Caso Milena Gottardi: condenados terão de pagar indenização de R$ 700 mil à família da médica

JULGAMENTO DO CASO MILENA GOTTARDI

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Caso Milena Gottardi: condenados terão de pagar indenização de R$ 700 mil à família da médica

Todos os seis acusados de envolvimento no assassinato da médica foram condenados nesta segunda-feira, último dia do júri sobre o caso

Foto: Reprodução TV Vitória

Os seis réus condenados por envolvimento no assassinato da médica Milena Gottardi terão de pagar uma indenização coletiva de R$ 700 mil aos familiares da vítima. A decisão é do juiz Marcos Pereira Sanches, titular da 1ª Vara Criminal de Vitória, que presidiu o júri popular sobre o caso.

A sentença do júri, determinando a pena de cada condenado, foi lida pelo magistrado na noite desta segunda-feira (30), oitava dia do julgamento.

O ex-marido de Milena, Hilário Frasson, e o pai dele, Esperidião Frasson, foram condenados a 30 anos de prisão, cada um. 

De acordo com o juiz, Hilário foi o principal responsável pelo crime. Além disso, segundo o magistrado, era um agente da lei — atuava como policial civil na época — e, dessa forma, deveria combater o crime e não praticá-lo.

Marcos Pereira Sanches destacou ainda que o acusado era influente entre pessoas poderosas e fazia "negociações espúrias". Disse ainda que Hilário possui "personalidade desajustada, sem compaixão com a vida da sua própria esposa e mãe de suas próprias filhas".

"São consequências incalculáveis para as filhas que ficaram sem mãe, além da dor intensa da própria mãe da vítima. Acrescento também a conduta do acusado: além de deixar as filhas sem mãe, destruiu nelas a sua própria figura de pai", completou o magistrado.

Além disso, o juiz determinou a perda do cargo público para Hilário — ele já havia sido expulso da Polícia Civil no ano passado. Também decidiu pela perda definitiva da guarda das filhas, que atualmente estão com o irmão de Milena, Douglas Gottardi Tonini.

Já no caso de Esperidião, segundo o magistrado, ficou comprovado que ele participou do crime. Para Sanches, a acusação contra o réu é grave, já que se tratava do sogro da vítima e pai do outro mandante e, dessa forma, poderia demovê-lo da ideia de assassinar a médica.

"Acobertou o crime e agiu para a sua cruel execução. O acusado é uma pessoa temida na região. Personalidade maldosa, sem compaixão com a sua nora e mãe de suas próprias netas", destacou o magistrado.

Executor confesso do assassinato de Milena, Dionathas Alves Vieira foi condenado, inicialmente, a 28 anos e oito meses de prisão. No entanto, no entendimento do juiz, Dionathas confessou o crime e colaborou com a Justiça para a elucidação do crime. Por causa disso, sua pena foi reduzida em dez anos, passando para 18 anos e oito meses.

Bruno Broetto, acusado de ter fornecido a moto para Dionathas cometer o crime, teve a culpabilidade reconhecida e foi condenado a 10 anos e cinco dias de reclusão. Segundo o juiz, o acusado sabia que a moto seria utilizada para um crime e entregou uma motocicleta irregular ao outro réu.

Valcir da Silva Dias e Hermenegildo Palauro Filho, acusados de intermediar o crime, foram condenado a 26 anos e 10 meses de reclusão, cada um. Segundo o magistrado, Valcir foi o principal intermediário e participou de todas as tratativas do crime, além de ter contato com o executor do crime antes, durante e depois. Por fraude processual, foi condenado também a 10 meses de reclusão.

Julgamento durou oito dias

O julgamento do caso começou na última segunda-feira (23) e durou oito dias. Nas primeiras sessões, foram ouvidas as testemunhas de acusação e as de defesa, incluindo o delegado que investigou o caso, Janderson Lube, e o irmão de Milena, Douglas Gottardi.

A partir de sexta-feira (27), os réus começaram a ser interrogados no salão do júri. O último a depor foi Hilário Frasson, que foi interrogado no sábado à noite. Já o domingo (29) e esta segunda foram dedicados aos debates entre defesa e acusação e a apresentação das provas incluídas no processo.

Foto: Iures Wagmaker / Folha Vitória

Antes do início dos trabalhos do primeiro dia, o juiz que presidiu o júri, Marcos Pereira Sanches, informou que um dos advogados de defesa pediu o desmembramento do caso, para que os réus fossem julgados em separado. No entanto, o pedido foi negado. Assim, todos eles foram julgados juntos.

O júri foi composto por quatro mulheres e três homens. A definição do corpo de jurados não foi nada tranquila no momento do sorteio.

Dez mulheres foram recusadas pelos advogados de defesa. Houve ainda três recusas de homens. Os promotores do Ministério Público Estadual aceitaram a justificativa de um homem que não quis participar.

Houve ainda duas dispensas, pois uma mulher tinha um familiar envolvido no processo e outra foi dispensada por problemas médicos.

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Relembre o assassinato de Milena Gottardi

O assassinato de Milena Gottardi aconteceu na noite do dia 14 de setembro de 2017 e ganhou grande repercussão no Espírito Santo. A vítima atuava como pediatra oncológica no Hospital das Clínicas, em Maruípe, Vitória.

Quando saía de um plantão, acompanhada de uma amiga, a médica foi abordada, no estacionamento do hospital, por um homem armado, que chegou a anunciar um assalto.

Foto: TV Vitória

Milena e a amiga chegaram a entregar os pertences ao suposto assaltante. Quando elas se dirigiam ao carro, o criminoso atirou em direção à pediatra, atingindo ela na cabeça e na perna, e fugindo posteriormente. A médica foi socorrida e internada em um hospital, mas morreu no dia seguinte.

A Polícia Civil agiu rápido e, dois dias após a médica ser baleada, dois suspeitos de envolvimento no crime foram detidos: Dionathas Alves Vieira, acusado de ser o executor do crime, e Bruno Rodrigues Broetto, apontado pela polícia como o responsável por conseguir a moto utilizada por Dionathas no dia do assassinato.

A prisão dos suspeitos aconteceu praticamente ao mesmo tempo em que o corpo de Milena era sepultado em Fundão, município onde a médica nasceu e foi criada, e onde grande parte de sua família ainda mora.

Com a prisão da dupla, a polícia começou a desvendar o crime e provar que Milena não havia sido vítima de um latrocínio — como fez parecer o autor dos disparos — mas sim de um crime de mando. Faltava, no entanto, chegar aos mentores do assassinato.

Para conseguir as provas necessárias, a Polícia Civil conseguiu, junto à Justiça, que as investigações corressem sob sigilo. Isso porque o principal suspeito de encomendar a morte de Milena era o ex-marido dela, o então policial civil Hilário Antônio Fiorot Frasson, que atuava como assessor técnico do gabinete do Chefe da PC, Guilherme Daré.

A ideia da Secretaria de Estado da Justiça (Sesp) era justamente impedir que Hilário tivesse acesso às provas obtidas pela Delegacia Especializada em Homicídios Contra a Mulher (DHPM), que conduzia o inquérito.

A prisão de Hilário aconteceu no dia 21 de setembro, exatamente uma semana depois do assassinato de Milena. Ele foi preso na Chefatura da Polícia Civil e encaminhado para um anexo da Delegacia de Novo México, em Vila Velha, onde ficam os policiais civis que são presos.

Mais cedo, no mesmo dia, a polícia havia prendido o pai dele, Esperidião Carlos Frasson, apontado como o outro mandante do crime, e Valcir da Silva Dias, acusado de ser um dos intermediadores do assassinato.

Segundo a polícia, o outro intermediador foi Hermenegildo Palauro Filho, o Judinho, que foi preso no dia 25 de setembro.

Todos os seis suspeitos de envolvimento no assassinato de Milena Gottardi foram autuados pela Polícia Civil, que concluiu o inquérito referente ao crime no dia 18 de outubro de 2017. O inquérito foi encaminhado ao Ministério Público Estadual (MPES), que, no dia 27 de outubro, denunciou os seis indiciados à Justiça.

A denúncia foi aceita no dia 1º de novembro daquele ano pelo juiz da 1ª Vara Criminal de Vitória, Marcos Pereira Sanches, que decretou a prisão preventiva dos seis acusados — que até então cumpriam prisão temporária.

Hilário, Esperidião, Valcir, Hermenegildo e Dionathas foram denunciados pelos crimes de homicídio qualificado, feminicídio e fraude processual. Já Bruno responde pelo crime de feminicídio.

Entenda a participação de cada réu no caso

As investigações concluíram que Hilário e Esperidião encomendaram o assassinato de Milena Gottardi por não aceitarem o fim do casamento entre ela e o então policial civil. Para isso, eles teriam contratado Valcir e Hermenegildo para dar suporte ao crime e encontrar um executor.

Ainda segundo a polícia, Dionathas Alves foi o escolhido para executar o "serviço" — como os envolvidos se referiam ao assassinato da médica. Para isso, ele receberia uma recompensa de R$ 2 mil. 

Foto: Arte/ Júlio Lopes

Dionathas teria usado uma moto, repassada a ele pelo cunhado Bruno, para seguir de Fundão até Vitória e matar Milena.

O veículo foi apreendido em uma fazenda em Fundão, no mesmo dia em que Dionathas e Bruno foram presos. O executor confesso do assassinato disse à polícia que o crime foi planejado durante cerca de 25 dias.

O inquérito, no entanto, aponta que o planejamento do homicídio começou pelo menos dois meses antes do crime. Segundo as investigações, os seis acusados de envolvimento na morte de Milena Gottardi trocaram 1.230 ligações e formaram uma rede de comunicação antes e após o crime.

Depoimentos de quatro suspeitos de envolvimento do crime detalharam como foi o planejamento do assassinato da médica.

De acordo com informações da Secretaria de Estado da Justiça, Hilário Frasson está preso na Penitenciária de Segurança Média I; Esperidião Frasson, no Centro de Detenção Provisória de Viana II; Valcir, no Centro de Detenção Provisória de Vila Velha; Hermenegildo, no Centro de Detenção Provisória da Serra; e Dionathas e Bruno, no Centro de Detenção Provisória de Guarapari.