
Desde o lançamento original, Doom ultrapassou o status de simples jogo para se tornar um verdadeiro teste de limites tecnológicos. Ao longo de mais de 30 anos, o clássico da id Software foi portado para dispositivos que jamais foram pensados para rodar games — e o capítulo mais recente dessa história envolve um eletrodoméstico inesperado: uma panela de pressão inteligente Cook4Me, fabricada pela Krups.
O projeto foi realizado pelo engenheiro e modder alemão Aaron Christophel, nome já conhecido na comunidade por adaptações fora do comum. Antes da Cook4Me, ele já havia feito Doom rodar em um vape, em um carregador de mesa e em outros dispositivos improváveis, sempre com a mesma premissa: provar que, se existe hardware minimamente funcional, Doom pode rodar ali.
Dessa vez, o desafio foi ainda mais técnico. Diferente de gadgets simples, a panela de pressão inteligente possui um sistema embarcado relativamente fechado. Para viabilizar o projeto, Christophel precisou desmontar o aparelho e identificar quais componentes controlavam a tela sensível ao toque, ponto central para exibir e interagir com o jogo.
O que existe por trás do Cook4Me
Ao abrir o dispositivo, o modder encontrou um conjunto de hardware mais robusto do que o esperado para um eletrodoméstico. A Cook4Me utiliza um chip R7S721031VCFP, da Renesas, além de contar com módulo Wi-Fi integrado, 128 MB de RAM e 128 MB de memória flash. Essas especificações colocam o aparelho mais próximo de um sistema embarcado completo do que de um simples utensílio de cozinha.
Esse conjunto foi fundamental para o sucesso do port. Após identificar os componentes, Christophel realizou o dump da memória do sistema e iniciou um processo de engenharia reversa para descriptografar os dados da flash. A partir disso, foi possível reprogramar o hardware responsável pela interface gráfica e abrir caminho para a execução de Doom.
Doom rodando na tela da panela
Com o sistema modificado, Doom passou a rodar diretamente na tela touchscreen da Cook4Me. O visual mantém o estilo clássico do jogo, respeitando suas limitações originais, mas funcionando de forma surpreendentemente estável. Segundo o próprio Christophel, o desempenho entrega um frame rate “bem decente”, especialmente levando em conta o tipo de hardware utilizado.
A prova do funcionamento está registrada em um vídeo de cerca de 10 minutos publicado no YouTube pelo modder. Nele, Christophel detalha cada etapa do processo, mostra a interface adaptada e, ao final, apresenta a gameplay rodando na panela de pressão, confirmando que o projeto não ficou apenas no conceito.
Uma ideia absurda, mas inevitável
O próprio criador admite que o projeto soa exagerado. Ao comentar a motivação, Christophel foi direto: “Nós oficialmente lançamos Doom nessa panela de pressão. Eu sei o quão bobo isso é, mas precisava ser feito, já que esse tipo de dispositivo existe.” A declaração reflete bem a mentalidade por trás dessas iniciativas: menos utilidade prática e mais curiosidade técnica.
A comunidade de Doom já viu o jogo rodar em contextos ainda mais estranhos. Ao longo dos anos, o shooter apareceu dentro do Paint, em arquivos PDF, em documentos do Word e até na barra de pesquisa do Google. Em 2023, um desenvolvedor chegou a executar Doom 2: Hell on Earth no computador de bordo de um bonde soviético, ampliando ainda mais essa coleção de ports improváveis.
Doom como símbolo da cultura hacker
Mais do que uma curiosidade para redes sociais, Doom rodando em uma panela de pressão reforça o papel do jogo como ícone da cultura hacker e da experimentação tecnológica. Adaptar um título dos anos 1990 para hardware moderno, muitas vezes proprietário e fechado, exige conhecimento profundo e respeito pela engenharia original do jogo.
No fim, a Cook4Me não se torna uma plataforma prática para jogar nem ganha novas funções culinárias. Ainda assim, o experimento cumpre seu objetivo com perfeição: mostrar que Doom continua sendo o campo de testes definitivo para criatividade, engenharia reversa e paixão por tecnologia.