Maus hábitos alimentares: o impacto do estresse na saúde

Por: Dra Richaeny Ferreira, gastroenterologista 

A vida moderna trouxe inúmeras conquistas à sociedade. Entretanto, o estresse é o fator de risco para o desenvolvimento de várias doenças, sendo muitas delas associadas ao desequilíbrio do sistema digestivo.

Ao contrário do que muitos imaginam, o estresse reduz de forma significativa a produção do ácido clorídrico do estômago ( hipocloridria) , acarretando um grande prejuízo na digestão e de forma secundária, a absorção de nutrientes que dependem de um ambiente ácido para ocorrer.

Desde a época Paleolítica, em cada sinal de perigo, o cérebro, através de estímulos hormonais, direciona a utilização de energia para os órgãos considerados “ nobres” como os músculos, pulmões e coração. O raciocínio é de que quem precisa correr não está comendo, logo, não precisa digerir.

Em contrapartida, a sociedade cada vez mais estressada, come muito, mastiga pouco, bebe líquidos durante a refeição e se alimenta no horário que o corpo deveria estar se recuperando, o pior cenário para uma boa digestão.

Esse alimento mal digerido, por permanecer maior tempo no estômago, sofre fermentação, causando gases, distensão abdominal, podendo evoluir até com refluxo.

Na tentativa de eliminar esses sintomas tão incomodativos, pessoas utilizam em larga escala, através de prescrição médica ou por automedicação, substâncias que inibem ainda mais a secreção ácida, os tão populares “ prazóis”.

Não é difícil de se imaginar a repercussão desse cenário, visto que o ambiente ácido além de ser fundamental para a absorção de vitaminas e minerais, é necessário para a defesa de patógenos provenientes da boca.

Desse modo, não há absorção adequada de ferro, vitamina B12, magnésio e cálcio. Em mulheres, principalmente na idade reprodutiva, os maléficos são ainda maiores visto que sua reserva de ferro pode estar diminuída em decorrência da menstruação.

Outro agravante é que esse resíduo alimentar traz um grande desequilíbrio à microbiota intestinal ( flora intestinal) com o predomínio de bactérias patogênicas, que liberam substâncias agressoras à mucosa intestinal. A consequência é a perda da barreira protetora e o gatilho para as doenças autoimunes e as alergias alimentares.

Clinicamente podemos suspeitar de hipocloridria quando há digestão lenta, principalmente para carnes , fazendo com que muitas pessoas interrompam o consumo desse alimento. Outras apresentam fadiga crônica devido a ferritina baixa, o que compromete consideravelmente suas atividades laborais.

A cada ano, novas alergias se instalam e processo de autoimunidade se perpetua.
Lúpus, Artrite Reumatóide, Vitiligo, Doença Celíaca e Tireoidite de Hashimoto, são exemplos de doenças que poderiam ter uma evolução diferente caso todos os médicos soubessem da sua conexão com sistema digestivo.

Será coincidência a alta incidência de autismo e alergias na geração atual? Tudo indica que não.

Mães com dupla e tripla jornada, expostas a metais tóxicos provenientes de desodorantes e produtos de beleza, alimentos ricos em agrotóxicos e um apelo enorme aos produtos alimentícios, forma um cenário crítico para as futuras gerações

O desafio é educar a população para retomar hábitos dos nossos antepassados.
Dormir até as 22horas, comer “comida de verdade” , além de realizar as refeições com atenção plena , seriam medidas que fariam enorme diferença na vida das pessoas.

Por último, ressalto que nós médicos precisamos restaurar conceitos adquiridos nos primeiros anos da Faculdade de Medicina, para que possamos tratar as doenças na sua origem e não apenas controlar sintomas.

 

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