Um mundo sem livros: Fahrenheit 451

Que livro, meus amigos. Que livro! Terminei de ler Fahrenheit 451 e estou naquele momento “e agora, o que faço da vida?” Uma clássica ressaca literária, se você ainda não conhecia o termo. O livro estava na minha wish list há um bom tempo, mas eu acabava deixando para depois. Ainda bem que o depois chegou e eu o li. Penso que nunca mais lerei um livro, qualquer um que seja, do mesmo jeito.

Fahrenheit 451, escrito pelo autor norte-americano Ray Bradbury, é uma das maiores obras de ficção científica do século XX e figura como uma das distopias mais impactantes da história, ao lado do meu indispensável 1984 de George Orwell e Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley.

A ora foi escrita em 1953, quando os televisores ganhavam as casas americanas, e já ganhou várias adaptações para o teatro, algumas até escritas pelo próprio Bradbury. A versão cinematográfica mais famosa é a de François Truffaut, em 1966, mas a HBO lançou uma em 2019 tendo como protagonista o ator Michael B. Jordan. O título é uma referência à temperatura em graus Fahrenheit que o papel era queimado (cerca de 230º Celsius).

Segundo o autor, a sua ideia ao escrever Fahrenheit 451 (o que levou nove dias) era mostrar o seu grande afeto pelos livros e bibliotecas e explorar as consequências da televisão na aprendizagem e na literatura, mas a obra vai além e desperta uma série de questões e emoções no leitor. Não sei se Bradbury tinha ideia do mundo de telas e tecnologias que viria pela frente, mas, cada novo aparato de entretenimento que aparece torna esse livro ainda mais eterno e atual, mesmo tendo se passado mais de sessenta anos desde a sua publicação

Sinopse de Fahrenheit 451

Num futuro distante (que já nem é mais tão distante assim), a missão dos bombeiros não é apagar incêndio, mas atear fogo aos livros e às casas dos seus proprietários, que logo depois são presos. Nessa sociedade, os livros são proibidos, as crianças não são ensinadas a ler nem a pensar e ninguém questiona nada.

É nesse contexto que conhecemos Guy Montag, um bombeiro profissional que há mais de dez anos tem a missão de queimar os livros e adora fazer isso. Ele conhece uma jovem de 17 anos, Clarisse McClellan, considerada problemática porque é observadora, questionadora e tagarela, acredita?

Algum tempo depois, ao atender a um chamado para uma “ocorrência”, uma senhora não aceita abandonar os seus livros e é queimada com eles. Tal fato abala Montag, afinal, por que aquela mulher preferiu morrer a ficar sem seus livros? Isso, aliado às suas conversas com Clarisse e uma tentativa de suicídio de sua esposa, abalam as convicções do bombeiro e o desperta para uma realidade até então ignorada por ele e por toda a sociedade: por que acabar com os livros?

Numa busca desenfreada, Montag vai percebendo, ao longo da história, que ao silenciar os livros, silencia-se também as ideias, o pensamento próprio e a capacidade de sentir. Essa é a “receita da felicidade”, a capacidade de pensar e sentir por si mesmo e não a tonelada de entretenimento jogada na sociedade através das telas. Quanto mais entretenimento, menos raciocínio lógico, menos opinião.

“Numa sociedade que promove a facilidade da imagem, no que tem de simples mas também de estupidificante, que espelha e espalha a imagem de uma felicidade costurada à fugacidade de um qualquer prazer hedonista, o retorno à palavra escrita, a Bradbury, o retorno a Fahrenheit 451 é essencial” (Carlos Moura, vereador da Câmara de Lisboa).

O que eu achei de Fahrenheit 451

Muitas coisas me impactaram nessa leitura, que me fez literalmente perder o sono , isso sem falar na narrativa primorosa e envolvente. Uma das mais chocantes, porém, é o fato de não haver, no início, uma proibição legal da leitura de livros. Repare nesse trecho:

“Aí está, Montag. A coisa não veio do governo. Não houve nenhum decreto, nenhuma declaração, nenhuma censura como ponto de partida. Não! A tecnologia, a exploração das massas e a pressão das minorias realizaram a façanha, graças a Deus. Hoje, graças a elas, você pode ficar o tempo todo feliz, você pode ler os quadrinhos, as boas e velhas confissões ou os periódicos profissionais.

— Sim, mas onde entram os bombeiros nisso tudo? — perguntou Montag.

— Ah — Beatty inclinou-se, varando a rala névoa de fumaça de seu cachimbo. — Nada mais simples e fácil de explicar! Com a escola formando mais corredores, saltadores, fundistas, remendadores, agarradores, detetives, aviadores e nadadores em lugar de examinadores, críticos, conhecedores e criadores imaginativos, a palavra “intelectual”, é claro, tornou-se o palavrão que merecia ser. Sempre se teme o que não é familiar.”

Entendeu a coisa? No início não proibiram os livros, apenas liberaram o entretenimento e cada um escolheu por si. O que o livro aborda e o que mais me tocou é que tudo começou com as decisões das pessoas. Como diz o ditado, cada escolha é uma renúncia. No fim, não é sobre o que escolhe, mas sobre o que renuncia. Você sabe do quê está abrindo mão?

Fahrenheit 451 é um  livro chocante e intrigante. Impossível permanecer a mesma pessoa depois de lê-lo. Quer mais um incentivo para mergulhar nessa história? Basta refletir sobre isso: como seria sua vida se você fosse proibido de ler qualquer livro? Mudaria alguma coisa na sua rotina hoje?

2 Respostas para “Um mundo sem livros: Fahrenheit 451

  1. Muito interessante…
    Já tinha visto esse livro, mas ainda não tive a oportunidade de ler o mesmo.
    Depois dessa análise fiquei muito interessada e pretendo adquiri-lo.
    Nao imagino um mundo sem livros…
    Eles são grandes companheiros e um portal para um mundo de conhecimento.

    1. Que bom, Silvia! Difícil mesmo imaginar um mundo sem livros, não é? Essa história é fascinante ao mesmo tempo em que é arrepiante. Vale muito a leitura! Com certeza é um dos livros que levarei para a vida!

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