'É uma responsabilidade de toda a sociedade', diz psicóloga do ES sobre luta contra abuso infantil

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'É uma responsabilidade de toda a sociedade', diz psicóloga do ES sobre luta contra abuso infantil

Fernanda Freitas

Foto: Divulgação

De acordo com dados da Secretaria Municipal de Saúde de Vitória, o número de casos de abuso infantil aumentou 41% nos últimos quatro anos. Somente em 2016 foram 148 casos registrados, bem acima dos 87 de 2013, praticados contra crianças e adolescentes de 0 a 19 anos. 

Os números põem o abuso sexual como 2º tipo de violência mais frequente na cidade, dentre outros tipos. Num total de 516 registros de violências em 2016, em primeiro lugar ficou a física, sendo 195 ocorrências e, logo depois, o abuso.

Diante de dados alarmantes como esses, fica o questionamento sobre os reflexos psicológicos para a vida de uma pessoa que sofre ou já sofreu esse tipo de violência. Para falar um pouco sobre o assunto, o jornal online Folha Vitória conversou com a professora e psicóloga, Fernanda Freitas.

A profissional também comentou sobre os cuidados que as famílias precisam ter para abordar esse assunto aos poucos com a criança, na tentativa de evitar que ela seja vítima da pedofilia. 

É importante frisar que todos podem denunciar qualquer suspeita de pedofilia ou abuso sexual por meio dos telefones 100 e 181. Confira a entrevista completa.

Folha Vitória: Quais os reflexos psicológicos podem acontecer na vida de quem foi vítima de abuso infantil?
Fernanda Freitas:
Podem existir vários reflexos e determinadas consequências podem ser físicas ou psicológicas. As físicas são sinais que servem para identificar que houve o abuso. Vale ressaltar que pedofilia é diferente de violência sexual. Não é só o pedófilo que abusa de crianças. A violência sexual  e física podem deixar sinais como hemorragias na parte genital ou retal, dor ao urinar, genitais inchados, infecções relacionadas à prática. Também podem haver a mudança no comportamento, como uma alteração súbita de humor, o padrão de sono pode ficar alterado, aparecem medos que não existiam antes. Alguns hábitos que a criança já havia deixado também podem voltar a aparecer, como chupar dedo, chorar em excesso, dificuldades para dormir sozinha, retração frente à pessoas adultas. Ela também pode passar a ter um comportamento mais agressivo e até apresentar um conhecimento sexual que não é comum para a idade dela.

F.V: Algum sinal pode indicar que alguém está sendo vítima de abuso?
F.F:
Além destes já citados, a criança também pode passar por mudanças emocionais de insegurança, não aceitar contato físico, não querer tomar banho para não ter que tirar a roupa. Passam a ter sentimentos de culpa, autodesvalorização, perda no contato do amor próprio, diminuição da alegria, sentimentos contraditórios por pessoas, fazendo com que ela possa amar muito uma pessoa e, ao mesmo tempo, passar a odiar. A criança que sofre um abuso sofre uma interrupção do vínculo com o adulto, de quem ela precisa de orientação e proteção, mas passam a ter medo. Infelizmente, boa parte dos casos de abuso são de pessoas que a criança conhece. Uma pessoa por quem ela tinha uma relação de afeto, passa a ser sinônimo de desespero.

F.V: Quais tratamentos psicológicos podem ser adotados para quem foi vítima de abusos?
F.F:
Várias coisas são indicadas. Primeiro que ela tem que ser tirada do convívio do agressor, pois não adianta ter um tratamento e manter o violentador por perto. A criança precisa de um acompanhamento psicológico e, muitas vezes, até de um médico para saber lidar melhor com essas condições. Toda a família precisa passar por esse acompanhamento. Os impactos atingem todas as pessoas que convivem com ela e os familiares precisam saber o que fazer, pois podem se sentir culpados pelo que acontece e é importante saber quais as melhores formas para continuar protegendo a criança.

F.V: Como e quando os pais podem tratar desse assunto com os filhos?
F.F:
A temática é extremamente complexa para se tratar com uma criança. É importante que, desde muito cedo ela seja ensinada a cuidar de si mesma, deixar claro para ela que 'esse corpinho é seu, você deve tratar com carinho e não deixar ninguém que você não conheça pegue nele se você não quiser'. O abusador dificilmente chega de maneira agressiva. Ele chega com coisas para ganhar a confiança da criança e vai com calma passando a mão. Esse gesto a criança não vai interpretar como um carinho comum, mas também não vai ter clareza se é um abuso. Hoje em dia não podemos mais deixar crianças soltas sem a orientação de um adulto. Isso foi uma realidade antiga. Precisamos também estar atentos aos conteúdos que elas têm acesso na internet. Algumas novelas, filmes e desenhos podem não ser adequadas para a idade. Aos poucos devemos ir ensinando sobre a sexualidade, mas não se pode adiantar conteúdos. Não vou mostrar para uma criança de 4 anos, algo que será compreendido por uma criança de 10. Essa é uma responsabilidade da sociedade como um todo. Não se pode compactuar com pedofilia.

F.V: Há algum sinal que indica que uma determinada pessoa seja um possível abusador?
F.F:
Infelizmente não existe um sinal que dê essa certeza. Indivíduos de qualquer gênero ou classes sociais podem ser o abusador. Vale ressaltar que o abusador não precisa ser o pedófilo e o pedófilo não precisa, necessariamente, ser o abusador. O pedófilo é aquele que tem a doença e tem uma personalidade mais infantilizada na sexualidade. Outras pessoas com outras características podem ter o desejo sexual pelo vulnerável, que podem ser crianças, idosos, grávidas, entre outros. Com isso, eles ameaçam a criança com conversas do tipo 'Eu te amo, mas este é um carinho que não se conta pra ninguém'.

F.V: Esse tipo de conduta pode ser tratada como um transtorno? Há tratamento para isso?
F.F:
A pedofilia é uma doença. O tratamento não traz cura, mas consegue alguma melhoria. É necessário um acompanhamento multiprofissional, um psicólogo para ajudar na contenção do desejo e impulso sexual e, às vezes, pode usar medicamentos. Infelizmente não tem garantia absoluta que a pessoa vai deixar de praticar o ato, mas existe a melhoria. Isso é uma doença. Não se pode, simplesmente, prender o pedófilo porque isso não vai garantir uma melhoria. Um abusador, que não é pedófilo e praticou estupro ou ato erótico, somente a prisão não resolve.