Em época de racionamento, condomínios são os grandes vilões da economia de água

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Em época de racionamento, condomínios são os grandes vilões da economia de água

Marco Aurélio Teixeira

Marco Aurélio Teixeira Foto: Divulgação

Como consequência de uma das piores secas de sua história, que já persiste há quase três anos, mais de 20 cidades do Espírito Santo têm adotado o racionamento de água.

Na semana passada, a Grande Vitória passou a engrossar esse time, ao ser decretado pelo governo do Estado rodízio de distribuição de água. Em cada dia da semana, uma determinada região de Vitória, Vila Velha, Fundão, Serra, Cariacica ou Viana ficará sem abastecimento por 24 horas.

Para comentar a grave situação, e informar medidas que podem ser tomadas pelos consumidores para tentar amenizar o problema, o Folha Vitória conversou com Marco Aurélio Teixeira, especialista em gestão hídrica, que apontou os condomínios como um dos grandes vilões da economia de água. 

Confira a entrevista na íntegra:

Folha Vitória: Aparentemente, a ficha da população sobre a necessidade de economizar água não caiu. Esse seria um dos motivos do início do racionamento de água na Grande Vitória, segundo o governo do Estado. O senhor concorda?
Marco Aurélio Teixeira: A gente fala que sem energia e sem gás qualquer um sobrevive, sem água não.  Sempre escutei que a água é infinita e barata, mas nossa realidade é outra. Estamos longe de ter respeito pela natureza e hoje pagamos o preço por muita coisa que foi feita. Começamos a sentir as consequências. Acho inclusive que esse processo de escassez está se abreviando, porque falavam em 2050 e tem acontecido muita coisa antes do tempo. 

FV: Refere-se à escassez de água para a população?
MA: Sim. Essas crises hídricas recentes, como a de São Paulo que passou e agora no Espírito Santo, mostram isso. E não é porque passou em São Paulo, por exemplo, que podemos abrir mão de economizar. Mas nunca é tarde para correr atrás e tentar atrasar esse desastre por mais tempo. Se há um lado bom dessa crise é fazer um alerta à população de que abra os olhos e cuide porque pode piorar. Antes da crise víamos pessoas lavando calçada com a mangueira. Hoje dificilmente se vê isso. 

FV: O senhor defende a medição individualizada de água em condomínios, que foi inclusive objeto de uma lei federal aprovada em julho. Por meio dela, a partir de 2021 será obrigatório aos condomínios a presença desse tipo de cronometragem. Por quê essa defesa?
MA: O consumo individual de energia elétrica já é cultural. As pessoas não sabem nem onde estão os medidores dentro do prédio, mas sabem o seu consumo por meio da conta. É isso que está ocorrendo agora com a água e o mercado já começa a se preparar para essa nova realidade. Além disso, os vilões que não conseguiram colaborar com a crise hídrica em São Paulo foram os condomínios. Porque eles, na concepção anterior da construção civil, não previam individualização do consumo. De 8 a 10 anos para cá o cenário mudou e as boas construtoras já vem individualizando, que é um caminho sem volta. Ninguém quer pagar a conta do vizinho. A partir do momento em que você individualiza e dói no bolso aquele banho de meia hora, começa a repensar seu conceito. A crise, de forma geral, ajuda a repensar o consumo consciente. 

FV: Por que mais os condomínios seriam um grande vilão no consumo de água?
MA: Nos prédios, em função da alta pressão vertical, o desperdício é grande. Em uma casa temos de quatro a seis litros de água por vazão nos chuveiros. Em apartamentos já encontrei duchas que desperdiçam 30 litros por vazão. Então é importante que tenhamos em mente que o vilão da água em casa é o banho, por isso devemos nos atentar ao tempo que levamos nele. 

FV: Quais medidas o consumidor pode tomar para amenizar esse desperdício?
MA: Mesmo que não se mude as duchas, é bom comprar um regulador de vazão, que permite em média a saída de oito litros por minuto, o que gera uma eficiência muito grande. Outra preocupação que se tem de ter é ficar de olho nas caixas acopladas do vaso sanitário, que têm aquela boia plástica que costuma desregular e a água fica correndo 24 horas por dia e o consumidor não vê. Quase que 100% dos vazamentos ocorrem nessa caixa acoplada. Os demais vazamentos você percebe se o vizinho reclamar ou se ver a parede manchada.

FV: Diferentemente dos outros Estados do Sudeste, no Espírito Santo ainda não há reservatórios de água, que agora começam a ser uma preocupação do governo. O senhor considera que eles são uma boa medida?
MA: Sim, pois se só dependermos dos rios estaremos drenando os recursos que temos. É importante não só os reservatórios, mas a captação e o reuso. Em alguns países a água consumida já passou pelo ciclo de reciclagem de três a quatro vezes. É muito importante represar e tratar o que a gente está economizando hoje. Já existem soluções que permitem ao consumidor saber quantos litros de água está consumindo e as mudanças que pode fazer para ter retorno de economia. 

FV: E nas empresas, quais medidas podem ser tomadas?
MA: Em função de selo verde e outros benefícios, as empresas têm buscado mais eficiência. Há uma preocupação atual de poder setorizar o consumo dentro de sua para identificar onde está tendo um gasto maior de água e saber que atitude tomar a partir da identificação das perdas. As empresas também devem investir em mecanismos existentes para captação e reuso, ainda que seja para utilizar essa água em limpeza de área comum.