Um país de tristezas

O Brasil viveu há algumas semanas uma brutal tragédia com o incêndio de uma boate ocorrido em Santa Maria, no Rio Grande do Sul.  Está claro para todos nós, depois de tudo que a mídia publicou sobre o fato, que a ausência fiscalizadora do poder público colaborou para esse acontecimento que vitimou dezenas de jovens e entristeceu todo o país. Porém, diferente do sentimento de pesar que compartilhamos no caso da tragédia de Santa Maria, assistimos passivamente outra catástrofe: a morte da covalente ética legislativa brasileira. Sabemos que ela já estava em fase terminal quando o Supremo Tribunal demonstrou e condenou aquilo que todos os brasileiros já sabiam: perdão há um brasileiro que “não sabia de nada”.

Para piorar, ficamos estupefatos quando os senadores elegeram como seu presidente, um senador que renunciou seu mandato para evitar punições, configurando, assim, a sua culpa.  Em seu retorno ao Senado, Renan Calheiros foi eleito presidente do Congresso Nacional. É, sim, revoltante o fato de que no seu discurso de posse, ele tenha feito apologia à ética, defendendo-a como meio que deve permear as ações de todos os brasileiros. Assim, vai ficar difícil explicar às futuras gerações que a ética no Brasil tem a sua defesa feita por aqueles que dão exemplos públicos de não segui-la.

O quadro dramático da ética brasileira fica mais complexo quando se elege o novo presidente da Câmara Federal. Um personagem da velha política com nome associado a diversas acusações de corrupção. No Brasil, os políticos costumam alegar, em tom de desculpa, que se presume a inocência enquanto o processo não transitou em julgado. Nas democracias mais consolidadas costuma-se se dizer que, necessariamente, “um politico além de ser honesto precisa parecer honesto”. Esse conceito esta baseado no fato de que um ator político precisa representar um inequívoco exemplo de valores sociais e morais. Já aqui no Brasil, insistimos na ação política clientelista, na compra de votos e nos “currais eleitorais”.

Os discursos, tanto o do presidente que encerrou o seu mandato quanto o do que passa a dirigir a Câmara Federal, foram convergentes na procura em denegrir a imagem e a missão do Supremo.  Eles defenderam o corporativismo ao afirmar que a Câmara deve decidir se os deputados condenados no esquema do mensalão perderão seus mandatos.

Felizmente, maior do que o nosso parlamento é o Brasil e sobre ele sempre estarão os valores morais éticos que devem orientar os cidadãos. Já os nossos congressistas, cada vez menos representam os anseios públicos de uma sociedade melhor e mais justa para todos e, portanto, devemos resistir às tentações do voto fácil, banal, sem reflexão.

Assim é uma democracia moderna: além de delegarmos o nosso destino a representantes legítimos escolhidos por seus valores morais, precisamos participar no controle social de quem nos representa. Porém, como cidadãos, temos falhado no cumprimento desses dois preceitos inerentes a democracia que desejamos. O resultado desta postura displicente é uma governança pública permeada por denúncias de uma corrupção desenfreada e impune.

Ainda sonho ver um Brasil sem famílias destruídas, sem políticos corruptos e sem tanta tristeza e eu sei que um país melhor só pode ser construído por todos nós.

Walter Lídio Nunes, membro do Conselho Deliberativo do Espírito Santo em Ação.

Um comentário em “Um país de tristezas”

  1. Valter Lídio,
    Muito boa sua reflexão para uma sociedade ávida por bons exemplos.
    A política é o melhor instrumento da humanidade, mas nossos atores estão deixando a desejar. Isso nos leva a defender a necessidade de valorizar os homens públicos, os que cumprem com suas obrigações, que são importantes capitais constituídos da sociedade.
    Quem estiver fora dessa peneira ripa neles.
    Ab.,
    Gernando

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