
O protocolo de IPO do PicPay na bolsa de Nova York revela muito mais do que a intenção de listar ações na Nasdaq. O formulário entregue à SEC (a CVM americana) em 5 de janeiro expõe os bastidores de uma operação cuidadosamente estruturada, que combina crescimento acelerado, virada consistente de resultados, reforço de capital bancário e uma arquitetura societária que preserva integralmente o controle do grupo J&F.
Crescimento forte e lucro em alta sustentam a narrativa do IPO
Nos números, o PicPay chega ao mercado americano exibindo uma trajetória de forte expansão com rentabilidade crescente. Nos nove primeiros meses de 2025, a companhia registrou receita de R$ 7,26 bilhões, praticamente o dobro dos R$ 3,78 bilhões reportados no mesmo período de 2024. No mesmo intervalo, o lucro líquido avançou 82%, passando de R$ 172 milhões para R$ 314 milhões.
A virada já havia ficado clara no balanço de 2024: o PicPay encerrou o exercício com lucro de R$ 252 milhões, contra R$ 37 milhões em 2023, consolidando a transição de uma fintech focada em crescimento para um banco com geração de resultados sustentáveis.
Monetização por usuário acelera e crédito vira motor central
Um dos pontos mais destacados do prospecto é a evolução da monetização da base de clientes. A receita média por cliente ativo saltou 71% em um ano, atingindo R$ 65,4 no terceiro trimestre de 2025. O documento deixa claro que essa expansão está diretamente ligada à estratégia de aprofundar o relacionamento com o usuário, o conceito que a própria companhia define como “principality”.
Nesse novo estágio, o crédito assume papel central: 50% da receita média por cliente já vem de produtos de crédito, enquanto as receitas de tarifas e comissões representam 29%. O prospecto do IPO descreve explicitamente o crédito como a “próxima fronteira de crescimento” da plataforma.
Reforço de capital e ajustes regulatórios antes da estreia
O documento, no entanto, não esconde os desafios. Ao assumir plenamente os requisitos regulatórios para ser banco, em 2024, o PicPay chegou a ficar desenquadrado em índices de capital – o colchão de dinheiro que um banco precisa ter. A resposta veio em forma de aportes relevantes do controlador.
Entre 2024 e setembro de 2025, o grupo recebeu injeções de capital que somam R$ 1,03 bilhão, incluindo aumentos formais de capital e contribuições adicionais ao patrimônio – tudo da controladora J&F, da família Batista.
Engenharia societária preserva controle absoluto da J&F
Se os números constroem a narrativa de crescimento, a governança deixa claro quem continuará no comando após o IPO. A oferta será feita exclusivamente com ações Classe A, que conferem um voto por papel. Já a J&F Participações deterá 100% das ações Classe B, cada uma com dez votos, assegurando controle quase total das decisões societárias.
O próprio prospecto reconhece que o PicPay será uma “controlled company” – mesmo os investidores relevantes terão influência limitada sobre a condução do negócio.
Em um trecho pouco comum para prospectos desse tipo, o PicPay dedica espaço relevante para alertar investidores sobre o histórico dos seus controladores. O documento reconhece que Joesley e Wesley Batista já foram alvo de ações civis e criminais em outros contextos, ressaltando que esses episódios afetaram a reputação do grupo.
Aquisições e o risco do Banco Master
O documento descreve aquisições recentes, como a incorporação integral da corretora PicPay Invest, a compra da BX Blue no segmento de crédito consignado e a aquisição da Kovr, plataforma digital de seguros.
No caso da Kovr, o prospecto chama atenção ao informar que parte da estrutura adquirida passou recentemente por uma empresa ligada ao Banco Master, atualmente em liquidação extrajudicial – um outro detalhe que aparece como risco regulatório e reputacional potencial.
Um IPO de crescimento, mas sem perda de comando
No conjunto, o protocolo do IPO do PicPay revela uma operação de mercado que combina números robustos, aceleração de monetização e fortalecimento bancário, ao mesmo tempo em que blinda o controle do grupo fundador.
Para o investidor estrangeiro, o recado é claro: trata-se de uma empresa que chega à bolsa com boa rentabilidade, mas que oferece participação econômica sem divisão de poder. O sucesso da oferta dependerá, em última instância, de como o mercado vai precificar essa equação entre crescimento, risco Brasil e controle centralizado.