A estória de Téo (mas poderia ser a de Afonso, Lucas, Manuela ou Duda)

Por Flávia Oleare

Esse é o Téo, tem um aninho e ainda anda cambaleando.

Ele foi fruto de uma paixão avassaladora entre dois jovens… Na verdade, nem tão jovens assim. Ambos na faixa nos 30 anos. Eles se conheceram na casa de um amigo em comum. Conversaram, viram que tinham muitas afinidades, começaram a sair juntos, se apaixonaram perdidamente e, três meses depois, vem a notícia de que Cissa estava grávida. Foi um susto, misturado com alegria, medo, surpresa. Tudo junto, afinal, não foi programado.

Bom… não foi programado, mas ambos na faixa dos 30 anos conheciam de cor e salteado os inúmeros métodos contraceptivos. Logo, se não usaram, sabiam o que poderia acontecer.

Passada a fase inicial, eles foram se acostumando com a ideia e resolveram, então, morar juntos. Nada os impedia, afinal, os dois eram independentes, apaixonados e teriam um filho.

Esta nova realidade trouxe um estranhamento, afinal, foi muita mudança junto. Início de namoro, gravidez, união estável, enfim… Eles foram de uma vida totalmente descomprometida para outra, com inúmeras obrigações em poucos meses.

Enfim, Téo nasceu. Saudável, gorducho, cabeludo, uma graça!

Mas a relação entre o recente casal não estava muito boa. Logo após se mudarem, eles perceberam que não tinham tantas afinidades. Mas resolveram continuar, afinal, quando Téo chegasse, tinham esperança de que tudo mudaria.

E realmente mudou… Para muito pior. As diferenças se agravaram e, no fim, eles viram que, tirando Téo, nada mais os unia. Eles eram completamente diferentes e aquele fogo da paixão inicial rapidamente foi apagado.

Orlando saiu de casa e deixou Cissa morando com Téo no apartamento alugado por eles. Ocorre que Cissa é autônoma e não pode trabalhar, porque não tem com quem deixar Téo. E Orlando não quer sustentar sozinho Cissa e Téo. Cissa não tem a quem recorrer, afinal, além dos pais dela não morarem na mesma cidade, eles possuem uma situação financeira difícil, não podem enviar dinheiro para ajudá-la.

Por conta disso, são muitas as brigas, disputas, xingamentos, acusações… E, lógico, tudo acontece na sala da casa onde Cissa mora com Téo, e ele está crescendo ouvindo isso tudo.

Os dois adultos sequer têm a preocupação de disfarçar… Ou de deixar para discutir quando Téo está dormindo. Cissa acha que ele tem que saber, desde cedo, o quão mesquinho é o pai dele. E Orlando não se importa, o que ele quer é não ter que liberar mais dinheiro.

Téo ainda não entende, “apenas” sente. Vamos acompanhar o crescimento dele e ver as consequências.

Esta estória é fictícia. Mas poderia ser real, pois é tão comum que dificilmente alguém não conhece alguma similar.

Vamos torcer por Téo. E por todas as outras crianças que vivem esta realidade.

Tem advogados que defendem a mãe. Outros defendem o pai. Na verdade, quem precisa ser defendida é a criança! Ela é a principal vítima neste enredo.

A nossa luta, enquanto cidadãos conscientes, é ajudar os pais a refletirem sobre isso, para que consigam deixar os sentimentos mesquinhos de lado — que todos nós temos — e pensem exclusivamente no bem estar da criança.

Esta não é uma vitória apenas daquele núcleo familiar, mas sim de toda a sociedade, que vai ter menos um cidadão traumatizado vida afora.

Reflitamos sobre isso, pois cortando “o mal pela raiz”, ou seja, evitando os conflitos gerados no núcleo familiar, certamente evitaríamos inúmeros problemas sociais que tanto nos afligem.

Flávia Oleare é advogada civilista, especialista em direito de família e sócia da Oleare e Torezani Advocacia e Consultoria.

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