
As exportações de pimenta-do-reino do Espírito Santo alcançaram patamares históricos em 2025. O estado exportou US$ 347,2 milhões e 56,2 mil toneladas, recordes absolutos tanto em valor quanto em volume. Em comparação com 2024, o crescimento foi de 113% em divisas e 58% em volume, segundo dados do comércio exterior.
Na pauta do agronegócio capixaba, a pimenta-do-reino foi o terceiro produto mais exportado do estado em 2025, ficando atrás apenas do café (US$ 1,79 bilhão) e da celulose (US$ 862,6 milhões).
De acordo com o presidente da Brazilian Spice Association (BSA), Frank Moro, a pimenta-do-reino tem hoje um papel estratégico para a economia capixaba, com impacto direto na geração de renda, empregos e nas exportações. “Estamos falando de cerca de 12 mil famílias produtoras no Espírito Santo. Se considerarmos o número de pessoas envolvidas direta e indiretamente, especialmente no período de colheita, o impacto em empregos é muito expressivo”, afirma.
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Além da relevância social, o produto se destaca pela rentabilidade. Segundo Moro, a pimenta-do-reino é, hoje, uma das culturas mais rentáveis do estado, superando inclusive outras atividades tradicionais. “Comparada aos principais produtos agrícolas do Espírito Santo, a pimenta é altamente rentável, o que reforça sua importância econômica”, destaca.
Nos últimos dez anos, o setor passou por uma transformação significativa. O Brasil se consolidou como o segundo maior produtor mundial de pimenta-do-reino, atrás apenas do Vietnã, mas lidera em produtividade por hectare.
“Temos tecnologia, boas práticas agrícolas, solo favorável e produtores cada vez mais capacitados, o que permite alta produtividade”, explica Moro.
Esse avanço também se reflete no perfil do produtor, que tem investido mais em capacitação e inovação. Um dos movimentos recentes, segundo o presidente da BSA, é a migração gradual do uso de insumos químicos para produtos biológicos, acompanhando tendências globais de sustentabilidade e exigências de mercado.
O que impulsionou o recorde em 2025
O resultado recorde de 2025 foi impulsionado por uma combinação de fatores. De acordo com Frank Moro, o forte crescimento em valor foi puxado principalmente pelo aumento do preço da tonelada do produto no mercado internacional. Já o avanço no volume exportado está relacionado à recuperação da produção.
“Em 2024, tivemos um ano atípico, com altas temperaturas e forte incidência de sol, que prejudicaram a produção e derrubaram a produtividade. Em 2025, esse cenário climático não se repetiu, o que permitiu uma produção maior”, explica. Com preços mais atrativos, estoques que estavam represados também começaram a ser comercializados, elevando as exportações.
Moro ressalta, no entanto, que a comparação com 2024 amplia a percepção de crescimento. “Se analisarmos anos como 2022 ou 2023, o crescimento em volume não é tão exponencial”, pondera.
Ao longo de 2025, a pimenta-do-reino capixaba chegou a 70 países. Os principais destinos, em valor, foram Vietnã (22,26%), Emirados Árabes Unidos (13,80%) e Marrocos (11,13%).
Apesar da diversificação de mercados, o setor enfrentou desafios com o “tarifaço” dos Estados Unidos. Segundo Moro, parte do produto que seria destinado ao mercado americano precisou ser redirecionado. “Tivemos que buscar mercados secundários, com maior risco, menor liquidez e maior inadimplência. São mercados que não oferecem a mesma segurança”, afirma.
Produção nacional e perspectivas para 2026
O ano de 2025 também foi positivo para a produção nacional. De acordo com a BSA, não houve impactos climáticos relevantes nem problemas fitossanitários expressivos. “Foi um ano satisfatório tanto em produtividade quanto em preço. A pimenta, economicamente, teve desempenho superior a culturas tradicionais como o café”, avalia Moro.
Para 2026, as perspectivas seguem otimistas. O presidente da BSA destaca que o mercado global ainda apresenta desequilíbrio entre oferta e demanda, com consumo superior à produção. “Se o clima continuar ajudando, podemos ter aumento de produtividade e manutenção de preços em patamares satisfatórios. Existe, sim, a possibilidade de um novo recorde”, projeta.
Desafio da qualidade e alerta ao setor
Apesar dos bons números, o setor enfrenta um desafio estrutural que pode comprometer a competitividade da pimenta brasileira no mercado internacional: o processo de secagem.
Segundo Moro, boa parte da pimenta produzida no Espírito Santo e na Bahia ainda é seca em secadores rotativos a lenha. O método pode contaminar o produto com antraquinona, substância proibida nos Estados Unidos e na União Europeia. “O produtor de pimenta herdou práticas da cafeicultura, mas a pimenta é consumida in natura. A fumaça desses secadores pode contaminar o produto e nos faz perder mercado”, alerta.
O mercado internacional tem sinalizado preferência, e pago mais, por pimentas secas de forma natural, ao sol, a gás ou em secadores elétricos. Moro cita o exemplo do cravo-da-índia na Bahia, que perdeu competitividade ao ignorar exigências de qualidade no passado. “Se o produtor continuar ignorando as exigências do mercado, podemos repetir esse erro histórico. É um alerta importante para garantir o futuro da cadeia da pimenta-do-reino”, conclui.
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