Microaprendizagem: conheça a nova tendência da educação

Microaprendizagem
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Realidade aumentada, inteligência artificial, aprendizagem adaptativa são, sem dúvidas, termos presentes quando pensamos sobre o “futuro da educação”. No entanto, existe um número ainda maior de estratégias que já eram utilizadas ao redor do mundo gerando resultados positivos e outras que foram implementadas em meio ao processo acelerado pela Covid-19. O primeiro artigo desta coluna (leia aqui) abordou, em visão sistêmica, como a educação poderia superar o seu atraso perante a outros setores. De forma auxiliar, o presente artigo dará início a uma série de artigos sobre estratégias relevantes e tendências de ensino-aprendizagem que estão ganhando força nos últimos anos. A primeira delas é sobre a microaprendizagem.

Cenário propulsor

Nunca houve uma disponibilização tão grande de informação como há atualmente. Basta entrarmos na internet que somos bombardeados com informações de variadas fontes e formas. A era da informação nos trouxe muitos benefícios, mas, em contrapartida, trouxe alguns males. Como, por exemplo, a queda de atenção e algo conhecido como fadiga digital ocular (screen fatigue). A soma desses fatores mais ansiedade e distúrbios hormonais, causados pelo quadro ultra acelerado que vivemos, limita a nossa capacidade de concentração.

Há muito se sabe que as pessoas possuem uma baixa capacidade temporal de concentração. Dessa forma, muitas pesquisas foram realizadas a fim de descobrir qual é o tempo e a forma ideal de reter a concentração e o engajamento do usuário ou aluno.

A Sumo, empresa do ramo digital, verificou que em média 20% das pessoas não leem um artigo até o final e que o leitor mediano só lê 25% do artigo. Em outras palavras, existe uma grande chance de você não finalizar este artigo ou de tê-lo lido apenas de forma superficial.

Em 2016, a Wistia verificou que após 20 minutos de vídeo, menos de 50% de engajamento era mantido. Sendo dois minutos a duração ideal que mantinha presa a atenção das pessoas que estavam assistindo o material. Estudos como esses demostram a necessidade da experiência do usuário ou do aluno ser levada em consideração na hora de criar um conteúdo digital.

Com o intuito de atender tal demanda, setores de marketing, entretenimento, educação, entre outros, precisam se adaptar às necessidades humanas que já eram comuns, mas que agora são intensificadas pela evolução digital. Nesse cenário, a microaprendizagem passa a ter um emprego ainda maior pela exploração de suas funcionalidades.

O que é microaprendizagem

A microaprendizagem é uma estratégia utilizada no aprendizado ao longo da vida (lifelong learning). Entretanto tem se mostrado uma estratégia muito útil em outros tipos de ensino. Essa forma de aprendizagem consiste em passar conteúdos concisos, em pequenas doses estruturadas de fácil assimilação e de rápida duração. Focando, portanto, em atingir um objetivo necessário, como habilidades, conhecimentos ou resultados bastante específicos.

A microaprendizagem possui algumas implicações práticas, como, por exemplo:

  • Ao trabalhar um tipo de conteúdo por vez, se facilita a concentração e se inibe a perda de foco causada por uma gama de informações. Ainda por se tratar de um conteúdo único, é possível “enxugar” o excesso de assuntos que não estão nos objetivos daquela aula ou lição;
  • O vídeo ou conteúdo deve ser rápido o suficiente para que seja mantido o engajamento e que possa ser encaixado entre outras atividades ao longo do dia. É comum ver durações de 15 a 20 minutos sendo tratadas como microaprendizagem. Mas, para especialistas, é ideal que as instruções tenham de 2 a 5 minutos de duração como demostra a pesquisa realizada pela ATD Research;
  • A microaprendizagem trabalha com uma força muito grande da psicologia: o anseio por uma recompensa. O tempo curto promove rapidamente a satisfação de tarefa concluída, o que provê motivação necessária para os próximos passos, auxiliando na conclusão de objetivos de longo prazo;
  • A respeito da fonte do aprendizado, a estratégia pode adotar tanto aprendizado formal (estruturada e orientada por currículos, como cursos em sala de aula ou videoaulas) quanto aprendizado informal (auto-orientada e direcionada pelo aprendizado diário e individual, como podcasts, artigos, projetos, redes sociais, entre outros);
  • A microaprendizagem pode ser personalizada já que ao fragmentar a informação em microconteúdos, o usuário aprende somente o que é necessário ou que é de interesse dele. Nesse sentido, cada aluno segue sua trilha própria;
  • Se, por um lado, a microaprendizagem traz benefícios, por outro, possui certas limitações, pois conteúdos e processos de aprendizagem complexos não são simples de serem adequados ao método. Além disso, muitas pessoas acham que por ser de rápida execução, a microaprendizagem pode ser feita ao mesmo tempo que outras coisas (ouvir um podcast instrucional enquanto cozinha o jantar, por exemplo), o que não é verdade. Sendo o objetivo dessa estratégia a manutenção da concentração: se não houver foco, não há aprendizagem.

Internet e microaprendizagem

O papel da internet foi fundamental para o avanço da microaprendizagem, pois trouxe para ela um reconhecimento antes não possuído. Com a difusão da internet doméstica e smartphones, a forma como aprendemos sofreu impactos consideráveis.

Muitos aplicativos, designs instrucionais, vídeos, artigos, notícias e demais momentos de interação foram sendo encurtados para se alcançar o engajamento esperado, de modo que hoje as interações são mais curtas e diretas. Alguns anos atrás, uma videoaula de 20 minutos seria considerada pequena frente às aulas de 50 minutos que comumente temos no ensino básico. Hoje, vemos aplicativos como:

duolingo

Possui blocos de aprendizagem minúsculos.

Khan academy

Plataforma na qual videoaulas e textos podem ser aprendidos rapidamente com auxílio da gamificação para gerar o engajamento do aluno.

LIT

Educação corporativa fornece nano certificações e aprendizagem em micromomentos.

Além disso há várias outras soluções de ensino que estão sendo desenvolvidas e aplicadas com o inevitável avanço do E-learning.

É justo afirmar que quanto mais condensada for a aprendizagem e menos tempo ela tomar, mais eficiente ela será. Mas desde que atinja os objetivos predefinidos e que o alvo da tarefa seja manter o foco.

Já está em curso uma evolução da microaprendizagem, a nanoaprendizagem, que tem seus conceitos utilizados na gigante rede social TikTok, como se antevê pela hashtag #LearnOnTikTok. Mas vale ressaltar que o tempo ideal para a situação de aprendizado depende do conteúdo, contexto e de quem serão os seus usuários.

A microaprendizagem não é um substituto para todos os modelos de ensino e aprendizagem; é sim um aprimoramento que, como toda forma anterior, também possui pontos fracos. Todavia, em um cenário de evolução rápida no qual as pessoas buscam ser mais produtivas e aproveitar melhor o seu tempo, tal método pode ser uma ferramenta importante para o aprendizado contínuo.

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*artigo escrito por Lorenzo Ferrari Assú Tessari, especialista em aprendizagem e metodologias de ensino. Formado em Ciências Biológicas pela Ufes, mestre em Engenharia de Bioprocessos e Biotecnologia pela UFPR, e diretor e cofundador da Gama Ensino e da Anole.

26 Respostas para “Microaprendizagem: conheça a nova tendência da educação

  1. Excelente, esses comentários iluminaram minhas ideias, pois eu já vinha aplicando esses conceitos em minhas aulas de matemática do ensino básico, pois a minha percepção vinha capitando essas dificuldades de assimilação dos alunos cada vez que tentava detalhar as explicação.
    Muito obrigado ❗️

  2. Bem claro e objetivo este artigo. Bastante interessante a temática, no entanto, vejo como um problema da educação hoje em dia, escancarado com a pandemia é a falta de acessibilidade dos nossos alunos.

    1. Concordo que a falta de acesso às tecnologias da informação e da comunicação,
      Viviane, juntamente com o analfabetismo digital que é causado pela falta do mesmo acesso – um círculo vicioso – afetem negativamente a educação dos alunos da rede pública de ensino brasileira. Todavia, acho importante estar atenta aos avanços da pesquisa em aprendizagem.

    1. Muito apropriado a abordagem deste tema.
      Tratando o tema na ótica do ensino / aprendizagem, a microaprendizagem pode conquistar a atenção e interesse dos alunos, mas assim como ela é absorvida em curto espaço de tempo, ela também será descartada e dificilmente internalizada na questão aprendizagem, mas todas as formas de didáticas de ensino são válidas e necessárias, parabéns pelo artigo.

      1. Olá André! Eu penso que para não ser descartada, deveria ser repetida, num intervalo menor de 24 horas. É um começo para que o aluno tenha curiosidade sobre o assunto e busque o conhecimento voluntariamente.

  3. Sem conhecer eu já estou fazendo uso da Microaprendizagem, descobri que com vídeos pequenos e objetivos consigo despertar o interesse de meus estudantes. E nas aulas remotas precisa-se ensinar o básico.

    1. Não sou professor, instrutor e nem educador, portanto, minha singela opinião está desprovida de experiências e vivências profissionais. Porém, este artigo remete a questões práticas e simples da vida, como por exemplo fazer um bolo, plantar verduras, escovar os dentes, ou seja, microaprendizagens que se perpetuam ao longo da vida. Entendo que a complexidade seria o fator preponderante para a repetição, até a fixação e posterior melhoria e aperfeiçoamento. Todos nós aprendemos a engatinhar, e depois de muitos tombos e persistência conseguimos andar, para enfim acelerar os passos e correr. Tudo foi microaprendizagem.

  4. Parabéns muito interessante sua matéria e seu trabalho. Sou professora de educação infantil e as vezes me vejo perdida na evolução tecnológica ao mesmo tempo que gosto da aprender e sentir necessidade de acompanhar as tendências mas junto vem os paradigmas e linguagens dos avanços e temos que olhar de vários pontos de vista.

  5. Como professora e como alguém que sofreu muito com as aulas online pensei muito sobre o tempo e fique com a ideia fixa que poderíamos ter um tempo reduzido. A estrutura educacional nem cogita algo assim “o conteúdo “tem” que ser dado.Ainda bem que li o artigo inteiro e me senti representada!

  6. Este tipo de ensino já pratico com meus alunos há um bom tempo, pois descobri que tarefas extensas poucas eram entregues, e as menores mais. Leituras em sala, no máximo um texto de 03 a 05 minutos com apenas uma indagação no final. Comigo tem dada muito certo, pois os currículos propostos são extensos e com muitas informações desnecessárias.

  7. Creio que qualquer que seja a metodologia a ser seguida , haverá sempre a necessidade de validar, e para tal a ideia deverá ser revestida no sentido de contemplar, protocolos de validação, que permita aprimorar cada vez mais a metodologia , respeitando as especificidades no que tange a conteudo x formação

    1. Fiz um Instagram com esse método, mesmo sem ainda conhece -lo, com o propósito de pesquisa para estudantes do fundamental 1 e 2 e também para curiosidades sobre o país brasileiro.
      @brasilcuriosidades_

  8. Ótimo artigo. Parabéns!
    Busco esse caminho nas aulas e funciona sim. Com vídeos/textos curtos e ideia central fácil. Apesar de que, uma boa história prende a atenção do estudante também.
    Se é tendência chegar nas salas de aulas. Isso é ótimo.

  9. Relevante e promissor inovar com novas tecnologias para o ensino híbrido,mas os problemas são de outras escalas para a melhoria do aprendizado.
    O educador utiliza de muitas ferramentas e estratégias para engajar os alunos , infelizmente como dito acima fatores são outros.
    obs:(nada substitui o presencial)

  10. Nosso destino parece ser o encenado no filme Idiocracy… em breve teremos doutorado em dancinha do tiktok realizado em uma hora. Seremos todos boçais. Parabéns

  11. Interessante esse avanço. Entendo que existe uma real necessidade de adaptação aos tempos atuais. Mas me pergunto se isso não reforça ainda mais a falta de concentração generalizada das pessoas e um aprendizado raso. Que tolerância esses indivíduos vão ter para ler um livro, por exemplo, de 200 ou 300 páginas. Há que se pensar no lado B desse modo acelerado que está sendo imposto pelos “novos tempos”.

  12. Muito curioso o artigo. Entretanto, parece que as pessoas estão priorizando a “impaciência”, a “intolerância” no aprendizado. Não se consegue “suportar” um conteúdo por um tempo mais longo.. . Este deveria ser “melhorado” e não “encurtado”. Os jovens estão em sala de aula para aprendizado integral e não minoritário. O esperar de um profissional que não tem “paciência” para se ater a um assunto ou aprofundar seu conhecimento em algo??

  13. Aí, gente! Todos os comentários aplaudindo a ideia da microaprenduzagem, ok, mais uma estratégia para melhorar a nossa prática, mas educação é algo tão mais complexo! Para além do desenvolvimento tecnológico e o acúmulo de informação, vejo isso como sinal da política dos novos tempos. Não buscam a emancipação do homem, mas a sua sujeição, transformar a educação para formar realizador de tarefas e colocar o conhecimento interdisciplinar a disposição para quem tempo, ou seja, o dono do capital.

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