A voz das ruas pede uma nova forma de fazer politica: a de tomar posições

Guerino Balestrassi

As manifestações que estão acontecendo em todo País, a “primavera brasileira”, têm apresentado algumas características interessantes e que servem, sobretudo, para refletir sobre o atual modelo político adotado no Brasil. O movimento se apresenta como apartidário, de multibandeiras, de reinvindicações e pede uma mudança cultural na forma de atuar na política e representar o povo.

A descrença nos partidos políticos tem origem na insatisfação acumulada de mazelas do exercício inadequado do poder público. É um discurso pautado no “vocês, classe política, fazem parte do problema”.  Há uma incerteza de que as instituições representativas do poder tenham capacidade de darem respostas adequadas às expectativas da população.

Este pensamento tem origem no modelo político e partidário brasileiro que não é institucionalmente aglutinador. Um modelo que, em tese, deveria reunir em siglas pessoas de pensamentos ideológicos parecidos, mas na realidade acaba por provocar cisões e divisões para atender aos interesses pessoais de lideranças políticas.

Em tese, um partido político sozinho não possui representatividade suficiente para governar sem alianças. Essas ligações acabam por aglutinar partidos de correntes, pensamentos e interesses diversos. Nesse sentido, o papel da situação (governar) e da oposição (fiscalizar) se confundem.

Neste momento, percebe-se, claramente, que tanto parlamentares quanto partidos utilizam-se deste “jogo político” atuando no papel de uma oposição ruidosa e, por muitas vezes, não criteriosa. Esta estratégia serve apenas para “esticarem a corda” para garantir sua participação nos governos, a situação faz a cooptação da oposição, que se dissolve e deixa de fiscalizar. Esses papéis que deveriam ser bem definidos se confundem e confundem a cabeça da população, que vê essas movimentações e perde as referências, porque não há uma marca definida dessas ideologias, nem dos seus defensores.

A voz que vem das ruas se manifesta pedindo uma série de ações, entre elas, e eixo desta reflexão, a forma de exercer o poder em nome do povo. A pauta dos manifestantes é plural, contudo há uma mensagem muito clara em torno deste movimento: ele prega a insatisfação. Insatisfação com o modelo de como o Estado é gerido, como a politica é feita e apesar de múltiplas bandeiras, as reinvindicações nos são muito familiares com uma nova roupagem: querem melhores hospitais, escolas e estradas, mas no “padrão FIFA”.

Este movimento tem muita similaridade com o “Maio de 68”, na França. Lá, também uma manifestação originada do movimento estudantil contra a reforma da educação foi abraçada por outros segmentos da população e resultou em uma greve geral com mais de três milhões de pessoas cuja luta passou a ser por uma sociedade menos opressora e mudou a cultura francesa. Recentemente, o movimento “Ocupa Wall Street” também foi uma ação cívica por uma forma diferente de fazer politica, de viver e rever a prioridade dos investimentos para que eles fossem para o bem estar da população.

O que pode nascer deste movimento para o modelo político brasileiro é uma forma mais ampla e democrática de participação. A exigência é a tomada de posição, afinal desde os escritos bíblicos, a preocupação esteve presente: seja quente ou seja frio, mas não seja morno.

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