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Baía de Vitória: entre a beleza e a degradação

Geral

Baía de Vitória: entre a beleza e a degradação

Manchas escuras são percebidas por moradores e turistas, e mostram o problema do esgoto lançado sem tratamento no mar

Andressa Missio

Redação Folha Vitória

Foto: Petrus Lopes
Baía de Vitória vista do Morro do Moreno: mancha escura é esgoto lançado no mar

A imagem paradisíaca, que ilustra um dos cenários mais encantadores do Espírito Santo, também perturba. Mistura beleza com degradação. A cena é fotografada diariamente por moradores, atletas e turistas que sobem as trilhas do Morro do Moreno, em Vila Velha. 

O olhar mais atento consegue perceber a mancha escura no mar esverdeado. É esgoto, que vem do Canal Bigossi, antigamente conhecido como Canal da Costa, ou mais comumente "valão", que passa por debaixo da Terceira Ponte. 

"As pessoas até esquecem que o valão era um rio, hoje tomado pelo esgoto. Meu pai pescava no Canal Bigossi", conta com tristeza o ambientalista Fábio Medeiros, do Instituto Ecomaris/Projeto Pegada. Mas esta não é a única fonte de dejetos que desemboca na baía de Vitória. "Tem esgoto de Santa Tereza, de Santa Leopoldina, de outros muitos municípios que vêm diretamente para o nosso litoral. É só pensar: tudo o que não é tratado e que vai para os rios, acaba chegando ao mangue, acaba lançado no mar", explica Medeiros. 

O ambientalista também reforça que não é apenas da periferia que vêm o esgoto não tratado, que chega ao litoral. "A ocupação desordenada colaborou com esta realidade, mas temos imóveis em locais como a Praia do Canto, na capital, que ainda não fizeram a ligação dos resíduos à rede coletora já disponível", alerta. 

GARGALOS DA POLUIÇÃO

São dois os gargalos da poluição do mar, provocada pelo esgoto: um deles é o dejeto não tratado porque não há infraestrutura para a coleta. O outro vem de ligações clandestinas, que não passam pelas estações de tratamento. No caso das ligações irregulares, os imóveis lançam seus esgotos indevidamente nas redes de drenagem pluvial, planejadas para receber apenas a água das chuvas que escoam de telhados, calhas, pátios e das ruas das cidades. A fiscalização desse sistema é realizada pelas prefeituras municipais. 

A Cesan, responsável pelo saneamento de 52 municípios capixabas, busca reverter o quadro de clandestinidade através do programa Se Liga na Rede, que incentiva as ligações dos imóveis onde as redes de coleta e tratamento de esgoto já estão disponíveis. Segundo a companhia, nos últimos dois anos, foram 79 ações, concluídas e em andamento, que resultaram em 2.341 imóveis ligados às redes de esgoto e mais de 400 milhões de litros de esgoto por ano, que deixaram de ser lançados sem tratamento no meio ambiente.

Foto: Divulgação
Robô com câmera acoplada para detectar ligações irregulares de esgoto

Os técnicos realizam vistorias presenciais e verificam - imóvel por imóvel - os que ainda não foram ligados às redes. O trabalho é auxiliado por tecnologias como a injeção de fumaça e o uso de robôs que inspecionam as tubulações, em busca de ligações clandestinas que lançam esgoto indevidamente nas redes de drenagem pluvial. Quando identificada a irregularidade, o Ministério Público é informado. O proprietário do imóvel tem 60 dias para realizar a ligação. Caso o prazo não seja cumprido, o dono irá responder na justiça.

A Cesan trabalha em parceria com as prefeituras, a administração dos municípios emite uma carta e os agentes da companhia fazem a entrega no imóvel. Após o recebimento da carta, com a informação de que o imóvel não está ligado à rede de esgoto, o proprietário tem um prazo, que varia de acordo com o município, para regularizar a situação. Passado esse prazo, pode receber multas que chegam a R$ 28 mil conforme o município. 

Foto: Divulgação
Insuflador utilizado para injetar fumaça nas tubulações e detectar ligações clandestinas

Nos cinco municípios da Grande Vitória (Vitória, Vila Velha, Serra, Cariacica e Viana) , 72% da população têm serviço de coleta e tratamento de esgoto, de acordo com a Cesan. A porcentagem cai para 65% quando incluídos todos os 52 municípios atendidos. Ainda segundo a companhia,

a Cesan vai realizar investimentos de mais de R$ 2 bilhões na ampliação dos serviços de abastecimento de água e coleta e tratamento de esgoto nos próximos 4 anos. Com as Parcerias Público-Privadas (PPP) em Serra, em Vila Velha e em Cariacica, que está em vias de ser concluída, a companhia estima que a universalização do esgoto na Região Metropolitana da Grande Vitória seja alcançada nos próximos 10 anos.

Em 2018, foram tratados mais de 68 bilhões de litros de esgoto. Até julho de 2019, mais de 48 bilhões de litros. Somente nos municípios da Grande Vitória (Vitória, Vila Velha, Serra, Cariacica e Viana) foram tratados mais de 55 bilhões de litros de esgoto no ano passado e, até julho de 2019 mais de 39 bilhões de litros. A Cesan não possui a informação do volume de esgoto que ainda é lançado na Baía de Vitória. 

Para o ambientalista Fábio Medeiros, a qualidade da água na baía de Vitória melhorou nos últimos dez anos. Segundo ele, foi possível perceber tal evolução através da fauna marinha, que aumentou. No entanto, é preciso ter clareza de que o desafio ainda é grande, afinal, a cada 100 imóveis, 28 ainda não estão interligados à rede de esgoto, em 52 municípios do Espírito Santo. "É um trabalho conjunto, que envolve Governo do Estado, Companhia de Saneamento, o Poder Judiciário, empresas, Municípios e a comunidade. De nada adianta apontar culpados, é preciso agir", diz o ambientalista. 

Na próxima reportagem da série sobre o Esgoto na Baía de Vitória, saiba como funciona o tratamento do esgoto, para onde vai a água tratada, e as análises realizadas. 

A Rede Vitória também quer agir. Por isso, está em andamento a campanha ambiental Sereias Capixabas. A ideia é empoderar mulheres, vestidas de sereias, para promover a educação ambiental.