Lições das ruas no Espírito Santo

Autor: André Pereira, Professor da UFES

As demonstrações que ocorreram em 2013 nos mostram que, no Espírito Santo, a postura dos poderosos foi a de fingir que o problema não era com eles. A nível nacional, quando as manifestações chegaram ao seu auge, várias autoridades deram respostas à “pauta das ruas”. Aqui, o Tribunal de Justiça apenas “recebeu” alguns representantes, a Assembleia Legislativa e as Câmaras de Vereadores nada votaram que contemplasse as demandas. O governo do Estado só botou a polícia na rua.

Na atualidade, grupos descentralizados, organizados em rede, que convocam manifestações para protestar contra os mais diferentes temas, contando com a possibilidade da adesão de indivíduos menos politizados e até violentamente incoerentes é uma realidade que não pode ser ignorada. Reclamar da falta de unidade deles e de representantes que comandem e possam ser cooptados não resolve o problema. É obrigação dos poderosos saber entender as reclamações e responder a elas de forma adequada.

O que se fez, porém, foi só demonizar os “vândalos” e usar violência desproporcional no controle de manifestações. Como se não bastasse, os deputados estaduais, tentado chantagear o governador, deram a impressão de que suspenderiam a cobrança do pedágio da Terceira Ponte. Até então, as passeatas estavam passando ao largo da Assembleia. Com tal medida, os manifestantes foram “convidados” a invadir a Casa. A solução para tal lambança foi a de agir concretamente, iniciando a análise do contrato e diminuindo o valor da cobrança.

No caso dos chamados “vândalos”, houve recusa para entender que este grupo era formado por pessoas diferentes. Muitos eram jovens pobres que aproveitaram a oportunidade para entrar em confronto com a polícia, que eles odeiam devido à forma violenta como ela trata os moradores das periferias. Outros que usaram a força são indivíduos que fazem parte de grupos pequenos, radicalizados por imitação. E houve muita infiltração de provocadores, que lá estavam justamente para envolver os manifestantes em ações que poderiam criar uma imagem negativa. Como havia falta de direção unificada, este tipo de atitude tendeu a dar mais certo que em outros tipos de manifestações, controladas por grupos mais organizados.

Só que a atitude, tanto dos ocupantes de cargos como da grande imprensa, foi a de ignorar os temas colocados e dar respostas rápidas. Preferiu-se dizer que as manifestações eram legítimas (só isso) e que havia “vândalos infiltrados”.
Concluindo, é preciso levar a sério a bandeira dos “Hospitais padrão FIFA”, alterando a agenda do desenvolvimento econômico para o desenvolvimento social. As causas da violência nas manifestações devem ser reconhecidas e enfrentadas na sua concretude. O tema da corrupção não pode ser ignorado, sob pena de alimentar respostas populistas fáceis. A crise de representatividade é real, de forma que os movimentos descentralizados têm que ser reconhecidos como atores legítimos, sem desqualificação. Por fim, a grande imprensa deve notar que dá espaço preferencial à opinião conservadora e ao discurso barato que elogia a repressão. Com isso, aliena os setores mais progressistas, que têm direito a se verem representados no debate público.

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