A canoa virou e deixou de virar, foi por causa do Pedrinho que não sabia que não enxergava

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Essa é uma situação vivida por diversas crianças, a qual a grande maioria não se queixa porque não sabe o que é enxergar bem.

Normalmente as crianças até os 2 anos de idade, mesmo com erros refracionais (“grau do olho”), costumam interagir bem e brincarem sem transtornos durante o período do desenvolvimento da visão. Isso acontece pela grande capacidade de acomodação que elas possuem e que tende a diminuir com o passar do tempo. Sinais como, “olho torto”, aperto das pálpebras, aumento das piscadas, esfregação dos olhos e puxada dos eletrônicos para perto se manifestam naquelas que possuem dificuldade de enxergar ao diminuir a acomodação.

Ao iniciar as exigências da idade escolar, acrescenta-se a isso alterações no desempenho, mudanças comportamentais (algumas andam pela sala de aula o tempo todo, tagarelando, desatentas “típico dos hipermetropes”, algumas permanecem sentadas sem interagir, principalmente no recreio, caladas,” típico dos míopes”, e outras trocam ou embaralham letras “típico dos astigmatismos”), mas a maioria compartilha como ponto comum a interação social afetada.

Mas por que os pequenos não se queixam?

O fato é que a visão só inicia seu desenvolvimento após o nascimento, assim como a fala, o andar. Diferente do que se pensa, o esperado é nascermos “com grau” nos olhos e nos tornarmos emetropes (sem grau) com o crescimento.

Até que se faça um exame e corrija a dificuldade de visão, a criança não possui parâmetros comparativos para o fato de enxergar bem ou não. Pensa comigo: se não tem nada para comparar, não se compara. A comparação só acontecerá depois da prescrição dos óculos e/ou tratamento, quando se retira os óculos e a mesma os busca novamente ou manifesta os sinais anteriores à prescrição. Agora, sim, foi criado parâmetros para essa criança.

Óculos para criança é tratamento; conforto e qualidade de vida são consequências do tratamento. Mas agora vou quebrar um antigo tabu: o uso dos óculos não faz com que o grau permaneça estável.

O exame oftalmológico infantil detecta as alterações que muitos pais não percebem, mas não significa que não estejam ali. Causando ou não sinais, essas certamente atrasam ou alteram o desenvolvimento visual, socioemocional e motor da criança. A formação da visão se faz até os 10 anos de idade, onde “termina” com a maturidade do sistema de ligação do olho com o cérebro. Por isso hoje trabalhamos para correção precocemente, cientes que qualquer alteração nessa faixa etária pode causar consequências para o resto da vida.

Se você fosse peixinho e soubesse nadar, e agora você sabe, juntos poderíamos tirar o Pedrinho do fundo do mar.

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*artigo escrito por Claudia Maestri, médica formada pela Emescam, mestre e doutora pela USP de Ribeirão Preto, e pós-doutora pela Unifesp em ciências visuais. Criadora do programa EYE PREVENT FOR KIDS, cujo compromisso é diminuir a cegueira no mundo. Autora do livro “oftalmopediatria in foco, contada em prosa”.

12 Respostas para “A canoa virou e deixou de virar, foi por causa do Pedrinho que não sabia que não enxergava

  1. Texto fantástico, muito bem elaborado e que relata muitíssimas informações desconhecidas por muitas pessoas. Aprendi muito sobre este importante assunto.
    Vou repassar para meus familiares e amigos.
    Parabéns para a senhora Claudia Maestri👏👏👏👏🙏🙏🙌🙌🙌

  2. Quais exames as crianças com T21 devem fazer? Sabemos q têm um % grande de crianças com T21 com problemas visuais. Como diagnósticar precocemente? A partir de qual idade e com q frequência?

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