Dom Casmurro: uma breve análise da obra-prima de Machado de Assis

Se a literatura brasileira fosse definida em um dilema, com certeza seria: Capitu traiu ou não traiu Bentinho? Essa é a grande dúvida lançada por Dom Casmurro, o romance considerado obra-prima de Machado de Assis. Mas esse não é o único motivo que o coloca no hall dos grandes clássicos da literatura brasileira. Se você quer entender por que Dom Casmurro é o que é, continua comigo na leitura.

Contexto e breve resumo de Dom Casmurro

Dom Casmurro foi publicado em 1899, durante a segunda fase de Machado de Assis, conhecida como a fase realista e marcada pelas suas críticas ácidas à sociedade da época. Vale lembrar que esse foi um período cheio de mudanças sociais, políticas e intelectuais significativas na história e na sociedade do Brasil, como a abolição da escravatura em 1888, a proclamação da República em 1889, a chegada dos imigrantes europeus, a modernização do Brasil e o cientificismo lançando novos olhares sobre o modo de perceber a realidade.

A história toda é narrada por Bento Santiago, também chamado de Bentinho, que decide transformar a sua história em um livro já na velhice, para “atar as duas pontas da vida”, numa retrospectiva da sua jornada e do seu relacionamento com Capitu. Tudo se passa no Rio de Janeiro, então sede do império após a independência em 1822, entre os meados e o final do século XIX. 

Se você, como eu, não sabe o que significa Casmurro, nem precisa ir ao dicionário pesquisar. Já nas primeiras páginas Bentinho nos explica que ganhou o apelido de Dom Casmurro da vizinhança por ser um “homem calado e metido consigo”, de poucos amigos (ou nenhum, como vemos mais tarde). Entretanto, Casmurro também pode significar teimoso, tristonho e mal-humorado, o que combina muito bem com o narrador.

Desde o início, notamos que Bentinho é instável, mimado e ranzinza, e a sua memória não é mais das melhores. Ele mesmo fala que não se lembra com exatidão de vários detalhes e é a partir dessa perspectiva que ele passa a narrar os fatos sobre si mesmo, Capitu, Escobar, Ezequiel e os outros personagens.

A narração começa na juventude, quando Bentinho, filho de uma viúva rica, descobre, ao ouvir uma conversa de José Dias com a sua mãe, que é apaixonado por Capitu, sua vizinha e amiga de infância. E mais: o seu amor é correspondido. O problema é que a sua mãe prometeu mandá-lo para o seminário aos 15 anos, para se tornar padre. A partir daí, Bentinho e Capitu começam uma série de planos para livrá-lo do seminário, todos bem elaborados por ela, mas nenhum funciona e ele acaba indo mesmo para seu fatídico destino.

Entretanto, lá conhece Escobar, de quem se torna grande amigo e, de fato, o ajuda a deixar o seminário. Bento e Capitu, então, se casam e têm um filho, Ezequiel, uma homenagem a Escobar, já que esse era seu primeiro nome. Escobar, por sua vez, se casa com Sancha, melhor amiga de Capitu, e as duas famílias são muito próximas, até que Escobar morre afogado.

No velório, o protagonista observa o olhar da esposa para o corpo do defunto e então fica obcecado com a ideia de que ela o amava e ambos o traiam. Não bastasse isso, ele nota as incríveis semelhanças entre Ezequiel e Escobar e a explicação só pode ser uma: eles são pai e filho. Pronto! A prova do adultério está aí, por mais que Capitu negue. Como Bentinho diz:

Escobar vinha assim surgindo da sepultura (…) para se sentar comigo à mesa, receber-me na escada, beijar-me no gabinete de manhã, ou pedir-me à noite a bênção do costume.

Certo de que a esposa o traiu, Santiago sente uma vontade incontrolável de se vingar e num momento de desespero até tenta se matar bebendo veneno, mas Ezequiel chega na hora e atrapalha o plano. A vingança, então, é ferir o menino ao afirmar que ele não era seu pai.

O protagonista decide abandonar a família e acaba por levar uma vida solitária, amargurado pela certeza da traição da esposa e do melhor amigo. Após a morte de Escobar, Capitu e até Ezequiel, Bentinho, já como Dom Casmurro, decide escrever o livro. 

Por dentro da cabeça de Bentinho

Como falamos, todo o livro é narrado por Bento Santiago, que nos conta não estar muito bom da memória. Tudo o que sabemos é o que ele nos diz, pelo seu olhar, na sua opinião e com as conclusões que ele tira. Isso nos dá um aspecto totalmente subjetivo e parcial da narração, e se nem o próprio Bentinho tem certeza do que foi real ou não, imagina o pobre leitor!

É por isso que a obra dá margem para todo o tipo de interpretação, seja a favor ou contra o triângulo principal. Logo no início, notamos como Bentinho foi mimado pela família e cresceu sem muita iniciativa. Por um lado, ele se vê impelido pela vontade da mãe em ir para o seminário, enquanto do outro é um instrumento nas mãos de Capitu para que se casem. Entretanto, já aqui vemos os primeiros sinais de um ciúme que não é saudável.

Ao longo do casamento, ele passa a ser tratado como Santiago, um homem adulto, formado em Direito, pai e marido de Capitu, por quem é loucamente apaixonado. Para ele, a esposa era “tudo e mais do que tudo” e, por isso, alvo do seu ciúme, cada vez mais forte. Já no fim da vida, os seus hábitos são tão reclusos que lhe dão o apelido de Dom Casmurro.

É essa pessoa que nos apresenta tanto Capitu quanto Escobar. Ele nos conta que já na infância Capitu era esperta, astuta e determinada no que queria. Os planos para tirá-lo do seminário vinham dela, que não media esforços para realizar cada um. Boa parte da sua visão em relação à amada vem de José Dias, o “agregado” que vivia na casa da família. É ele quem diz que a menina é manipuladora e tem “olhos de cigana oblíqua e dissimulada”. Bentinho afirma que ela tem os famosos “olhos de ressaca, com uma força que arrastava para dentro”, em referência ao mar.

Desde o início do livro, percebemos que o que Bentinho busca é um tipo de abrigo no passado. Através do livro, ele quer unir a sua infância cheia de sonhos e amor à sua velhice solitária, quem era no passado e quem é no presente. Tanto que ele mesmo diz viver em uma casa que é uma réplica perfeita da casa da sua infância.

Os argumentos que provam que Capitu traiu

Se nós temos algumas dúvidas, Bentinho não tem nenhuma: Capitu o traiu com o seu melhor amigo e ainda teve um filho dele. Ao perceber o modo como Capitu olha para o corpo de Escobar, vêm à tona situações que passaram batidas pela inocência de Bentinho. É como se ele juntasse todas as peças que sempre estiveram lá, só ele (e a gente, provavelmente) não via. 

No episódio das tais libras esterlinas, por exemplo – que no início nem eu tinha entendido direito -, Capitu conta a Bentinho que ela poupou algum dinheiro e Escobar a ajudou a trocar pelas libras esterlinas. Ela diz, então, que o amigo esteve na casa do casal antes de o marido chegar. O protagonista não acha nada demais, porém, depois se dá conta de que essa era uma prova de que a esposa e o amigo, de fato, se encontravam sem ele saber.

Em outro momento, Bentinho vai a um espetáculo de ópera sozinho, já que Capitu não se sente bem. Entretanto, ele decide voltar para casa durante o intervalo e quem encontra na porta de casa? Justamente Escobar! Isso para não falar na semelhança física entre Ezequiel e Escobar, coisa que, nas palavras de Bentinho, nem a própria Capitu esconde, especialmente na fase adulta. Vale lembrar que o casal teve muita dificuldade para engravidar e tentou por anos, o que pode sugerir que Bentinho era estéril e, por isso, não poderia ser o pai de Ezequiel.

Os argumentos que provam que Capitu não traiu

Como falei acima, em nenhum momento ouvimos a versão de Capitu ou Escobar. Apenas Bentinho narra os acontecimentos, e nem ele esconde sentir “ciúmes de tudo e de todos”. Em um capítulo, quando ele e Capitu vão a um baile, ele chega a mandar a esposa esconder os braços e diz que todos que a olhavam, a desejavam. Na discussão sobre a paternidade de Ezequiel, Capitu afirma que nem os defuntos fogem dos ciúmes do marido.

Desse modo, toda a história não passou de imaginação de uma mente adoecida pelo ciúme, que fez parte da vida de Bentinho desde quando era adolescente. Capitu diz que Ezequiel realmente lembra um pouco Escobar, mas isso é natural, afinal, a convivência entre as duas famílias era próxima. Já na fase adulta, quando Dom Casmurro diz que o jovem é tal e qual o amigo, apenas ele diz isso, ou seja, mais uma vez estamos diante de um relato parcial.

E lembra que Casmurro também significa teimoso? Com isso, talvez Machado queria mostrar que quando Bentinho colocava algo na cabeça, não tirava por nada. Ou seja, não importa os argumentos, se ele acredita que o amigo e a esposa o traíram, então está decidido. 

As relações humanas e o papel da mulher em Dom Casmurro

Ao afirmar que desde a infância Capitu se apresentava dissimulada e manipuladora e o amigo tinha um quê de boa lábia, Bentinho nos lança a dúvida se as pessoas são o que são e não podem sair muito desse caminho. No último capítulo ele deixa essa questão clara ao questionar:

O resto é saber se a Capitu da praia da Glória já estava dentro da de Matacavalos, ou se esta foi mudada naquela por efeito de algum caso incidente. Jesus, filho de Sirach, se soubesse dos meus primeiros ciúmes, dir-me-ia, como no seu cap. IX, vers. 1: «Não tenhas ciúmes de tua mulher para que ela não se meta a enganar-te com a malícia que aprender de ti.» Mas eu creio que não, e tu concordarás comigo; se te lembras bem da Capitu menina, hás de reconhecer que uma estava dentro da outra, como a fruta dentro da casca.

Essa questão do caráter duvidoso de Capitu reinou por tanto tempo que várias edições do livro trazem na capa a sua representação com cara de culpada e astuta. A edição da Série Bom Livro mostra, inclusive, Ezequiel com exatamente a mesma cara de Escobar e Capitu com uma face bem estranha. Outras apresentam Capitu em uma versão bem sensualizada, mas a que eu acho mais apelativa é a da editora Martin Claret.

Ou seja, não importava o que Bentinho fizesse ou deixasse de fazer, Capitu iria trai-lo por ser como era. Ainda assim, ele era obcecado por essa mulher e vivia totalmente em função da esposa. Percebe a complexidade dessa relação?

Enquanto isso, Machado de Assis apresenta a elite carioca com os seus comentários ácidos e os seus preconceitos, especialmente em relação aos pobres e às mulheres. E é justamente aí que o autor nos mostra duas mulheres fortes e decididas: Capitu e a mãe de Bentinho. Não é para menos que o protagonista passeia entre as vontades das duas. Com isso, Machado dá um empoderamento à mulher que até então não era comum (lembrem-se de que estamos falando do Brasil do século 19).

Por fim, preciso destacar a escrita de Dom Casmurro, com capítulos curtos e uma linguagem informal. É quase como se o narrador conversasse com a gente e tecesse comentários enquanto lembra dos fatos. Isso torna o livro uma obramuito agradável de ler. Mas eu quero saber de vocês: Capitu traiu ou não traiu Bentinho? E Bentinho traiu ou não traiu a gente, os leitores? Afinal, DOm Casmurro é um livro sobre dúvidas e certezas.

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