O papel da sociedade civil na migração da economia cinza à economia verde

Por Marina Grossi e Paulo Hartung

A pandemia da Covid-19 segue desafiando o Brasil e o mundo em diversas esferas, na saúde com a pesada dor de mortes diárias, no social, com um quadro dramático de desemprego e ampliação das desigualdades, sentidas inclusive no maior índice atual de mortes por coronavírus entre moradores de comunidades carentes em grandes cidades, e na econômica, com desaceleração mundial e acentuação da crise econômica brasileira.

O atendimento às necessidades do momento, que são muitas, deve também estar associado a uma visão de futuro, pois toda crise tem começo, meio e fim.

Entre as principais discussões de reconstrução, ganha destaque a busca de uma realidade melhor em que a produção sustentável e o uso de produtos renováveis sejam a base da economia verde, próspera e sustentável, garantindo a subsistência de bilhões de pessoas.

As atuais formas de exploração de matérias-primas e consumo vêm se mostrando insustentáveis. A entidade internacional Global Footprint Network calcula há anos o momento em que o consumo de recursos naturais supera o volume que o planeta é capaz de renovar. Neste ano, esse dia chegou em 20 de agosto. Desde então, estamos entrando no cheque-especial do mundo.

Por tudo isso, percebemos globalmente uma aceleração em direção a uma maior eficiência no uso dos recursos naturais, como na revolução da bioeconomia e na corrida contra o aquecimento global. O consumidor global já tem exigido rastreabilidade dos produtos que compra, reforçando o fortalecimento dessa agenda verde.

Vemos também manifestações de fundos de investimentos e instituições financeiras exigindo padrões ambientais e sociais como critérios necessários. Outro exemplo veio da Bolsa brasileira, que criou novo índice sustentável em parceria com a S&P Dow Jones. No fim de junho grandes fundos de investimentos mundiais com uma carteira de US$ 3,75 trilhões, e o movimento da BlackRock, que já está reestruturando a carteira de investimentos de quase US$ 7 trilhões preocupada com projetos com muita emissão de CO2.

Na política, o Green Deal, ou Plano Verde, pactuado pela União Europeia, propõe ambiciosamente chegar à neutralidade de carbono até 2050. Nos Estados Unidos, a eleição presidencial coloca o tema também no foco com o candidato Joe Biden, que tem nas mudanças climáticas parte da sua plataforma de governo.

Neste cenário, a Amazônia, como a maior floresta tropical do mundo, entra no foco e foi tema do Fórum Econômico Mundial no começo do ano e da Assembleia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU), que ocorre esta semana. Em carta aberta, oito países da Europa pedem para o Brasil tomar iniciativas para conter o avanço do desmatamento na Floresta Amazônica. O documento é assinado pela Bélgica e pelos sete integrantes da chamada Parceria das Declarações de Amsterdã: Alemanha, Dinamarca, França, Itália, Noruega, Holanda, Reino Unido.

Na contraposição, o Brasil sofre com impactos graves na imagem em função das ilegalidades que são praticadas na maior floresta tropical do mundo, como desmatamento, queimadas, grilagem de terras e garimpo.

O setor privado, a sociedade organizada, academia e o setor financeiro brasileiros estão se unindo, conversando, estruturando movimentos que podem contribuir para a busca de soluções efetivas para os desafios que se impõem. A estratégia não é o confronto, mas o diálogo e convencimento para implementação de uma política ambiental nacional de longo prazo.

O Movimento Empresarial é uma ação inédita, com coordenação do Conselho Empresarial Brasileiro de Desenvolvimento Sustentável (CEBDS), que reúne mais de 80 CEOs das mais importantes empresas com atuação no Brasil preocupados com a questão da Amazônia e dispostos a estabelecer de maneira colaborativa diálogo pela busca de soluções. Temos na articulação deste movimento parceiros importantes como a Indústria Brasileira de Árvores (Ibá), Associação Brasileira do Agronegócio (Abag), Associação Brasileira da Indústria de Óleos Vegetais (Abiove) e a Rede Brasil do Pacto Global das Nações Unidas.

Com os mesmos propósitos, na semana passada, a Coalizão Brasil Clima, Florestas e Agricultura, movimento formado por mais de 200 representantes do agronegócio, setor financeiro, sociedade civil e academia, também apresentou ações estratégicas. O grupo propõe seis ações contra o desmatamento: retomada e intensificação da fiscalização, com rápida e exemplar responsabilização pelos ilícitos ambientais identificados; suspensão do Cadastro Ambiental Rural (CAR) que incide sobre florestas públicas e responsabilização por eventuais desmatamentos ilegais; destinação de 10 milhões de hectares à proteção e uso sustentável; d) concessão de financiamentos sob critérios socioambientais; total transparência e eficiência às autorizações de supressão da vegetação; e suspensão de todos os processos de regularização de imóveis com desmatamento após julho de 2008.

A mobilização é densa e conta inclusive com uma carta de ex-ministros da Fazenda e ex-presidentes do Banco Central reforçando que recuperação econômica precisa conectar preservação ambiental e a responsabilidade social. O documento é assinado, entre outros, pelos ex-ministros da Fazenda Fernando Henrique Cardoso, Pedro Malan, Joaquim Levy, Nelson Barbosa e Henrique Meirelles e os ex-presidentes do BC Armínio Fraga, Persio Arida, Ilan Goldfajn e Gustavo Loyola.

No coro desses variados públicos, está a união em torno de um objetivo: combater a ilegalidade, o que passa por fiscalização e punição pelos crimes ambientais identificados. Também é preciso incentivar a bioeconomia, com financiamento e fortalecimento de critérios ESG, ambiental, social e de governança. Ponto de atenção de qualquer plano de recuperação sustentável está nos 25 milhões de brasileiros que moram na região da Amazônia, com a maioria vivendo abaixo da linha da pobreza e com sérias dificuldades de comunicação e infraestrutura.

E gerar riqueza para a população da região passa também por consolidar a floresta como um caminho para crescimento socioeconômico com qualidade. Além disso, a floresta em pé já gera riquezas para o país com os serviços ecossistêmicos, como a absorção e estoque de CO2 – uma potencial fonte de renda para o Brasil – e os regimes de chuva, que são um dos grandes responsáveis pelo sucesso do agronegócio brasileiro com até três safras por ano.

O meio ambiente, que já deixava de ser um assunto de fóruns específicos, tornou-se ponto de partida imperativo para políticas públicas visando uma retomada econômica sustentável, impulsionou uma nova maneira de se fazer negócios e deu outra dinâmica ao consumidor consciente e sustentável. O Brasil pode entregar muitas soluções, produtos e tecnologias para esse consumidor e para a bioeconomia, além de ampliar renda e empregos dentro de uma cadeia renovável, sustentável e circular, que melhoram nossa qualidade de vida hoje e possibilitam que outras gerações tenham boas experiências em um planeta saudável.

Marina Grossi é economista e presidente do Conselho Empresarial Brasileiro de Desenvolvimento Sustentável (CEBDS).

Paulo Hartung é economista e presidente Ibá (Indústria Brasileira de Árvores).

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