O papel vai acabar?

3501Tenho sido abordado sobre o porquê de tantos projetos de novas fabricas de celulose no Brasil, se os meios digitais estão crescendo rapidamente e substituindo o papel, em especial o dos jornais e catálogos.
E daí as perguntas: O papel vai acabar? Precisamos de mais celulose?

O mundo consome cerca de 400 milhões de toneladas de papel por ano, com distribuição proporcional ao desenvolvimento dos países.

O consumo per capta americano, por exemplo,  é de 290 quilos de papel por pessoa por ano; o chinês gira em torno de de 60 quilos, embora em termos absolutos, os consumos anuais já sejam bastante parecidos (algo como 90 milhões de toneladas por ano).

E no Brasil ?  ainda estamos abaixo da China no consumo per capta dos diversos papeis, cerca de 43 quilos por pessoa por ano.

E em que se consome tanto papel?

Resumidamente, o mundo consome quatro  tipos principais de papel. O mais consumido é o papel de imprimir e escrever que chega a 55% do total; Os papeis de embalagem estão em segundo lugar, representando 13% do consumo total; os papeis  especiais 15% e os sanitários em torno de 9%.

Para se produzir papel é preciso de fibras virgens, fibras recicladas e um pouco de material inorgânico.

As fibras virgens, oriundas das madeiras, representam algo como 41%; as fibras recicladas, que vêm do próprio papel, representam 55% e as outras fibras, que são oriundas de palhas de milho, arroz, bambu, etc… respondem pelo restante.

Para certos papeis, com propriedades mais especiais, é preciso de maior proporção de  fibras virgens, já para os mais resistentes, são necessárias fibras longas enquanto que para os de imprimir e escrever, de fibras mais curtas, com maior ou menor proporção de fibras recicladas.

As fibras longas são em geral produzidas no hemisfério norte a partir dos pinus, spruces, etc.

As fibras  curtas  contam com alguma produção no hemisfério norte, mas são encontradas em maior abundância no hemisfério sul  e são oriundas dos eucaliptos, acácias, etc.

A presença crescente  dos meios digitais (tablets, computadores) tem reduzido em quase 20% o consumo de papéis de imprensa, imprimir e escrever nos Estados Unidos e Europa, o que , consequentemente, também reduz a quantidade de fibra disponível para reciclagem.

Estamos falando dos papeis de imprensa, jornais, catálogos, livros, documentos, etc.

Por outro lado, os papéis de embalagem, especiais e sanitários continuam a crescer nessas regiões, ainda que de forma madura, como são suas economias, e crescem de forma acelerada nos países em desenvolvimento.

Nesses países e, em especial, na China, o consumo de todos os quatro tipos de papel tem crescido em ritmo chinês ou algo como 10 a 11% ao ano. Esta demanda vem em função da maior exigência social por boas embalagens industriais; embalagens higiênicas para alimentos; uso maior de papéis sanitários, lenços, fraldas, etc.

Portanto se em países ricos o consumo vem caindo em alguns tipos de papéis, nos países em desenvolvimento, tal consumo vem aumentando, compensando aquela redução. Percebe-se nestes países muita sede por informação ainda em papel e por embalagens e produtos higiênicos mais sofisticados que os anteriormente usados.

Seguindo meu raciocínio:  se  os Estados Unidos e Europa estão consumindo menos papéis de imprimir e escrever, estão produzindo, consequentemente, menos fibras recicladas as quais são exportadas para a China.

Por outro lado, se a China está aumentando aceleradamente o seu consumo e tem menos fibra reciclada vinda dos Estados Unidos, ela vai necessariamente precisar de mais fibras virgens para completar o volume demandado. Ou seja, menor consumo nos Estados Unidos e Europa, menos fibra reciclada para os países em crescimento e, portanto, maior necessidade de fibra nova. De onde virá essa fibra nova?

A China tem poucas chances de produzir toda a celulose que precisa e, então, se torna uma grande importadora.

Os países desenvolvidos produzem madeira a um ritmo 10 vezes menor que as fibras produzidas no hemisfério sul e seu custo é bastante elevado.

Enquanto no Brasil nossas florestas plantadas produzem cerca de 50m3 de madeira por hectare por ano, no hemisfério norte isto está em torno de 5m3 por hectare por ano.

O Brasil tem hoje o melhor e mais competitivo parque industrial de celulose do mundo. Conta com fábricas modernas e com escala, ótimo controle ambiental, florestas sustentáveis e renováveis, terras degradadas precisando de uma cobertura florestal, alta tecnologia de produção de fibra de excelente qualidade e crescimento e uma inteligência de mercado bastante sofisticada.

Os custos de produção são os menores do mundo e os fundamentos desta indústria só encontram competidores no hemisfério sul, como Chile, África do Sul e Uruguai. Mas enquanto todos têm limitações, seja de capital ou de áreas para florestar, o Brasil tem tudo isto e mais pessoal muito bem qualificado neste setor. Por isso é mais que natural que o Brasil seja hoje a principal fonte de fibras de celulose para o mundo.

Dai o surgimento de tantos grandes projetos de celulose no país. Cada projeto destes investe algo como 3 bilhões de dólares; gera cerca de 8 a 10 mil empregos e trás um grande acervo tecnológico e de inovação.

Com certeza o uso do papel não vai acabar nos próximos anos e nem se espera uma redução substancial em termos globais, pois seu uso é cada vez mais sustentável, renovável, reciclável e, sobretudo, é bastante importante para o bem estar de toda a humanidade.

E, mesmo que num futuro distante, haja uma redução mais acentuada, as fibras oriundas das florestas plantadas terão novas destinações, fruto das novas tecnologias de produção de energia, biocombustíveis e biomateriais, como a nanocelulose e outros.

Neste aspecto, o Brasil está  no caminho certo.

Grande abraço,

Carlos Aguiar

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