato momento que temos a real dimensão do tamanho da Dez Milhas Garoto: 11 mil inscritos!

Um pouquinho mais à frente, tive a companhia de Antonio, 79 anos, por alguns metros (foto abaixo). Natural do Rio Grande do Norte, mora no Rio de Janeiro, e participa da Dez Milhas Garoto há 18 edições. “Já fui tricampeão aqui nos anos de 2003, 2004 e 2005”, disse animado.
Abastecida com a força de vontade dos dois veteranos comecei a subida da Terceira Ponte. Uma leve dor no joelho, que sinto desde a conclusão da Maratona do Rio de Janeiro, parecia querer incomodar. E eu não queria pensar nela ao longo do 1,5km de subida. Naquela altura, o tempo estava abafado e permanecia nublado.
Consegui fazer toda a subida correndo aumentando um pouquinho o pace para ter um pouquinho mais de conforto. Na descida da Terceira Ponte até chegar à alça, um sol tímido entre nuvens já iluminava o nosso caminho e se misturava ao forte calor da torcida vilavelhense.
Eu me sentia bem para percorrer um dos meus trechos favoritos – da alça até o início da Praia de Itapoã. Sempre que passo por ali me sinto energizada com a alegria dos moradores que deixam as suas casas na manhã de domingo para dar palavras de incentivo a quem está correndo. É comum ouvir “Ano que vem estarei aí”. Saber que a nossa passagem no “quintal” deles é inspiradora, faz todo o esforço valer a pena.
Chegamos à orla de Vila Velha. Esse trecho é sempre duro pra mim. O cansaço bateu! Olhei para o mar e busquei forças na ressaca das ondas fortes que batiam na areia. No posto de hidratação senti que era a hora de dar uma caminhada para consumir a água e um gel de carboidrato com calma. Caminhei por alguns metros e voltei a correr.
Acessamos a avenida Castelo Branco e faltavam apenas 3 quilômetros para cruzar a linha de chegada. Não era só eu que estava cansada. Vi muitos corredores gritarem ou murmurarem: “Faltam só três”. A essa altura, a primeira surpresa já não era mais novidade. O sol reinava sobre Vila Velha e e eu já vislumbrava a linha de chegada debaixo de muito calor.
Quando a contagem regressiva se aproximava do km 14, surgiu a segunda surpresa da Dez Milhas Garoto. Uma mudança no percurso nos fez permanecer seguindo pela avenida Castelo Branco e ainda nos deu mais uma “subidinha”, graças a uma ladeira ao longo do trajeto. A alteração que evitou o acesso pela Henrique Moscoso deixou o percurso mais linear e desafiador e, acredito, causou menos impactos no trânsito da cidade. Eu gostei!

E foi com a maturidade que absorvi do Seu Ivo e do Seu Antônio, lá no início dos 16km, que cruzei a minha sexta linha de chegada da Dez Milhas Garoto, a corrida mais gostosa do Brasil, que tem o poder de mudar não só a previsão do tempo, mas o percurso da minha vida e a de muitas outras pessoas.
