A "Pietà do Lixo": descubra a história da escultura em frente ao Palácio Anchieta, em Vitória

Geral

A "Pietà do Lixo": descubra a história da escultura em frente ao Palácio Anchieta, em Vitória

Esculpida pelo artista italiano radicado no Brasil, Carlo Crepaz, a estátua em bronze eterniza a catadora de lixo conhecida como Dona Domingas

Foto: Estêvão Zizzi

O dia a dia é corrido, muitas vezes não observamos os pequenos detalhes. Principalmente, no Centro de Vitória, com a movimentação constante de veículos e pessoas. Talvez, a maior parte dos moradores da Capital nunca tenha notado que em frente ao Palácio Anchieta existe um escultura de bronze, sem nenhuma identificação ou referência. 

A mulher é Dona Domingas, também conhecida como a "Pietà do Lixo", escultura inaugurada na década de 70 pelo artista Carlo Crepaz. A escultura retrata uma mulher negra, corcunda, descalça, que leva um saco nas costas e um cajado nas mãos. Ela era moradora do bairro Santo Antônio, passava o dia todo catando papelão nas ruas e só voltava para casa ao anoitecer.

Foto: Estêvão Zizzi
Dona Domingas no Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro

O escultor Carlos Crepaz, italiano, veio para o Brasil em 1951 e foi morar em Santo Antônio, onde tinha um ateliê próximo a residência de dona Domingas. Ele foi professor da Universidade Federal do Espírito Santos (Ufes) e, com o tempo, fez uma grande amizade com ela e a convenceu de fazer um primeiro busto. 

O escultor fez mais seis estátuas de dona Domingas. Uma delas está no Museu de Belas Artes do Rio de Janeiro desde 1959.

A história da catadora se baseia em conversas com os comerciantes do Centro Vitória, onde era muito conhecida. Geralmente, os comerciantes da Praça Costa Pereira já deixavam as pilhas de papelão separadas para Domingas. Após vender o papelão para reciclagem, ela retornava para casa já anoitecendo. 

Além disso, ela foi inspiração para Estevão Zizzi, escritor que está produzindo uma biografia para dona Domingas e contou como esse interesse surgiu. 

"Quando chegamos em Vitória no ano de 1980, começamos a visitar monumentos históricos colocados em várias praças e ruas que faziam parte do patrimônio cultural, espalhados pela cidade com suas devidas placas e inscrições. Mas um desses monumentos chamou a atenção pelos detalhes dos coques de cabelo, face e vestimenta, quase reais. Tratava-se de uma estátua de uma senhora negra, corcunda, descalça, com um saco nas costas, um cajado na mão direita, trajada com uma roupa preta pesada, de andar lento. Aspecto de uma pessoa sofrida pelos traços faciais, rugas nas mãos e olhos caídos. Estava posta numa das ruas laterais do Palácio Anchieta, sede do governo capixaba", afirmou Estevão. 
Foto: Estêvão Zizzi

Durante o tempo que observou a estátua, Estevão questionou as pessoas que passavam. No entanto, grande parte não sabia quem ela era e chegaram a confundir com o Padre Anchieta e, até mesmo, com São Benedito.

"Enquanto meditávamos, uma senhora que passava na calçada nos interpelou: - O senhor está admirando a estátua de dona Domingas? Prontamente, perguntamos: - A senhora conhece a estátua? Sem vacilar, sorriu e emendou: - Não só a estátua, bem como a dona Domingas. Domingas Felipe e seu nome. Em algumas palavras contou que ela foi catadora de papelão e morava no Bairro de Santo Antônio. Passava o dia a pegar papelão e só voltava para casa ao anoitecer", contou o escritor.

Ainda de acordo com Estevão, essa senhora que reconheceu Domingas disse uma fala que mudou e inspirou a procurar ainda mais pela vida da catadora de papelão.  

"A senhora disse: - Uma pena que não tem uma biografia. Apenas virou esta estátua fria, de bronze e sem vida. Talvez por piedade ou dor na consciência a colocaram aí! Aquelas palavras nos tocou o coração: - Sem biografia...virou estátua fria de bronze e sem vida? Encerramos a conversa e o incômodo permaneceu na mente", lembra. 

A partir daí, o escritor começou a sua busca pela história de dona Domingas. "Iniciei o caminho 'das pedras' para escrever a biografia que deve ser lançada nos próximos 60 dias e mostrará a vida de uma mulher trabalhadora, guerreira, inteligente, com suas qualidades e defeitos, a única catadora de papelão, esculpida em bronze do mundo", finalizou Estevão.