Dionathas diz que foi pressionado para matar Milena Gottardi 'o quanto antes'

JULGAMENTO DO CASO MILENA GOTTARDI

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Dionathas diz que foi pressionado para matar Milena Gottardi 'o quanto antes'

Executor confesso da médica disse que Valcir da Silva Dias teria começado a pressioná-lo, afirmando que ele deveria cometer o crime logo, porque a pessoa que havia encomendado o assassinato estava impaciente

Rodrigo Araújo e Marcelo Pereira

Redação Folha Vitória
Foto: Divulgação
Segundo Dionathas, Valcir o pressionou a matar Milena Gottardi logo, já que Hilário tinha pressa

Assassino confesso da médica Milena Gottardi, Dionathas Alves Vieira afirmou que foi pressionado para cometer o crime "o quanto antes". A declaração foi dada nesta sexta-feira (27), durante interrogatório no júri popular dos seis réus acusados de participação no homicídio.

Dionathas afirmou que foi contactado por Valcir da Silva Dias, apontado pelo Ministério Público Estadual (MPES) como um dos intermediários do crime, para que saber se ele poderia matar uma mulher. Na época, ele trabalhava como ajudante de pedreiro em uma obra no bairro Maria Ortiz, em Vitória.

O rapaz disse que aceitava o serviço e, alguns dias depois, Valcir teria começado a pressioná-lo, afirmando que ele deveria cometer o crime logo, porque a pessoa que havia encomendado o assassinato estava impaciente.

A pessoa em questão, segundo o interrogado, era o ex-policial civil Hilário Frasson, que na época estava em processo de separação com Milena Gottardi. Além dele, Esperidião Frasson, pai de Hilário, é apontado pelo MPES como mandante do crime.

Ainda segundo Dionathas, Valcir dizia que o tal homem que havia encomendado a morte de Milena chorava muito e dizia que precisava que o rapaz fizesse o serviço logo. O executor do crime, no entanto, disse que eles precisariam esperar mais um pouco.

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O rapaz contou que foi procurado para matar Milena Gottardi cerca de dois meses antes do crime ser cometido. A médica foi baleada no estacionamento do Hospital das Clínicas, em Vitória, no dia 14 de setembro de 2017.

Dionathas disse que, para cometer o crime, os intermediários lhe ofereceram R$ 2 mil. Além disso, segundo o rapaz, a orientação era para que ele anunciasse um assalto, para a polícia acreditar que se tratava de um latrocínio — roubo com morte.

Dionathas relata detalhes do assassinato de Milena Gottardi

O autor confesso do assassinato da médica também contou detalhes do dia em que Milena foi baleada — ela morreu no dia seguinte, dia 15 de setembro. Ele disse que, na manhã do dia 14, foi a Timbuí, em Fundão, pegar a moto que seria utilizada no crime. 

Segundo ele, o veículo estava no sítio de Hermenegildo Palauro Filho, o "Judinho", acusado de intermediar o crime, e foi entregue pelo próprio dono do sítio. Em seguida, o rapaz voltou para Vitória e foi trabalhar.

Foto: Reprodução
Milena Gottardi foi assassinada no estacionamento do Hospital das Clínicas, em Vitória

Ele conta que, por volta das 18 horas, pegou a moto e seguiu para o Hospital das Clínicas, onde encontrou, logo na entrada, o carro onde estava Valcir e Judinho. Segundo o réu, eles abaixaram o vidro, fizeram um sinal e ele entrou no veículo.

No local, os dois perguntaram se Dionathas estava tranquilo e ele disse que sim. Em seguida, Judinho, que estava no banco do carona, teria entregado a ele a arma utilizada no crime. Ela estava guardada em uma meia.

Dionathas disse também que não tinha visto nenhuma foto de Milena Gottardi antes do crime. Ele teria recebido as características da vítima por meio de Valcir. O intermediário disse a Dionathas que a vítima era uma mulher alta, que estaria de jaleco branco e salto.

O rapaz lembra que ficou com medo de "errar a vítima". Segundo ele, para evitar uma confusão, Judinho colocou um galho de árvore na frente do carro de Milena.

O acusado contou que ficou embaixo de um refletor, esperando a médica. Em determinado momento, o rapaz viu duas mulheres passarem por ele, sendo que uma delas tinha as mesmas características que haviam lhe passado.

Dionathas disse que, logo depois, ouviu o barulho do alarme do carro e viu Milena guardando alguma coisa no porta-malas. "Eles falaram que eu deveria anunciar assalto e pegar o telefone dela, e depois jogar o telefone dela fora", relatou.

O executor disse que fez como combinado e anunciou o assalto. Segundo ele, a outra mulher, que estava sem jaleco, se assustou. Em seguida, ele atirou contra Milena — Dionathas disse que não se lembra se foram dois ou três disparos.

"Eu fiquei cego e só percebi que disparei. Tirei a arma da cintura e disparei, mas não vi pra onde atirei", contou.

Celular da médica foi jogado no meio da rua

Em seguida, Dionathas pegou o celular da vítima, subiu na moto e saiu disparado, em direção a Maria Ortiz. O rapaz conta que, no desespero, jogou o aparelho no meio da rua, nas proximidades do Quartel da Polícia Militar, em Maruípe.

Já a moto, o executor disse que a abandonou próximo à rotatória de Maria Ortiz, que dá acesso ao aeroporto de Vitória. De lá, ele conta que seguiu para a casa de uma tia, no mesmo bairro, onde passou a noite.

A arma ficou com Dionathas, que disse que precisou disfarçar o objeto. "Eu dormi na casa da minha tia com a arma do crime. Na hora, eu escondi a arma. Na sexta (dia seguinte), eles (Valcir e Judinho) me ligaram e disseram para não perder o 'bondinho', que era a arma", contou.

No dia seguinte, o rapaz seguiu para Timbuí, onde entregou a arma para Valcir. Na ocasião, o acusado de ser o intermediário do crime disse que o retrato-falado do suspeito de matar a médica já tinha sido divulgado.

"No celular, eu vi a foto que estavam divulgando. Não tinha muita semelhança comigo", lembra.

Dionathas conta que foi orientado pelos dois acusados a fugir para Minas Gerais, mas se negou e preferiu ficar na casa da mãe. Ele foi preso pela Polícia Civil em Timbuí.

"No primeiro momento, eu neguei, mas depois assumi. Eu tinha errado, mas queria colaborar com a polícia, por Deus. Porque eu vi que ali já não tinha mais jeito", afirmou.

Encontro com Hilário

Dionathas afirmou que, antes do crime, só teve contato com Hilário uma única vez. O encontro aconteceu em um posto de combustíveis em Laranjeiras, na Serra.

Foto: Reprodução
Dionathas disse que, antes do crime, só encontrou Hilário uma única vez, em Laranjeiras, na Serra

Na ocasião, o rapaz seguia de carro, junto com Valcir, da Serra para Fundão. Na altura de Planalto Serrano, o celular de Valcir tocou e os dois voltaram para Laranjeiras.

No posto de combustíveis, os dois se encontraram com Hilário, que estava em uma caminhonete branca. Inicialmente, o então policial civil ficou conversando com Valcir, mas depois pediu para Dionathas entrar no veículo.

"Abri a porta e vi no banco de trás um colete com a logo da Polícia Civil. Eu fiquei assustado, mas Hilário falou para eu ficar tranquilo. Disse 'polícia aqui não prende. Polícia aqui somos nós'", contou.

Hilário havia instalado rastreador no carro de Milena

Em determinado momento, Dionathas percebeu uma "luzinha" no console do carro. Segundo ele, era o celular de Hilário, que teria instalado um rastreador no carro de Milena, para monitorar a vítima.

"Ele disse: 'aqui, Valcir, ela está passando na rua tal. Ela está saindo para buscar as meninas na escola e vai voltar para bater ponto'. Ele mostrou para o Valcir e vi que era um rastreador no carro da Milena. Aí ele botou o telefone de volta no console", relatou.

Ao ser questionado se, nessa conversa no carro, Hilário falou sobre o assassinato de Milena, Dionathas confirmou que sim. "Ele disse que tinha que descansar 'essa filha da puta', porque tudo o que ela conseguiu foi ele que ajudou".

Informações preciosas

O advogado Leonardo da Rocha Souza, que defende Dionathas e Bruno Rodrigues Broetto, apontado como o responsável por conseguir a moto utilizada no dia do assassinato, avaliou positivamente o depoimento de Dionathas e destacou que o cliente fez questão de falar toda a verdade sobre os fatos.

"O Dionathas, além de assumir sua responsabilidade e de trazer detalhes de como aconteceu esse bárbaro crime, também trouxe informações preciosas sobre a participação de cada um dos acusados. Informações essas que foram devidamente corroboradas com todas as outras provas constantes no processo, as provas técnicas", frisou.

Foto: Marcelo Pereira / Folha Vitória

Leonardo admite que não pedirá a absolvição do réu, mas ressalta que o fato dele ter falado somente a verdade pode o beneficiar na sentença.

"Na opinião da defesa, no depoimento do Dionathas ficou muito claro para os senhores jurados que ele está aqui para falar a verdade. E a verdade será importante para ele, porque quando chegar no dia da sustentação, o que a defesa virá pedir não será absolvição ou clemência, mas vai pedir única e exclusivamente que ele seja julgado dentro dos limites daquilo que a lei brasileira prevê para casos graves como esse", finalizou.

Quem são os réus do processo

Hilário Frasson - ex-marido da médica e ex-policial civil

Esperidião Frasson - ex-sogro da vítima

Valcir da Silva Dias e Hermenegildo Palauro Filho - acusados de serem intermediadores do assassinato

Dionathas Alves Vieira - acusado de ser o executor do crime

Bruno Rodrigues Broetto - apontado como o responsável por conseguir a moto utilizada no dia do assassinato

Entenda a participação de cada réu no caso

As investigações concluíram que Hilário e Esperidião encomendaram o assassinato de Milena Gottardi por não aceitarem o fim do casamento entre ela e o então policial civil.

Para isso, eles teriam contratado Valcir e Hermenegildo para dar suporte ao crime e encontrar um executor.

Ainda segundo a polícia, Dionathas Alves foi o escolhido para executar o "serviço" — como os envolvidos se referiam ao assassinato da médica. Para isso, ele receberia uma recompensa de R$ 2 mil.

Foto: Arte/Julio Lopes

Dionathas teria usado uma moto, roubada pelo cunhado Bruno, para seguir de Fundão até Vitória e matar Milena.

O veículo foi apreendido em uma fazenda em Fundão, no mesmo dia em que Dionathas e Bruno foram presos. O executor confesso do assassinato disse à polícia que o crime foi planejado durante cerca de 25 dias.

O inquérito, no entanto, aponta que o planejamento do homicídio começou pelo menos dois meses antes do crime. Segundo as investigações, os seis acusados de envolvimento na morte de Milena Gottardi trocaram 1.230 ligações e formaram uma rede de comunicação antes e após o crime.

Depoimentos de quatro suspeitos de envolvimento do crime detalharam como foi o planejamento do assassinato da médica.

De acordo com informações da Secretaria de Estado da Justiça, Hilário Frasson está preso na Penitenciária de Segurança Média I; Esperidião Frasson, no Centro de Detenção Provisória de Viana II; Valcir, no Centro de Detenção Provisória de Vila Velha; Hermenegildo, no Centro de Detenção Provisória da Serra; e Dionathas e Bruno, no Centro de Detenção Provisória de Guarapari.

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