Carnaval em Portugal

Cinco amigos e a decisão de passar o Carnaval em Portugal, deixando para trás o calor, as praias lotadas e os desfiles das escolas de samba na televisão, em busca de um clima mais ameno, boa comida, bons vinhos e, sobretudo, desfrutar daquele belo país e das boas amizades.

Éramos três engenheiros, um economista e um professor. Sobrou racionalidade, capacidade de planejamento de tempos e distâncias, além da boa leitura de mapas. Este grupo tinha gente com personalidade forte, experiência de comando, espírito empreendedor…tudo para ter algum tipo de competição. Mas, ao mesmo tempo, era bem humorado, não seguia hierarquias ou organogramas mentais.

E o segredo para uma viagem harmônica e alegre consistiu em ninguém ser o líder e todos lideraram ou foram liderados de alguma forma, por um ou por outro, sem escolhas ou indicações. Claro, nosso objetivo não era gerir uma empresa ou tirar Portugal da crise, mas como seria bom se fosse este o espírito nas empresas e na política. Sem vaidades pessoais, sem ambições ou desejos ocultos, sem foco nos deméritos do próximo, sem competição predatória, enfim, com respeito entre todos, buscando convergir os objetivos, algumas vezes relevando os próprios, outras vezes fazendo entender seus desejos. Um belo exercício de convivência saudável, objetiva, eficiente e divertida. Acho que os diretores de RH de muitas empresas gostariam de ver isto em prática.

Na verdade o carnaval em Portugal é muito simples, com pequenos blocos de rua e pouca gente participando, até mesmo por causa da baixa temperatura nesta época do ano e porque o país continua sua vida normal de trabalho, sem tantos feriados como no Brasil.

Em sete dias andamos por 15 localidades, provamos sua ótima culinária, seus vinhos tradicionais e conversamos com os locais, tentando entender o que está se passando em Portugal, além, claro, de aproveitar sua beleza e sua historia, que muito tem a ver com a nossa.

O povo continua muito receptivo, acolhedor, mas assertivo, não confundindo ufanismo com a realidade muito difícil em que está vivendo. Também nos deleitamos com as diferenças da própria língua e da lógica das perguntas e respostas.

Nesta interação, fomos ao Fuso, um restaurante em Arruda dos Vinhos, cerca de 30 km de Lisboa, onde comemos talvez o melhor bacalhau na brasa do mundo. Uma experiência imperdível. Em Lisboa, não deixem de ir ao Solar dos Presuntos, num calçadão próximo do Rossio e nem ao Mercado do Peixe nos arredores, são ótimos. Próximo a Fátima, não deixem de parar na Mealhada e deliciarem-se com o Leitão à Bairrada.

Também são imperdíveis o pastel de Belém, o toucinho do céu e o quindim de ovos com uma camada de coco, todos com um equilíbrio muito grande entre o doce e o sabor imperceptível dos ovos, dando assim um toque de alta finesse. E o bom é que se encontram estas maravilhas em Lisboa, no Porto, em Braga ou Sintra, enfim por onde se anda. Não deixem de conhecer Braga, cidade encantadora. E não deixem de ir a Fátima, um lugar especial onde até os menos religiosos sentem o peso da fé e da energia divina que ali se concentra.

Constatamos também, que o custo de vida está bem menor que no Brasil. Um hotel quatro estrelas, nas melhores localizações turísticas, cobrava não mais que 250 reais por dia tanto em Lisboa como no Porto e às vezes incluía o café da manhã. Em São Paulo ou no Rio, um hotel do mesmo padrão nos cobraria uns 700 reais a diária. O quilo da picanha não passava dos 20 reais e viam-se anúncios de almoços executivos por menos de 10 reais por pessoa. Isto num país onde a renda per capita (22 mil dólares anuais) é o dobro da registrada no Brasil. Ficamos assim bastante preocupados com o que hoje se passa em nossa terra. Porque nossos custos subiram tanto? Em especial nos serviços e nos alimentos?

E as autoestradas portuguesas? Algo espetacular.

Portugal tem uma elevada densidade de autoestradas, de ótima construção, asfaltos lisos e sem buracos, pondo à disposição de seu povo e do turista, uma malha infindável de ótimos caminhos, com bons serviços de assistência. Todas cobram pedágios e não seguem necessariamente o modelo de menor pedágio… como se quer inovar aqui no Brasil.

Só entre Lisboa e o Porto existem duas high-ways paralelas e uma terceira pela metade, que foi abortada quando a crise de 2008 bateu à porta. Viajando por elas, vêem-se poucos veículos, mostrando bem o excesso de investimentos nessa infraestrutura, bem ao contrário do Brasil, que tem enormes carências nesse setor.

O mesmo pode-se dizer dos aeroportos das duas principais cidades do país: modernos, grandes, tranquilos e limpos, proporcionando conforto e segurança aos passageiros e turistas.

O país investe cerca de 5% do PIB em educação e 12% em saúde pública e tem uma população em franco envelhecimento, com idade média superior aos 40 anos (no Brasil é de 29 anos) exigindo um custo de previdência muito elevado. Além disto, aquele país que viveu uma longa ditadura que lhe tirou as liberdades e manteve um regime econômico austero, tinha sede de mudanças. Com o advento da revolução dos Cravos em 1974, houve um solavanco na sociedade, que buscou recuperar as liberdades, a democracia e ao mesmo tempo incrementou o bom e custoso Estado Social, gerador de benefícios e direitos ao seu povo, mas sem a preocupação de fechar as contas. Gastou-se mais do que o país poderia pagar. Com a entrada no bloco europeu, Portugal teve que se desfazer de grande parte de sua produção agrícola, da sua indústria de conservas, de seus vinhos para exportação e muitos outros setores industriais perderam competitividade e desapareceram ou mudaram para outros países. Os grandes Investimentos e financiamentos foram super direcionados para a infraestrutura, quando poderiam ter reforçado o setor produtivo e a inovação, uma vez que sendo o país muito pequeno e já tendo explorado sua potencialidade natural, não lhe resta alternativas.

Parece que esta somatória de coisas agora cobra uma conta indigesta, quase uma tragédia social, claro, para os padrões deles. Um desemprego de 17 por cento na média e de 40 por cento entre a juventude parece desanimar seu povo. A juventude com educação, mas sem emprego, não tem como pagar as aposentadorias dos mais velhos e estes vêem seus benefícios se reduzindo a cada dia. São frustrações em todos os níveis. Para complicar tudo, o plano de austeridade imposto pela comunidade européia e pela mal falada troyka, derrubou o PIB de Portugal em 3,2% em 2012 e a divida do país já supera os 120 por cento do PIB. Como sabemos, não podemos gastar mais do que ganhamos.

Até mesmo para os países, a frase é certa – não existe almoço grátis.

Foi triste ouvir de alguns amigos portugueses, que têm em mente uma única solução: enviar seus filhos para o exterior e, mesmo eles, já com mais de 60 anos, se dispondo a emigrar para o Brasil ou Estados Unidos, em busca de um novo trabalho, quando já deveriam estar pensando em se reformar.

O clima no país está tenso e os debates entre os políticos mostram um momento muito pesado na nossa querida terrinha. O catastrofismo difundido pelos meios de comunicação parece piorar ainda mais o ambiente. Lembrou-me o ano de 1973, pouco antes da revolução dos Cravos, quando fiz meus primeiros treinamentos em fábricas de celulose portuguesas. As discussões entre diferentes pensamentos eram acaloradas e por vezes até violentas. E depois veio a revolução.

Retornamos felizes com nossa estadia harmoniosa e nossos passeios, mas preocupados que o desequilíbrio das contas do Estado Social e a falta de investimento na capacidade produtiva, demorem a ser equacionados e possam terminar em erupções sociais indesejadas.

Rezo e espero que achem logo o caminho correto, pois certamente o povo não merece passar por isso e ainda esperar por situações possivelmente piores.  Certamente para eles, desta vez o carnaval não foi tão feliz como em outras ocasiões.

Apesar de tudo, Portugal é sem dúvidas um destino muito especial para o turista brasileiro, pelo seu povo, sua culinária, seus vinhos, sua infraestrutura e por sua história tão ligada à nossa.

Grande Abraço, Carlos Aguiar

4 Replies to “Carnaval em Portugal

  1. Carlos Aguiar,
    Muito obrigado pela aula de como se deve viajar e respeitar o próximo.
    Tive a felicidade de também ir com um grupo de amigos a dois anos e também fiquei maravilhado com a infraestrutura e civilidade dos nossos irmãos portugueses.
    ab
    Fernando

  2. Relato muito bem feito, juntando diversão e observações claras e sucintas sobre os atuais aspectos político-econômicos do belo país irmão. Um ótimo pretexto para ir e conferir “in loco”. A viagem vale a pena !

  3. Excelente demonstração de como uma viagem pode ser divertida e educacional ao mesmo tempo. Muito bom o artigo com dicas de viagem, um panorama histórico e sobretudo as comparações com o Brasil. Espero que nosso país saiba também aprender com as experiências dos outros.

  4. Acabei de ‘viajar’ no artigo Carnaval em Portugal. Excelente o sensível relato de viajante aparentemente descompromissado, que mergulhou nas entranhas do País, seus contrastes, dilemas e a boa receptividade portuguesa. Ótimas dicas, boa mesa, bons passeios, recheados de reflexões atuais fazem do relato uma pérola – simples e sofisticada – como deve ser. Adorei…

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