O Ressurgimento da Manufatura Americana

Muito temos ouvido sobre a crise internacional, desaceleração na China, recessão na Europa e baixo desenvolvimento nos Estados Unidos. Também temos visto a cada mês a redução do PIB e índices de baixo crescimento da indústria brasileira.

Claro que nos dias atuais, tudo está interligado, tudo é globalizado e as medidas tomadas em um país acabam por influenciar de alguma forma, os demais. Por exemplo, a Argentina cada vez mais protetora, com inflação em alta, pouca disponibilidade de capitais para investimento, tem tomado medidas protecionistas que impactam diretamente as exportações brasileiras para aquele pais.

Acertadamente, o Brasil nos últimos anos aumentou suas exportações para a China, mas esqueceu um pouco os Estados Unidos e com isto perdemos talvez espaços que serão cada vez mais difíceis de recuperar no futuro próximo. E por quê? Primeiro porque outros países em desenvolvimento têm tomado nosso lugar, como o México, a Indonésia e a Coréia do Sul.

Segundo, porque as condições naquele país estão mudando e tais mudanças têm seus impactos positivos na indústria americana que voltará a retomar alguns espaços também.

Quais as condições que impactam a vida das indústrias manufatureiras em qualquer país? O peso e o preço da mão de obra, o custo de transporte, o custo de energia e materiais, a carga de impostos, a demanda interna e externa, a disponibilidade de talentos, o investimento em pesquisas e tecnologia,o acesso ao capital e, finalmente, o câmbio.

Atualmente, uma condição adversa na competitividade americana é a mão de obra, pois um empregado da indústria ganha em média 35 dólares por hora enquanto na China ganha em torno de 3 dólares, mesmo já tendo avançado em relação ao passado.Nas regiões industrializadas chinesas, o aumento salarial tem sido crescente e logo chegarão aos 6 dólares por hora, dada a crescente pressão por melhores condições de vida. Tamanha diferença é compensada, em parte, pela maior produtividade das fábricas americanas, que empregam menos trabalhadores para a mesma produção de determinado produto. A isto chamamos de maior produtividade. Ainda assim, muitas empresas americanas e de outros países, como do próprio Brasil, mudaram no passado recente suas fábricas para a China e para outras regiões em desenvolvimento, visando reduzir seus custos de mão de obra, transferindo empregos para tais países e reduzindo-os nos Estados Unidos ou no Brasil.

Este é um fator que tem grande importância quando olhamos o Brasil à frente, pois dado o nosso desenvolvimento econômico, a despesa de pessoal tem subido acima da produtividade. Os encargos sociais são muito pesados, o que por certo acarretará aumento de custos do país e possivelmente mais transferência de fábricas, caso não se aumente nosso nível de produtividade ou pelo menos se dê aumentos salariais compatíveis com a produtividade do país.Vimos recentemente uma reação positiva da presidente Dilma, ao anunciar a redução de cerca de 20% de encargos sobre a folha de pagamento das empresas, compensando com a taxação das vendas. Mas este não é o único fator importante na competitividade das indústrias. Falemos de outro item crítico, o transporte.

Uma fábrica americana localizada na China, não atende somente ao mercado local, mas exporta grandes quantidades para os próprios Estados Unidos e para outras regiões longínquas, portanto acarretando custos de transporte oceânico, de estoques mais altos e custos de distribuição, por estarem longe dos principais mercados consumidores. Afinal, apesar do grande crescimento da China,o maior mercado consumidor do mundo ainda é de longe,o mercado americano,seguido do europeu. E com o retorno ainda que lento do crescimento das economias, espera-se que o custo de transporte de longa distância volte ao patamar de 2007/2008. Aliás, já estamos próximos deles. Este sem dúvida é um dos fatores de atração para o retorno de diversas fábricas americanas instaladas na Ásia e em outros países, para dentro do maior mercado do mundo. Muitas fábricas japonesas e coreanas também já estão seguindo esta trilha.

Quanto à energia, apesar dos preços do petróleo em níveis elevados, a tendência nos Estados Unidos é o aumento da produção do “shale gas” (ou gás natural do xisto) e das “velhas” energias do carvão oriundas de novas tecnologias, uma energia abundante e barata que por certo influenciará e muito os custos de produção das indústrias dependentes deste importante fator de produção. O shale gás, que hoje representa 23%  do total da matriz de gás natural, passará para 50% em 2035, segundo o departamento de energia americano. Muitas das novas energias alternativas estão caindo de custos e, por certo, também ajudarão nesta nova matriz energética americana. Enquanto isto, o Brasil tenta agora reduzir o custo daquela que é uma das mais caras energias do mundo, um contra senso já que na maioria ela vem da hidroeletricidade.

A carga de impostos nos Estados Unidos tem passado por grandes debates, visando à recuperação da economia. Este não é um diferencial competitivo daquele país e ouve-se que estão pensando em redução de taxas, incentivarem reduções para empresas que retornem aos Estados Unidos e voltem a gerar empregos em seu próprio país.

Outro fator importante é a dimensão do seu mercado interno, graças à elevada renda per capta e ao tamanho da própria economia em si.Estamos falando de um país com um PIB de 15 trilhões de dólares enquanto a China, o segundo maior PIB do mundo, tem 7,5 trilhões de dólares para 1,5 bilhões de habitantes enquanto os americanos perfazem 300 milhões de pessoas.É um diferencial importante, que atrai produtos do mundo todo.E o Brasil não deveria negligenciar e dar espaços a outros competidores naquele mercado que provavelmente será o primeiro a crescer em ritmo mais acelerado brevemente. Se os Estados Unidos crescerem seu PIB em apenas 1% já equivale ao crescimento do PIB do Brasil em 7%. Imagine se passarem a crescer 3 ou 4 % nos próximos anos.

Vale destacar outro item de competitividade, a grande formação de talentos nos Estados Unidos, responsáveis pela maior geração de patentes, invenções, pesquisas e desenvolvimento de novos produtos, bem como a ênfase ultimamente dada à formação cientifica, com o crescimento dos doutorados em engenharia, visando dar novos saltos tecnológicos, difíceis de serem alcançados por outros países. O que antes vinha sendo uma barreira, encontrar mão de obra qualificada, hoje em parte devido ao desemprego maior,mas em maior parte devido aos investimentos em educação, há maior facilidade de encontrar este pessoal qualificado e também de controlar melhor seus preços.Entre 2000 e 2010,os Estados Unidos duplicaram o número de engenheiros com doutorado,numa demonstração clara de uma virada na recuperação de sua indústria. Precisamos acordar o nosso Brasil para uma reforma muito séria na educação, focando mais, aumentando sua qualidade,sendo menos contemplativa e se tornando mais “acabativa”, voltando-se mais para a geração de valores e riquezas.

Finalmente, chegamos ao mundo financeiro. Há sem dúvidas uma grande abundância de capital naquele país, motivada pela credibilidade em suas instituições, pelo cumprimento de contratos, pela estabilidade política, pela previsibilidade e transparência, pela agilidade na abertura de novas empresas, pela inteligência na busca de novas oportunidades, enfim pelo respeito à economia de mercado, à propriedade privada, maior controle da propriedade intelectual e pelo elevado nível de liberdade dos negócios e baixo nível de aversão ao risco de seus empreendedores. Neste mundo em mudanças, o câmbio tem uma importância relevante e vem transformando aquele pais, graças à depreciação de mais de 15% do dólar a partir do ano 2000. Assim, ele passa a ser um pais de baixo custo, para ser novamente um exportador de produtos manufaturados. Basta passar uns dias por lá para se ver a diferença de preços de roupas, carros, eletrodomésticos e até do Big Mac.E esta tendência não vai parar como vimos pelas últimas medidas do FED (Banco Central deles) que está jogando no mercado um “tsunami” de dólares,tornando sua moeda ainda mais competitiva com relação às demais do mundo. E nós, brasileiros, conhecemos bem o que isto significa quando o Real chegou a 1,60 por dólar. Há uma perda da capacidade de exportação e uma concorrência maior de produtos Made in China, Coréia dentre outros e, com isto, uma queda vertiginosa em nossa capacidade industrial, principalmente na área exportadora. Menos mal que o Yuan está mais valorizado e nossa moeda tem se mantido na faixa dos 2 reais por dólar, minimizando tais consequências

Enfim, os Estados Unidos com todos os seus problemas frutos da crise internacional, mas também dos grandes gastos com guerras,com “afrouxamentos” fiscais,tem lá suas vantagens competitivas que por certo ajudarão a equacionar a questão do endividamento elevado e fará com que aquela locomotiva se mova com mais rapidez,para compensar a desaceleração chinesa.Isto fará bem ao mundo e ao Brasil.E a recuperação de determinados tipos de indústria, tem seu lado econômico, mas também o lado estratégico e de segurança nacional, pois se trata de um pais líder e que tem suas responsabilidades mundiais.

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