Morte em tirolesa do Morro do Moreno: o que falta ser esclarecido sobre acidente

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Morte em tirolesa do Morro do Moreno: o que falta ser esclarecido sobre acidente

Equipes da Polícia Civil, do Corpo de Bombeiros e do Crea-ES seguem na perícia, vistoria e apuração dos fatos

Foto: Crea ES

A morte do engenheiro João Paulo Sampaio dos Reis, de 47 anos, ocorrida após um acidente na tirolesa no Morro do Moreno, em Vila Velha, continua cercada de dúvidas. O fato aconteceu na tarde do último sábado (1º), enquanto ele passeava com a filha e uma amiga no local. 

Até o momento, não foi informado o que provocou a morte do engenheiro, quantas e quais testemunhas foram ouvidas no caso e nem quando haverá a conclusão do inquérito. Além disso, chama atenção a conduta do bombeiro, que estava no local e que também é sócio da empresa responsável pela tirolesa. 

O caso segue sob investigação da Polícia Civil, que informou que está aguardando o resultado da perícia feita no equipamento e não irá repassar mais detalhes para preservar a apuração do incidente.

Vistorias

Além Polícia Civil, o Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Espírito Santo (Crea-ES) segue na vistoria e apuração dos fatos. Nesta terça-feira (04), o órgão informou que vai entrar em contato com a Polícia Civil e com o Corpo de Bombeiros para realizar um cruzamento de informações entre os órgãos. A previsão é de que as atividades do Conselho no caso prossigam durante a semana.

O engenheiro do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Espírito Santo (Crea-ES), Giuliano Basttiti, responsável pelo acompanhamento do caso, descreveu que o local é de difícil acesso e explicou o mecanismo de todo o trajeto da tirolesa.

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Segundo ele, há dois lances com duas bases. A primeira base é a inicial, na qual a pessoa coloca os equipamentos e faz a partida. Ela tem 100 metros de comprimento até a segunda base e, toda a velocidade, é controlada pelo instrutor que fica na base, ou seja, de forma manual.

Já no segundo lance, que  pega a segunda e terceira base (destino final), a velocidade é controlada pelo sistema de frenagem automática. A velocidade média é de 35 km por hora e são 400 metros de extensão.

Foto: Reprodução/Facebook

"Pelo que levantamos até agora e segundo testemunhas, ele atingiu a segunda base. Parou para a ancoragem e foi para a segunda parte (segundo lance), onde tem um sistema de molas e amortecimento" explicou Giuliano.

O engenheiro do Crea disse que os equipamentos de frenagem foram retirados para perícia da Polícia Civil, então não foi possível analisá-los no local. Giuliano alertou do perigo de se ter apenas uma opção de segurança.

"O operador fica em um lugar alto, exposto a situações de estresse, sol, chuva, pode ter um desmaio ou um mal súbito. Na engenharia de segurança não se pode deixar na mão de uma pessoa apenas, pois podem acontecer falhas", frisou.

Giuliano chamou a atenção para a necessidade das empresas do ramo de atividades físicas de aventura repensarem a segurança dos seus equipamentos e redobrarem a atenção.

Bombeiro investigado e cena do acidente alterada

Um cabo do Corpo de Bombeiros será investigado pela corporação, de acordo com nota enviada pelo Corpo de Bombeiros Militar do Espírito Santo (CBMES) na noite de domingo. Ele é sócio da empresa Eco Vertical, responsável pela tirolesa no Morro do Moreno. Além disso, a participação de um outro cabo também está sendo investigada. 

Em nota, o Corpo de Bombeiros Militar informa que a Lei Estadual nº 3.196 permite que os militares desempenhem atividade empresarial, desde que seja como sócio cotista, o que é compatível com a atividade dos militares nesta empresa. A Polícia Civil é responsável pela investigação das circunstâncias do fato e, paralelamente, a Corregedoria do Corpo de Bombeiros vai instaurar Procedimento Administrativo Disciplinar para apurar a condutas dos militares no local do fato.  

A TV Vitória/Record TV, apurou que o local do acidente foi alterado pelos responsáveis, que retiraram os equipamentos do corpo da vítima antes da chegada da polícia. A informação foi obtida junto aos bombeiros. Além disso, o capacete utilizado por Reis também não foi encontrado. Segundo policiais militares, o cabo se negou a apresentar o equipamento que havia retirado. Eles prestaram depoimento no Departamento de Polícia Judiciária de Vila Velha e foram liberados.

O Corpo de Bombeiros, por meio de nota, esclareceu que o militar sócio do empreendimento não estava a serviço no momento do acidente e sua conduta será apurada no inquérito policial a ser instaurado pela Polícia Civil, responsável pela apuração das causas do acidente. "Caso a apuração dos fatos venha a indicar descumprimento das normas de conduta dos Bombeiros Militares, as providências cabíveis serão adotadas", conclui.

O cabo do Corpo de Bombeiros também foi procurado pela reportagem do jornal Folha Vitória, mas não retornou o contato.  

Donos da empresa se manifestam

Na segunda-feira (03), um dos donos da empresa responsável pela tirolesa do Morro do Moreno se pronunciou pela primeira vez. O empresário Alex Magnago e a advogada, Lucinéia Vinco, concederam uma entrevista para a TV Vitória/Record TV.

A empresa é composta por três sócios, que buscam entender o que de fato aconteceu para provocar o acidente. "Da mesma forma que a família quer informações, nós também. É lastimável, é uma vida, um pai de família, a mesma coisa que eles querem nós também queremos. Tivemos milhares de descida nesses dois anos de funcionamento", disse Alex Magno.

Após o acidente o Corpo de Bombeiros esteve no local e uma perícia da Polícia Civil foi realizada. No primeiro momento, a informação era que o freio da tirolesa poderia não ter funcionado. Mas o sócio explicou como funciona o sistema onde João Paulo morreu. Segundo ele, é um rapel guiado, com um o sistema de freios semelhante ao do rapel.

"Mesmo a pessoa tendo habilidade para esse tipo de atividade, tem uma outra para fazer a segurança do participante, para que caso ele tenha um surto, desmaio ou solte sem querer, um profissional fica embaixo para assegurar a descida" explicou Alex.

Ele esclareceu ainda que a tirolesa tem essa proteção chamada de "anjo". "As pessoas vão pelo cabo de aço, mas é controlado. O senhor João Paulo, infelizmente não chegou no sistema de freio ABS", disse.

Passeio em família

Reis decidiu passar o feriado do Dia do Trabalho junto com a filha de 14 anos e uma amiga dela. Testemunhas disseram para o Corpo de Bombeiros que as duas adolescentes desceram a tirolesa antes do engenheiro e que, só mais tarde, souberam o que havia acontecido.

A vítima era engenheiro, mas trabalhava como despachante junto a Polícia Federal e ao Exército. Ele era casado e deixa dois filhos: além da adolescente de 14 anos, um menino de 8.

Vídeo gravado antes do acidente

Um vídeo gravado minutos antes do acidente que matou o engenheiro mostra os últimos momentos da vítima. As imagens, registradas por ele, mostram a descida das duas jovens que o acompanhavam no passeio, a filha e uma amiga.

Durante a gravação, enquanto uma das meninas se preparava para descer, João Paulo questiona ao instrutor se haveria risco da tirolesa 'ir direto'. O funcionário diz que isso é "impossível", explicando o funcionamento do sistema. "Aqui quem freia sou eu. No outro tem (sistema de freio). Está tranquilo", afirmou.

Licença ambiental

Procurada, a Prefeitura de Vila Velha afirmou que o local é privado e os responsáveis devem ser questionados sobre operação no local e as condições do equipamento, instalado em área particular. Segundo o órgão, a tirolesa possui licença ambiental para funcionar e que esta é a única de responsabilidade do Município.