Livre Pensar com Rodrigo L. Medeiros: Problemas com a produção industrial brasileira e o crescimento da economia

ReproduçãoDesde o início de 2011 se intensificou o debate sobre as dificuldades da indústria instalada no Brasil. Motivos não faltam – tributação, infraestrutura inadequada, câmbio, custo do capital, entre outros. Essa discussão chegou ao governo federal, apesar da resistência de algumas pessoas com relação ao tema desindustrialização.

A crise externa não estava resolvida e o BCB decidiu elevar a taxa básica de juros no primeiro semestre do ano passado, posteriormente iniciando o ciclo de descida ainda vigente. Os efeitos não tardaram a se manifestar. Já é de conhecimento público que a economia se manteve praticamente estagnada no primeiro trimestre de 2012.

Investimentos estão sendo postergados, pois expressiva capacidade ociosa existe em diversos setores comercializáveis no mundo. A indústria vem sentindo as adversidades externas e domésticas. Para se ter uma ideia em relação ao mês de abril do ano corrente, segundo o Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial (Carta Iedi n.524 – Indústria no primeiro quadrimestre), nos últimos doze meses a indústria acumulou queda de 1,1%. São Paulo, Minas e Rio de Janeiro acumulam quedas acima de 1% nesse mesmo período.

O Nordeste não se saiu muito melhor, queda de 1,2%, e o Espírito Santo apresentou um crescimento de 1,9% nos últimos doze meses em relação ao mês de abril, sendo que sua produção industrial no primeiro quadrimestre do ano acumula queda de 2,9% em relação ao mesmo período do ano passado.

Números divulgados pelo IBGE, a base das análises do Iedi, apontam ainda que o crescimento da economia brasileira muito provavelmente será menor do que o realizado em 2011. Há quem já estime um crescimento aquém dos 2%, o que estaria bem abaixo do PIB potencial brasileiro.

Dentre os números divulgados pelo Iedi, destaca-se que o nível de emprego está seguindo a produção. Produção em queda significa empregos também em queda, com alguma defasagem no tempo. O Iedi aponta ainda que para a “indústria geral” no primeiro quadrimestre de 2012 o emprego caiu 1,3% e a produção 2,8% em relação ao mesmo período do ano passado. Para a indústria de transformação, as quedas são de respectivamente 1,5% e 3%. A indústria extrativa, por sua vez, apresentou 4,4% de crescimento no emprego, porém crescimento zero para a produção.

Segundo levantou The Economist, os preços das commodities estão em queda, variação de aproximadamente 17% em relação ao período de um ano. Commodities industriais chegaram a cair 25% no mesmo período, algo que deveria preocupar os países que concentram, voluntariamente ou não, suas apostas de competitividade em indústrias internacionalmente classificadas como de baixa intensidade tecnológica.

Nesse contexto, compreende-se que empresários adiem investimentos produtivos. Deve-se compreender também que ocorram ondas de fusões e aquisições que visem regular os preços nos mercados através da redução da oferta e da concorrência. Para contrabalançar o desinvestimento produtivo privado, os governos precisam acelerar investimentos, garantindo a qualidade no gasto público bem planejado e orientado.

A nossa prioridade deveria ser a redução do custo Brasil – infraestrutura, educação e saúde, por exemplo. Para tanto, o governo federal precisa ousar um pouco mais no momento. Quem sabe ele não acolhe sugestões que apontam para a troca do indexador da dívida de estados e municípios, do IGP-DI mais pelo menos 6% ao ano para a TJLP, liberando mais espaço fiscal para investimentos públicos no Brasil? Não parece que o receituário de 2008 terá muito fôlego nessa fase da crise.

Rodrigo L. Medeiros (D.Sc.) é membro da World Economics Association (WEA)

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