O que aprendemos com o livro A Revolução dos Bichos, de George Orwell?

Algumas semanas atrás, falamos que A Revolução dos Bichos, do escritor britânico George Orwell, é a única ficção na lista dos 10 livros mais vendidos durante a quarentena no Brasil. O mais curioso é que essa não é uma obra recente. Na verdade, ela foi publicada em 1945 e escrita no auge da Segunda Guerra Mundial. Então, do que essa fábula distópica fala para continuar no ranking dos livros mais vendidos? Fica aqui comigo que vou te contar.

Resumo de A Revolução dos Bichos

Orwell nos apresenta a Granja do Solar, uma fazenda que ficava na Inglaterra e pertencia ao senhor Jones, um homem que abusava dos animais e frequentemente os deixava sem comida. Esses animais, que eram em sua maioria galinhas, porcos, cachorros, cavalos, burros, ovelhas e vacas, possuem capacidade de pensar e falar e, então, começam a questionar a realidade que viviam na fazenda. Eles, então, chegam à conclusão – através do discurso de um porco velho, mas de muito respeito, Major – que a culpa de todo o mal que eles viviam era dos humanos.

“O Homem é a única criatura que consome sem produzir. Não dá leite, não põe ovos, é fraco demais para puxar o arado, não corre o suficiente para alcançar uma lebre. Mesmo assim, é o senhor de todos os animais. Põe-nos a trabalhar, dá-nos de volta o mínimo para evitar a inanição e fica com o restante. Nosso trabalho amanha o solo, nosso estrume o fertiliza e, no entanto, nenhum de nós possui mais do que a própria pele. […] Não está, pois, claro como água, camaradas, que todos os males da nossa existência têm origem na tirania dos seres humanos? Basta que nos livremos do Homem para que o produto de nosso trabalho seja somente nosso. Praticamente, da noite para o dia, poderíamos nos tornar ricos e livres.”

Major acreditava que todos os animais deveriam ser livres e trabalhar de acordo com a capacidade de cada um, sem alguém para ditar o quanto eles deveriam se sacrificar ou mesmo comer. Foi assim que ele começou a infundir pensamentos revolucionários na Granja do Solar.

Entretanto, Major morre três dias depois e quem decide tocar seus ideias são porcos: Bola de Neve e Napoleão, que organizam as ideias do porco falecido num sistema chamado de Animalismo, que se resumia basicamente a um fato: “quatro pernas bom, duas pernas ruim”. O porta-voz do Animalismo é Garganta, um porco com uma capacidade incrível de persuasão. “Diziam que Garganta era capaz de convencer que o preto era branco”.

A partir disso, os animais se organizam e tudo é discutido entre todos, em assembleias realizadas num galpão. Eles também definem sete mandamentos que serão a base do Animalismo:

  1. Qualquer coisa que ande sobre duas pernas é inimigo.
  2. Qualquer coisa que ande sobre quatro pernas, ou tenha asas, é amigo.
  3. Nenhum animal usará roupas.
  4. Nenhum animal dormirá em cama.
  5. Nenhum animal beberá álcool.
  6. Nenhum animal matará outro animal.
  7. Todos os animais são iguais.

Fica também decidido que todos os animais serão alfabetizados, um privilégio de pouquíssimos, até então, e que cada espécie teria o seu tempo de aposentadoria de acordo com sua capacidade e carga de trabalho.

Pois bem, após esses avanços, o senhor Jones um dia bebe demais e esquece de alimentar os animais, o que se torna a gota d’água para tudo o que eles já aguentavam. Uma rebelião tem início e os animais conseguem expulsar o senhor Jones e sua família da fazenda. Fica assim decidido que o casarão onde eles moravam será um museu e a fazenda se chamará agora Granja dos Bichos.

Tudo ia muito bem, com todos os animais felizes por agora verem que o fruto do trabalho deles seria para consumo e enriquecimento próprio, numa fazenda justa e igualitária. Até que os porcos passam a liderar o trabalho dos outros, já que, segundo eles próprios diziam, eram os mais inteligentes e os principais responsáveis pela expulsão dos donos.

Aos poucos, Bola de Neve, Garganta e Napoleão vão adquirindo alguns privilégios. Os animais descobrem que eles passaram a consumir leite e maçãs escondidos, o que errado, afinal, tudo era de todos e para todos. Os porcos se justificam dizendo que são trabalhadores intelectuais e, por isso, precisam de mais nutrientes.

Jones até tenta retomar o controle da propriedade, ao lado de alguns fazendeiros aliados, mas todos acabam expulsos por um contra ataque dos animais. Uma bala passa de raspão em Napoleão, que agora tem uma “ferida de guerra”, e se intitula um herói.

Bola de Neve tem a ideia de construir um moinho, o que desagrada Napoleão. Após uma assembleia, Bola de Neve acaba expulso da Granja por uma artimanha de Napoleão, que se torna o único líder da comunidade.

Alimentado por pura ambição – e mais algumas comidas que só os porcos tinham direito – Napoleão se muda para a antiga casa de Jones e começa a fazer negócios com outras fazendas, obrigando os animais a trabalharem mais e a comerem menos, já que a produção não é apenas para consumo próprio mais.

Além disso, os mandamentos da revolução sofrem algumas modificações, para justificar as extravagâncias dos porcos, e não são questionadas pelos outros animais, uma vez que eles não sabiam ler bem. “Nenhum animal dormirá em cama”, por exemplo, vira “Nenhum animal dormirá em cama com lençóis”.

O líder também institui novas proibições. A partir de agora, os animais não poderiam mais cantar o hino que compuseram para a revolução e lhes dava tanto ânimo e esperança. E após uma negociação mal sucedida com um fazendeiro, a granja acaba sendo invadida e muitos deles morrem durante a briga.

Após um tempo, a Granja dos Bichos se torna uma república e Napoleão, único candidato ao cargo, é eleito. A partir daí, os porcos exploram ainda mais os animais e, incrivelmente, seus rostos são cada vez mais parecidos fisicamente com os humanos. Já a conduta, essa passou a ser tão humana quanto possível, com um alto grau de corrupção.

O fim do livro retrata bem o que a Granja dos Bichos, que voltou a se chamar Granja do Solar por vontade de Napoleão, se tornou: mudaram as moscas, mas a “caca” ainda era a mesma.

“Doze vozes gritavam cheias de ódio e eram todas iguais. Não havia dúvida, agora, quanto ao que sucedera à fisionomia dos porcos. As criaturas de fora olhavam de um porco para um homem, de um homem para um porco e de um porco para um homem outra vez; mas já se tornara impossível distinguir quem era homem, quem era porco.”

O que A Revolução dos Bichos ensina

George Orwell foi bem claro quando escreveu A Revolução dos Bichos: essa era uma crítica feroz à Revolução Comunista de 1917 e ao regime totalitarista de Stalin na União Soviética. Nem é preciso muita aula de história para perceber que o Major é uma simbologia a Marx, Bola de Neve representa Trotsky e Napoleão tipifica claramente Stálin.

Orwell queria isso mesmo: denunciar a ditadura cruel imposta por Stalin após ele subir ao poder russo. É importante destacar que o escritor conheceu de perto essa realidade ao combater na Guerra Civil Espanhola, onde viu o exército de Stalin de perto. Além disso, ele trabalhou na rede de notícias BBC até pedir demissão para escrever sobre o regime stalinista e os caminhos que o socialismo russo estava tomando.

A crítica foi ainda mais profunda porque Orwell se considerava socialista, mas um socialista que buscava um regime que defendesse os menos favorecidos e libertasse o homem para pensarem por si mesmo.

Para completar, a União Soviética de Stalin era aliada da Inglaterra (lembre-se de que estamos falando do contexto da Segunda Guerra Mundial). Assim, não era fácil criticar um aliado do governo, o que deixou Orwell numa situação complicada. Várias editoras se recusaram a publicar o livro, com medo de represálias do governo.

A obra acabou sendo lançada por uma pequena editora. Sua coragem em publicar deve ter-lhe rendido alguns benefícios, já que o livro ainda segue como um dos mais vendidos no mundo e considerado uma das pérolas da literatura inglesa.

Voltando ao enredo, Napoleão usou o poder que poderia ajudar outros animais para obter benefícios para si mesmo. Os moradores da Granja dos Bichos continuavam escravos, porém, em vez de um humano, agora eram escravos de um deles mesmo. E pior: não eram conscientes do próprio poder que tinham. Orwell mostrou que de nada vale a força física se não há pensamento crítico.

A narrativa de Orwell nos mostra como podemos ser corrompidos e como o totalitarismo e a opressão aprisionam nossas mentes até para o questionamento mínimo. Isso, associado à falta de alfabetização e literacia, mantém os animais ainda mais limitados.

Constantemente vemos no livro Garganta falando “vocês não vão querer o Jones de volta, certo?”. Através do medo, os porcos impedem os animais de perceberem que eles ainda estão sujeitos aos mesmos regimes totalitários.

Com uma habilidade impressionante, esses pensamentos políticos e morais são escritos com maestria, em uma linguagem fácil, acessível e até com toques de humor e inocência dos bichos. Em alguns momentos, chegamos a ficar comovidos com tamanha cegueira dos animais, até percebermos que nós também estamos cegos. Basta olhar ao nosso redor, com discursos populistas e totalitários, para perceber que A Revolução dos Bichos é uma obra extremamente atual.

Se você ainda não leu A Revolução dos Bichos, o livro está disponível gratuitamente em versão PDF. Só clicar aqui para fazer o download. A leitura é super rápida, dá para fazer em um dia. Eu confesso que, nas vezes que li, levei mais tempo. Sempre viajo nos pensamentos e reflexões quando leio essa obra.  Aproveita para comentar o que você achou dessa “pequena” análise e me seguir no Instagram. Lá tem várias outras dicas super legais de leitura!

 

18 Respostas para “O que aprendemos com o livro A Revolução dos Bichos, de George Orwell?

  1. Excelente a análise. Li o livro e vi uma das versões do filme e gostei muito. Achei atualíssimo ao transportá-lo para nossa realidade atual. Parabéns!

  2. Uma leitura fantástica, mesmo sem atentar para seu recorte temporal e espacial traz um senso de reflexão sobre sedução do poder e como é destrutivo sua ganância. A partir dessa elucidação dos personagens fica mais fácil de estabelecer uma linha de entendimento.

  3. Achei o livro excelente, a leitura muito fácil e didática. Dá um verdadeiro panorama da história, política, opressão, intimidação do pensamento, até mesmo como é fácil implantar ideias nas pessoas sem deixar que tenham o senso critico. Uma belíssima obra para reflexão. Vale apena ler.

  4. A obra é da época da Segunda Grande Guerra Mundial e retrata TODA A ATUALIDADE de seres humanos que NÃO SE DERAM E NÃO SE DÃO CONTA que precisam raciocinar para não caírem na teia dos interesses dos poderosos. O poder
    é exercido por poucas pessoas que raciocinam a la Maquiavel e o demais apenas ficam como torcedores, de fora, assistindo à própria desgraça. Quem manda no Brasil (na Granja Brasil, no caso)? O Presidente da República? Claro que NÃO! QUEM MANDA NO BRASIL É CENTRÃO! Um grupo do pensamento/interesse único, assim como fez Stalin ( humano porco) e Napoleão (se fez porco humano). Quem está sempre JUNTO COM O CENTRÃO E O STF para não serem presos, nem mudar as leis pra prender BANDIDOS DE TODA ESPÉCIE? Resposta: AS ESQUERDAS TODAS JUNTAS, SEMPRE! Conclusão; vivemos num TOTALITARISMO COMUNISTA DISFARÇADO! Só não enxerga isso quem REPRESENTA OS DEMAIS BICHOS DA GRANJA BRASIL, pois se nutrem da mídia e NÃO RACIOCINAM.

  5. “Meu povo sofre por falta de conhecimento.” Está lá na bíblia,no VelhoTestamento. Enquanto as pessoas não fizerem um questionamento lúcido, consciente e um julgamento crítico em bases racionais, não emocionais,de tudo que vê, ouve, lê…. serão usadas,,manipuladas formando uma sociedade sem valores reais, escravizada,emburrecida, estúpida ,decadente…

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