Somos todos keynesianos nas trincheiras?

Após o estouro da crise financeira global em 2008, o célebre economista Robert Lucas afirmou acreditar sermos todos keynesianos nas trincheiras. As expectativas racionais dos agentes econômicos, que operam em um mundo não ergódico, não conseguiram atuar em um contexto no qual a “mão invisível” do mercado se ausentava (ainda que temporariamente) da arena econômica e tal fato nos teria colocado em uma trincheira. Mas será que precisamos cair nas trincheiras para sermos efetivamente keynesianos?

Não consigo recordar se tal pronunciamento do laureado Robert Lucas provocou maiores reflexões no Brasil, onde ainda hoje se digladiam ferozmente dois conjuntos de escolas do pensamento econômico. Após o clássico ‘A teoria geral do emprego, do juro e da moeda’ (1936), o mundo seria influenciado por Keynes. No geral, todos haviam se tornado keynesianos ou mesmo antikeynesianos, o que não deixa de ser um viés teórico de Keynes como norma.

Chamou minha atenção nesta semana a leitura de um artigo do professor Gabriel Palma, da Universidade de Cambridge (UK): ‘La economía chilena, como el elefante, se balancea sobre la tela de una araña’ (Ciper, 25/03/2013). Segundo Palma, há na América Latina uma crença de que o que é bom para sempre durará e que os males são sempre passageiros. Ele se referiu aos preços das commodities exportadas pela região, cujos preços oscilam em função da liquidez nos mercados globais de capitais. Políticas monetárias expansionistas nos EUA, na Europa e no Japão contribuem negativamente para agravar “doenças holandesas” na nossa região.

Ainda que venha sendo popular para os governos da região alimentar a demanda de consumo a partir desse boom das commodities, como se a lei da gravidade não atuasse também para as mesmas, sabemos todos que o momento do ajuste chegará. Não há como deixar de observar que a elasticidade-renda da demanda de consumo da região é maior do que a elasticidade-renda por suas exportações. Os países da América Latina já conheceram no passado não tão distante o fenômeno do estrangulamento dos balanços de pagamentos.

Reconheço ser essa questão bem complexa, cheia de nuances. A mesma vem sendo debatida há mais de meio século na região. Do ponto de vista brasileiro, creio que o momento atual é de cautela e reflexão. A persistência temporal de baixas taxas básicas de juros nos países desenvolvidos, com juros reais negativos inclusive, deveria provocar medidas concretas capazes de elevar a participação (e a diversificação) da demanda de investimento no PIB. Não me parece haver grande consenso suprapartidário entre nós para tanto.

Não precisamos entrar nas trincheiras para sermos keynesianos. Vivemos um contexto global no qual o setor privado busca desalavancagem, algo que empurra os balanços dos governos domésticos para posições fiscais deficitárias. Afinal, se todos os países do mundo buscarem superávits nas suas contas correntes dos balanços de pagamentos ao mesmo tempo, a “guerra cambial” se materializará como fato e eventual tragédia nas suas prováveis consequências. Se existe ago de muito útil a aprender com a história é que devemos parar de cair em trincheiras.

Rodrigo Medeiros

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